Mundo de ficçãoIniciar sessãoA tensão não desapareceu quando voltaram para o território.
Ela apenas cresceu.
Liora caminhava ao lado de Kael, cercada por lobos que a observavam como se fosse uma ameaça invisível. O vínculo entre ela e o Alfa pulsava como um fio elétrico sob a pele, forte demais para ser ignorado.
A marca em seu pulso ainda brilhava suavemente.
— Isso vai parar de brilhar? — ela sussurrou.
Kael lançou um olhar rápido para ela.
— Quando o vínculo estabilizar.
— Vínculo… você continua falando como se isso fosse normal.
Para ele, era.
Mas nunca daquela forma.
Nunca com uma humana.
Ao atravessarem o portão principal do território, Liora percebeu que aquilo não era apenas uma floresta. Havia casas espalhadas entre as árvores, construídas com madeira escura e pedra. Homens e mulheres observavam das janelas.
Todos sabiam.
Todos sentiam.
Ela era a estranha.
O peso dos olhares fez sua respiração ficar mais curta.
Kael percebeu imediatamente.
Ele encostou a mão nas costas dela, firme, protetor.
O toque fez o vínculo reagir novamente.
Calor.
Segurança.
Confusão.
Eles entraram na construção maior ao centro — a casa do Alfa.
Assim que a porta se fechou, o barulho externo desapareceu.
Liora soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
— Você vai me explicar agora? — ela exigiu.
Kael permaneceu alguns segundos em silêncio.
Ele não estava acostumado a explicar nada a ninguém.
Mas ela merecia.
— Existem coisas neste mundo que os humanos não veem — começou. — Lobisomens são uma delas.
Ela piscou.
Depois riu nervosamente.
— Isso é alguma piada?
Ele não sorriu.
Os olhos dourados surgiram por um instante.
A respiração dela falhou.
— Você está falando sério…
— Sim.
Ela deu um passo atrás.
— Isso não é possível.
— É. E você acabou de se tornar parte disso.
Ela olhou para o próprio pulso.
A marca parecia pulsar no ritmo do coração dela.
— E isso?
— É a Marca da Companheira. Significa que você é destinada a mim.
Ela ergueu o olhar lentamente.
— Destinada… como?
Ele aproximou-se.
— Como minha parceira. Minha igual. Minha Alfa ao meu lado.
Ela ficou imóvel.
— Eu não escolhi isso.
A mandíbula dele ficou tensa.
— Nem eu.
O silêncio entre eles era carregado.
Mas não era apenas tensão.
Era algo mais profundo.
Algo inevitável.
Batidas firmes na porta interromperam o momento.
Viktor entrou sem esperar permissão.
— Alfa, precisamos conversar.
O olhar do ancião deslizou para Liora.
— Sozinhos.
Kael hesitou.
Ele não queria deixá-la.
Mas precisava ouvir o conselho.
— Fique aqui — disse a ela.
— Eu não sou prisioneira.
Ele sustentou o olhar dela.
— E eu não sou seu inimigo.
Depois saiu.
Liora ficou sozinha na sala ampla, tentando absorver tudo.
Lobisomens.
Destino.
Companheira.
Era absurdo.
Mas a marca queimando em sua pele não parecia imaginação.
Ela caminhou até a janela.
Do lado de fora, duas mulheres cochichavam olhando em sua direção.
Hostilidade.
Ela sentiu.
E pela primeira vez, medo real se instalou.
Não do sobrenatural.
Mas de não pertencer.
Enquanto isso, na sala do conselho, as vozes estavam elevadas.
— Isso é instabilidade — Viktor dizia. — Outras alcateias já sentiram o vínculo. A notícia vai se espalhar.
— Que espalhe — Kael respondeu.
— Ela é filha de Marcus Vale.
O nome ainda era como veneno.
Kael ficou rígido.
— Ela não é o pai.
— O sangue importa — outro conselheiro afirmou.
Kael avançou um passo.
— O vínculo é mais forte que sangue.
O silêncio caiu.
Porque todos sabiam que ele tinha razão.
Mas razão nem sempre era suficiente para manter poder.
Viktor respirou fundo.
— Rowan já enviou um mensageiro.
Kael sentiu o estômago apertar.
— O que ele quer?
— Confirmar se você perdeu o juízo.
Raiva percorreu suas veias.
Rowan sempre esperou uma oportunidade.
Se questionasse oficialmente a liderança de Kael, poderia exigir um duelo.
E se o duelo acontecesse sob suspeita de fraqueza…
Outras alcateias poderiam apoiar Rowan.
— Ele está vindo? — Kael perguntou.
— Já está na fronteira.
O silêncio ficou pesado.
Kael sabia que não podia demonstrar hesitação.
— Preparem os guerreiros.
Ele virou-se para sair, mas Viktor segurou seu braço.
— Se você aceitar oficialmente o vínculo com ela antes do desafio, estará declarando que escolheu uma humana acima da tradição.
Kael olhou para a mão do ancião e depois para seus olhos.
— Eu não escolhi.
A voz dele ficou mais baixa.
— A lua escolheu.
Quando voltou para a sala principal, encontrou Liora parada no centro do espaço.
Ela parecia menor ali dentro.
Mas seus olhos estavam decididos.
— Eu ouvi parte da conversa — ela disse.
Ele não ficou surpreso.
— Então você sabe.
— Alguém quer lutar com você por minha causa.
Ele aproximou-se lentamente.
— Não é por sua causa.
— É por causa do que eu represento.
Ela não era tola.
Kael parou diante dela.
— Você representa mudança.
Ela engoliu em seco.
— E mudança assusta.
Ele estendeu a mão e tocou o pulso dela novamente.
Dessa vez, a marca não queimou.
Ela aqueceu.
O vínculo estava se firmando.
— Existe uma forma de parar isso? — ela perguntou.
A pergunta foi como uma lâmina.
Sim.
Rejeição formal.
Mas a dor seria devastadora.
Para ambos.
Ele segurou o queixo dela levemente.
— Existe.
— Então faça.
Os olhos dourados dele escureceram.
— Eu não quero.
O ar entre eles ficou pesado.
A proximidade era intensa demais.
Ela sentia o calor do corpo dele.
O cheiro dele.
Floresta. Noite. Algo selvagem.
Ele se inclinou levemente.
Não para beijá-la.
Mas para sussurrar.
— E se Rowan tocar em você…
A voz dele ficou mais grave.
— Eu o matarei.
Antes que ela pudesse responder, um uivo ecoou.
Próximo.
Desafiador.
A janela vibrou levemente.
Kael fechou os olhos por um segundo.
Rowan havia chegado.
Ele soltou Liora devagar.
— Fique aqui.
Ela segurou o braço dele.
— Se você morrer?
Ele encarou a mão dela segurando-o.
Depois seus olhos.
— Eu não morro fácil.
E saiu.
Liora ficou parada no centro da sala, o coração acelerado.
Do lado de fora, o som de passos se reuniu.
Guerreiros.
Expectativa.
Guerra iminente.
Ela olhou para a marca no pulso.
Ela nunca acreditou em destino.
Mas o destino parecia acreditar nela.
E agora, um Alfa rival estava lá fora.
Pronto para desafiar o homem que, por algum motivo inexplicável…
Ela não queria perder.







