Mundo ficciónIniciar sesiónO ar na fronteira do território estava pesado.
Os guerreiros da alcateia Nightshade formavam um semicírculo atrás de Kael, todos em silêncio absoluto. A lua ainda dominava o céu, brilhando como testemunha inevitável.
Do outro lado da linha invisível que separava os territórios, Rowan permanecia imóvel.
Alto. Ombros largos. Cabelos claros presos para trás. O olhar frio e calculista.
Ele sorriu quando Kael se aproximou.
— Então é verdade — Rowan disse, a voz carregada de provocação. — Você realmente marcou uma humana.
Kael parou a poucos metros dele.
— Eu não costumo discutir minha vida pessoal com você.
Rowan riu.
— Isso deixou de ser pessoal no momento em que a marca foi sentida por três alcateias.
Murmúrios surgiram entre os lobos atrás deles.
Kael manteve a postura firme.
— Diga o que quer e vá embora.
Rowan inclinou levemente a cabeça.
— Quero garantir que você ainda é digno de liderar.
Silêncio absoluto.
As palavras ecoaram como uma acusação formal.
Kael sentiu a tensão subir pela espinha. Ele sabia que aquele momento poderia redefinir tudo.
— Está me desafiando oficialmente? — perguntou, a voz baixa.
Rowan deu um passo à frente.
— Estou questionando sua estabilidade.
Os guerreiros se agitaram.
Um desafio direto exigiria combate ritual.
Mas Rowan era inteligente.
Ele não estava pedindo luta ainda.
Estava plantando dúvida.
— Uma humana, Kael — Rowan continuou. — Filha de Marcus Vale. Você realmente acha que isso é coincidência?
O nome pairou no ar como veneno.
Kael não demonstrou reação.
Mas por dentro, a menção atingiu fundo.
Rowan se aproximou mais um passo.
— Ou talvez seja exatamente isso que ela foi enviada para fazer.
Os olhos de Kael brilharam.
— Cuidado com o que insinua.
— Estou apenas protegendo a estabilidade das alcateias — Rowan respondeu com falsa serenidade. — Se seu julgamento está comprometido, alguém precisa agir.
O desafio estava implícito agora.
Se Kael reagisse com agressividade, confirmaria instabilidade.
Se ficasse passivo, pareceria fraco.
Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Rowan.
— Minha liderança não está aberta para votação.
Rowan sustentou o olhar.
Por um segundo, o ar pareceu vibrar entre os dois.
Duas forças iguais.
Dois Alfas.
— Então prove — Rowan murmurou.
Antes que qualquer outro movimento acontecesse, um vento forte atravessou a clareira.
Trazendo um cheiro familiar.
Kael sentiu imediatamente.
Liora.
Ele virou o rosto instintivamente.
Ela estava ali.
A poucos metros atrás dos guerreiros.
O cabelo solto, o olhar determinado.
O vínculo reagiu instantaneamente.
Calor.
Proteção.
Raiva.
Rowan seguiu o olhar de Kael.
E sorriu.
— Então essa é a humana.
Liora sentiu dezenas de olhos sobre ela.
Mas não recuou.
Ela caminhou até ficar ao lado de Kael.
— Eu não sou um troféu para vocês discutirem — disse, a voz firme apesar do coração acelerado.
Um murmúrio percorreu os lobos.
Rowan analisou-a de cima a baixo.
— Corajosa.
— Não — ela respondeu. — Apenas cansada.
Kael sentiu algo inesperado.
Orgulho.
Mas também medo.
Porque Rowan agora a via claramente como peça estratégica.
— Você sabe quem é seu pai? — Rowan perguntou.
Kael enrijeceu.
— Não responda — ele disse baixo.
Mas Liora manteve o olhar fixo em Rowan.
— Sei que ele morreu acreditando que tinha feito a coisa certa.
Alguns lobos rosnaram.
Rowan arqueou uma sobrancelha.
— Ele vendeu informações que causaram massacre.
Ela engoliu em seco.
— Eu não sou ele.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Kael colocou-se levemente à frente dela.
— Chega.
Rowan inclinou a cabeça.
— Muito bem. Não lutaremos hoje.
Alguns guerreiros relaxaram.
Mas o sorriso de Rowan não era de desistência.
— Mas saiba disso, Kael… se qualquer sinal de fraqueza surgir… eu voltarei. E da próxima vez, não será conversa.
Ele se virou, começando a se afastar.
Mas antes de cruzar completamente a fronteira, lançou um último olhar para Liora.
— E talvez eu leve sua humana comigo.
A ameaça foi clara.
Instantaneamente, o corpo de Kael reagiu.
Ele avançou.
Em um segundo, estava diante de Rowan, segurando-o pelo colarinho.
Os guerreiros ficaram em alerta máximo.
Os olhos de Kael estavam completamente dourados agora.
— Se você sequer pensar nisso…
A voz dele era quase um rosnado.
Rowan não demonstrou medo.
Apenas um leve sorriso.
— Está vendo? Instabilidade.
Kael percebeu tarde demais.
Rowan havia provocado exatamente a reação que queria.
Ele soltou o rival abruptamente.
— Vá embora.
Rowan ajeitou a camisa.
— Até breve, Alfa.
E desapareceu na escuridão da floresta.
O silêncio que ficou parecia mais pesado que qualquer grito.
Kael virou-se lentamente.
Todos estavam observando.
Esperando.
Avaliando.
Ele precisava mostrar controle.
Ele caminhou até Liora.
— Eu disse para ficar na casa.
Ela sustentou o olhar.
— Eu não vou me esconder por sua causa.
Ele respirou fundo.
O vínculo ainda pulsava entre eles.
— Ele vai usar você contra mim.
— Então me ensine a não ser usada.
A resposta surpreendeu até ele.
Ela não queria fugir.
Queria lutar.
Isso mudava tudo.
Viktor aproximou-se.
— Alfa, precisamos discutir o próximo passo.
Kael assentiu.
Mas antes de sair, segurou o pulso de Liora.
A marca brilhou intensamente sob a lua.
Todos viram.
Todos sentiram.
Ele sabia o que precisava fazer.
Se mantivesse o vínculo informal, pareceria indeciso.
Se oficializasse…
Estaria declarando guerra indireta.
Ele encarou a alcateia.
Depois encarou Liora.
O destino não estava apenas batendo à porta.
Estava exigindo decisão.
Ele ergueu a voz.
— Amanhã ao nascer do sol, o vínculo será reconhecido oficialmente.
Um choque percorreu o grupo.
Liora o encarou.
— O que isso significa?
Ele se inclinou levemente em direção a ela.
— Significa que você deixa de ser apenas humana.
E se torna Alfa ao meu lado.
A lua brilhou mais forte.
E, na escuridão distante da floresta…
Um par de olhos observava.
Rowan não havia ido tão longe quanto fingira.
E ele já estava planejando seu próximo movimento.







