Mundo de ficçãoIniciar sessão
A floresta respirava sob a luz prateada da lua cheia.
O vento percorria as copas das árvores altas, espalhando o cheiro úmido de terra e folhas antigas. Para qualquer humano, seria apenas mais uma noite silenciosa. Para Kael Nightshade, era informação.
Ele sentia tudo.
Cada movimento de presa.
Como Alfa, seus sentidos eram mais afiados do que os de qualquer outro lobo. Não apenas porque nascera forte, mas porque a responsabilidade o obrigara a ser.
Ele caminhava à frente da patrulha, os dois betas logo atrás. O silêncio entre eles era confortável — lobos não precisavam de palavras desnecessárias.
Então o vento mudou.
Kael parou imediatamente.
O cheiro atingiu seu olfato como um golpe.
Gasolina.
Metal quente.
E algo mais.
Doce.
Quente.
Humano.
Seu corpo inteiro ficou rígido.
— Alfa? — Darius murmurou atrás dele.
Kael ergueu a mão, exigindo silêncio.
Ele fechou os olhos e inspirou profundamente.
O cheiro voltou, mais intenso agora. Misturado a um leve traço de sangue.
Mas não era o sangue que fazia seu coração bater mais rápido.
Era o outro aroma.
Algo dentro dele despertou.
Minha.
A palavra ecoou dentro de sua mente, baixa e possessiva.
Kael abriu os olhos lentamente. O dourado da íris brilhou sob a luz da lua.
Não. Isso era impossível.
Alfas não tinham companheiras humanas.
E aquele cheiro era inconfundível.
Ele virou-se para os betas.
— Fiquem aqui.
Sem esperar resposta, moveu-se pela floresta com velocidade silenciosa. Galhos se afastavam sob seus passos firmes. O cheiro o guiava como uma trilha invisível.
Quando alcançou a estrada que delimitava o território, viu o carro.
Capô aberto.
Porta entreaberta.
E a alguns metros…
Ela.
Caída no asfalto frio.
Kael parou.
Por um segundo que pareceu uma eternidade.
Ela tinha cabelos escuros espalhados ao redor do rosto e a respiração leve, quase imperceptível. Havia um arranhão no pulso, sangue fresco escorrendo lentamente pela pele clara.
Humana.
Ele deveria ir embora.
Humanos eram problemas.
Mas seu corpo não obedecia.
Kael aproximou-se devagar e ajoelhou ao lado dela.
O cheiro estava mais forte agora.
Mais profundo.
Ele inalou outra vez.
E então não houve mais dúvida.
Companheira.
O mundo pareceu estreitar-se ao redor dele.
O vínculo ainda não estava formado completamente, mas já existia como uma tensão elétrica no ar.
Ela se mexeu.
Um pequeno gemido escapou de seus lábios enquanto tentava abrir os olhos.
Kael ficou imóvel.
Ela piscou algumas vezes até que o olhar encontrou o dele.
Castanhos.
Profundos.
Assustados.
— Onde eu estou…? — a voz dela saiu fraca.
O coração dele bateu forte demais.
Kael não lembrava da última vez que algo o deixou desequilibrado.
— Seu carro quebrou — respondeu, a voz grave e controlada.
Ela tentou se sentar, mas fez uma careta ao apoiar o pulso ferido.
Instintivamente, ele segurou sua mão.
O toque foi como fogo.
Uma descarga percorreu o corpo dele. E pelo modo como ela arfou, ela sentiu também.
O brilho começou.
Linhas prateadas surgiram sob a pele do pulso dela, formando um símbolo antigo que Kael conhecia melhor do que qualquer um.
A Marca da Companheira.
Ela puxou a mão de volta, assustada.
— O que é isso?! O que está acontecendo comigo?!
O brilho aumentou.
A lua parecia reagir.
Kael sentiu sua fera agitar-se violentamente dentro dele.
Reivindique.
Mas ele não podia.
Não ali.
Não assim.
Ao longe, uivos cortaram a noite.
A alcateia estava sentindo.
