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CAPÍTULO 2 – O SANGUE DO PASSADO

A tensão não desapareceu quando voltaram para o território.

Ela apenas cresceu.

Liora caminhava ao lado de Kael, cercada por lobos que a observavam como se fosse uma ameaça invisível. O vínculo entre ela e o Alfa pulsava como um fio elétrico sob a pele, forte demais para ser ignorado.

A marca em seu pulso ainda brilhava suavemente.

— Isso vai parar de brilhar? — ela sussurrou.

Kael lançou um olhar rápido para ela.

— Quando o vínculo estabilizar.

— Vínculo… você continua falando como se isso fosse normal.

Para ele, era.

Mas nunca daquela forma.

Nunca com uma humana.

Ao atravessarem o portão principal do território, Liora percebeu que aquilo não era apenas uma floresta. Havia casas espalhadas entre as árvores, construídas com madeira escura e pedra. Homens e mulheres observavam das janelas.

Todos sabiam.

Todos sentiam.

Ela era a estranha.

O peso dos olhares fez sua respiração ficar mais curta.

Kael percebeu imediatamente.

Ele encostou a mão nas costas dela, firme, protetor.

O toque fez o vínculo reagir novamente.

Calor.

Segurança.

Confusão.

Eles entraram na construção maior ao centro — a casa do Alfa.

Assim que a porta se fechou, o barulho externo desapareceu.

Liora soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.

— Você vai me explicar agora? — ela exigiu.

Kael permaneceu alguns segundos em silêncio.

Ele não estava acostumado a explicar nada a ninguém.

Mas ela merecia.

— Existem coisas neste mundo que os humanos não veem — começou. — Lobisomens são uma delas.

Ela piscou.

Depois riu nervosamente.

— Isso é alguma piada?

Ele não sorriu.

Os olhos dourados surgiram por um instante.

A respiração dela falhou.

— Você está falando sério…

— Sim.

Ela deu um passo atrás.

— Isso não é possível.

— É. E você acabou de se tornar parte disso.

Ela olhou para o próprio pulso.

A marca parecia pulsar no ritmo do coração dela.

— E isso?

— É a Marca da Companheira. Significa que você é destinada a mim.

Ela ergueu o olhar lentamente.

— Destinada… como?

Ele aproximou-se.

— Como minha parceira. Minha igual. Minha Alfa ao meu lado.

Ela ficou imóvel.

— Eu não escolhi isso.

A mandíbula dele ficou tensa.

— Nem eu.

O silêncio entre eles era carregado.

Mas não era apenas tensão.

Era algo mais profundo.

Algo inevitável.

Batidas firmes na porta interromperam o momento.

Viktor entrou sem esperar permissão.

— Alfa, precisamos conversar.

O olhar do ancião deslizou para Liora.

— Sozinhos.

Kael hesitou.

Ele não queria deixá-la.

Mas precisava ouvir o conselho.

— Fique aqui — disse a ela.

— Eu não sou prisioneira.

Ele sustentou o olhar dela.

— E eu não sou seu inimigo.

Depois saiu.

Liora ficou sozinha na sala ampla, tentando absorver tudo.

Lobisomens.

Destino.

Companheira.

Era absurdo.

Mas a marca queimando em sua pele não parecia imaginação.

Ela caminhou até a janela.

Do lado de fora, duas mulheres cochichavam olhando em sua direção.

Hostilidade.

Ela sentiu.

E pela primeira vez, medo real se instalou.

Não do sobrenatural.

Mas de não pertencer.

Enquanto isso, na sala do conselho, as vozes estavam elevadas.

— Isso é instabilidade — Viktor dizia. — Outras alcateias já sentiram o vínculo. A notícia vai se espalhar.

— Que espalhe — Kael respondeu.

— Ela é filha de Marcus Vale.

O nome ainda era como veneno.

Kael ficou rígido.

— Ela não é o pai.

— O sangue importa — outro conselheiro afirmou.

Kael avançou um passo.

— O vínculo é mais forte que sangue.

O silêncio caiu.

Porque todos sabiam que ele tinha razão.

Mas razão nem sempre era suficiente para manter poder.

Viktor respirou fundo.

— Rowan já enviou um mensageiro.

Kael sentiu o estômago apertar.

— O que ele quer?

— Confirmar se você perdeu o juízo.

Raiva percorreu suas veias.

Rowan sempre esperou uma oportunidade.

Se questionasse oficialmente a liderança de Kael, poderia exigir um duelo.

E se o duelo acontecesse sob suspeita de fraqueza…

Outras alcateias poderiam apoiar Rowan.

— Ele está vindo? — Kael perguntou.

— Já está na fronteira.

O silêncio ficou pesado.

Kael sabia que não podia demonstrar hesitação.

— Preparem os guerreiros.

Ele virou-se para sair, mas Viktor segurou seu braço.

— Se você aceitar oficialmente o vínculo com ela antes do desafio, estará declarando que escolheu uma humana acima da tradição.

Kael olhou para a mão do ancião e depois para seus olhos.

— Eu não escolhi.

A voz dele ficou mais baixa.

— A lua escolheu.

Quando voltou para a sala principal, encontrou Liora parada no centro do espaço.

Ela parecia menor ali dentro.

Mas seus olhos estavam decididos.

— Eu ouvi parte da conversa — ela disse.

Ele não ficou surpreso.

— Então você sabe.

— Alguém quer lutar com você por minha causa.

Ele aproximou-se lentamente.

— Não é por sua causa.

— É por causa do que eu represento.

Ela não era tola.

Kael parou diante dela.

— Você representa mudança.

Ela engoliu em seco.

— E mudança assusta.

Ele estendeu a mão e tocou o pulso dela novamente.

Dessa vez, a marca não queimou.

Ela aqueceu.

O vínculo estava se firmando.

— Existe uma forma de parar isso? — ela perguntou.

A pergunta foi como uma lâmina.

Sim.

Rejeição formal.

Mas a dor seria devastadora.

Para ambos.

Ele segurou o queixo dela levemente.

— Existe.

— Então faça.

Os olhos dourados dele escureceram.

— Eu não quero.

O ar entre eles ficou pesado.

A proximidade era intensa demais.

Ela sentia o calor do corpo dele.

O cheiro dele.

Floresta. Noite. Algo selvagem.

Ele se inclinou levemente.

Não para beijá-la.

Mas para sussurrar.

— E se Rowan tocar em você…

A voz dele ficou mais grave.

— Eu o matarei.

Antes que ela pudesse responder, um uivo ecoou.

Próximo.

Desafiador.

A janela vibrou levemente.

Kael fechou os olhos por um segundo.

Rowan havia chegado.

Ele soltou Liora devagar.

— Fique aqui.

Ela segurou o braço dele.

— Se você morrer?

Ele encarou a mão dela segurando-o.

Depois seus olhos.

— Eu não morro fácil.

E saiu.

Liora ficou parada no centro da sala, o coração acelerado.

Do lado de fora, o som de passos se reuniu.

Guerreiros.

Expectativa.

Guerra iminente.

Ela olhou para a marca no pulso.

Ela nunca acreditou em destino.

Mas o destino parecia acreditar nela.

E agora, um Alfa rival estava lá fora.

Pronto para desafiar o homem que, por algum motivo inexplicável…

Ela não queria perder.

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