A marca estava forte demais para ser escondida.
Ela olhou ao redor, desesperada.
— Que som foi esse?
Kael ficou de pé e a ajudou a se levantar. Ela era pequena perto dele. Leve demais.
Frágil.
Mas seus olhos não eram fracos.
Havia força ali.
— Fique atrás de mim — ele disse, firme.
Sombras começaram a surgir entre as árvores.
Lobos em forma humana emergiam da floresta, atraídos pelo chamado do vínculo.
O conselho estava entre eles.
Viktor, o ancião, foi o primeiro a falar.
— Alfa… — o olhar dele desceu para o pulso brilhante da garota. — Explique.
Kael não desviou.
— Ela é minha companheira.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Um rosnado baixo ecoou entre alguns dos guerreiros.
— Humana? — alguém murmurou.
Ela apertou o braço de Kael.
— O que está acontecendo? Quem são eles?
Ele podia sentir o medo dela através do vínculo nascente.
E isso despertou algo perigoso dentro dele.
Proteção.
Posse.
Fúria.
Viktor deu um passo à frente.
— Qual é o seu nome, garota?
Ela hesitou.
— Liora.
— Sobrenome.
Ela engoliu em seco.
— Vale.
O mundo ficou gelado.
Kael sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
Vale.
O nome do homem que anos atrás entregou informações vitais da alcateia a inimigos.
O traidor responsável pela morte de dezenas de lobos.
Marcus Vale.
O pai dela.
Os murmúrios começaram.
A palavra traição espalhou-se como veneno.
Liora percebeu a mudança no ambiente.
— Eu não sei o que está acontecendo, mas meu pai morreu há anos — disse, com voz trêmula. — Eu não tenho nada a ver com nada disso.
Kael estudou o cheiro dela.
Não havia mentira.
O vínculo não permitiria.
Mas sua alcateia não funcionava apenas com instinto.
Funcionava com memória.
E sangue.
— Alfa — Viktor falou com cuidado. — Isso pode ser uma armadilha. O sangue dela carrega o nome do homem que quase destruiu nosso povo.
A fera dentro de Kael rosnou.
Ela é nossa.
Ele segurou o pulso dela novamente.
A marca brilhou forte, como se respondesse.
Rejeitar o vínculo agora causaria dor indescritível para ambos.
Aceitar significaria guerra.
Porque outras alcateias veriam isso como fraqueza.
E seus inimigos estavam esperando qualquer sinal de instabilidade.
Kael encarou Viktor.
— Ela está sob minha proteção.
Um dos guerreiros avançou meio passo.
— Isso é imprudente!
Os olhos de Kael ficaram dourados, brilhando intensamente.
— Isso é decisão do Alfa.
O silêncio caiu imediatamente.
Mas a tensão não desapareceu.
Ela apenas mudou de forma.
Liora puxou levemente a camisa dele.
— Você pode me explicar, por favor?
Ele olhou para ela.
E pela primeira vez em anos, sentiu algo além de dever.
Sentiu escolha.
— Você é minha companheira — disse, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse. — E isso significa que o destino decidiu por nós.
Ela o encarou como se ele estivesse louco.
— Eu não acredito em destino.
Um leve sorriso quase surgiu nos lábios dele.
— A lua acredita.
Ao longe, outro uivo ecoou.
Mas aquele não era da sua alcateia.
Era diferente.
Mais profundo.
Mais desafiador.
Viktor empalideceu.
— Rowan — murmurou.
O nome pairou no ar como uma ameaça.
Kael sentiu o cheiro do rival aproximando-se do território.
Ele olhou para Liora.
O destino não havia apenas dado a ele uma companheira humana.
Havia dado a ele a filha de um traidor.
No momento exato em que um Alfa rival decidia testar sua liderança.
A lua brilhava alto no céu.
E Kael soube, com absoluta certeza, que aquela noite não era coincidência.
Era o começo de algo maior.
E se ele escolhesse protegê-la…
A floresta inteira poderia sangrar.







