Mundo de ficçãoIniciar sessãoFiorella procurava freneticamente pelo filho pelos corredores labirínticos, o desespero cegando seus sentidos a ponto de ela sequer notar as pessoas paradas diante do elevador.
Jean Carlo Vans levou com uma rajada de vento no rosto quando a mulher passou correndo por ele como um furacão. Ele franziu levemente a testa e, por um impulso raríssimo em sua rotina milimetricamente calculada, olhou para trás.
A desconhecida era alta, esbelta, dona de uma silhueta inegavelmente bonita e elegante. Mas homens na posição de Jean Carlo nunca sofriam com a falta de mulheres exuberantes ao redor. Ele apenas observou a pressa dela com distanciamento.
Júlio, no entanto, acompanhou o rastro da mulher com os olhos arregalados.
"Parece que é a mãe do garotinho, chefe. E, caramba, ela é bem bonita."
Jean Carlo não respondeu. Voltou-se para a frente e entrou no cubículo metálico assim que as portas se abriram. Enquanto o elevador iniciava a descida, ele quebrou o silêncio com sua habitual voz calma e magnética:
"Cancele minha agenda de amanhã pela manhã, Júlio. Preciso ir até o quartel dos bombeiros recolher os pertences pessoais do Yan."
O assistente assentiu prontamente, sentindo o peso do ambiente. "Certo, senhor."
Desde o sacrifício heroico do caçula, toda a poderosa família Vans havia sido paralisada por uma névoa densa de luto. Faltavam forças, faltava tempo para encarar o que havia restado da vida do jovem bombeiro. Só de mentalizar a cena que enfrentaria no dia seguinte, o geralmente inabalável Jean Carlo sentiu os olhos arderem em um silêncio cortante.
"Ben! Você quase parou o coração da sua mãe!"
Do outro lado do andar, Fiorella finalmente alcançou o filho. Ela se agachou no chão frio do hospital e o apertou contra o peito com tanta força que quase faltou ar ao menino. "Por favor, nunca mais saia correndo assim, tá bom? Você deixa a mamãe maluca de preocupação."
Ben fez um beiço culpado, os olhinhos marejados de arrependimento.
"Desculpa, mamãe. Eu saí para te procurar, mas esse hospital é grande demais e eu me perdi..."
"Tudo bem, meu amor. A mamãe entende." Fiorella cobriu o rostinho dele de beijos, pegando-o no colo com cuidado.
Erguendo-se, ela voltou-se para o médico-chefe que os acompanhava e desfez-se em agradecimentos repetidos. O doutor a observava em silêncio, genuinamente impressionado com as feições aristocráticas, delicadas e expressivas de Fiorella. Rendendo-se à curiosidade, ele pigarreou para puxar assunto:
"Com licença, Sra. Malta. A senhora está na instituição visitando algum parente ou acompanhando um paciente internado?"
"Estou internando meu filho", ela respondeu com uma polidez distante.
"Em qual departamento, se me permite a ousadia?"
"Hematologia."
Fiorella estreitou os olhos de leve ao ler o crachá de identificação de alta liderança no jaleco dele. "Por que a pergunta, doutor?"
O médico-chefe sorriu de forma acolhedora, tentando suavizar o tom. "Sem nenhuma intenção especial, asseguro. Achei o seu menino extremamente simpático e inteligente, não pude deixar de demonstrar interesse." Ele ergueu a mão, dando um tapinha carinhoso no topo da cabeça de Ben. "Melhoras rápidas, meu amiguinho."
"Obrigado, doutor. Tenha um ótimo trabalho!", Ben respondeu com um sorriso radiante.
O menino exibia uma inteligência emocional assustadora para a idade, sem precisar de puxões de orelha da mãe para ser educado. Fiorella despediu-se com um aceno e afastou-se com o filho nos braços.
Aninhado no pescoço dela, Ben perguntou baixinho, com os bracinhos curtos apertando os ombros da mãe: "Mamãe... era o papai no telefone aquela hora? Ele vem visitar o Ben?"
Fiorella forçou um sorriso — um disfarce frágil para uma dor monumental que ameaçava rasgá-la ao meio. "O papai vem sim, meu amor. Assim que ele terminar os compromissos do trabalho."
Atrás deles, ainda parado no corredor VIP, o médico-chefe balançou a cabeça de forma pensativa, murmurando para as paredes vazias:
"Estranho... Pessoas não partilham de uma semelhança daquelas se não carregarem o mesmo sangue."
Fiorella usara aquela promessa apenas para acalmar o coração do pequeno. Mas a realidade a atropelou. Pouco depois de se acomodarem novamente no quarto de isolamento, a porta abriu-se de supetão.
Jackie Potter entrou. E trouxe consigo os pais dela.
"Ben, me desculpe! O papai acabou se enrolando ontem à noite com o trabalho e só conseguiu vir agora", Jackie exclamou com uma falsa urgência, correndo direto para a beira do leito do filho.
A visão do canalha fez o estômago de Fiorella revirar em puro asco. Ela estava furiosa, mas a presença de Ben a impedia de armar um escândalo. Engolindo o veneno, ela voltou sua atenção para as duas figuras que entravam logo atrás de Jackie e deu um passo firme em direção a eles.
"Mãe... eu não pedi especificamente para você não contar nada para ele? Por que você o trouxe até aqui?"
"Ah, Fiorella, não comece com os seus dramas", a Sra. Cecília respondeu imediatamente, segurando a mão da filha com uma condescendência irritante. "Um pai tem a obrigação de estar ao lado do filho quando o menino adoece. Como você quer proibir o Jackie de ver o próprio filho só por causa de uma picuinha de casal?"
O pai, Sr. Arnaldo, cruzou os braços e endossou o discurso com rigidez: "O Jackie sempre foi um homem exemplar e um provedor excelente para você. Pare de caçar confusão por bobagem, Fiorella. Os homens carregam fardos pesados demais no mundo corporativo — você deveria ser mais compreensiva e grata."
"Exatamente!", emendou a Sra. Cecília, com um tom cortante. "Você não precisa mover uma palha para trabalhar, tem uma babá de prontidão para ajudar com a criação, desfruta de uma casa maravilhosa e ainda recebe uma mesada generosa todo mês. Quantas mulheres dariam a vida para estar no seu lugar?"
Fiorella crescera ouvindo aquele exato sermão. Por anos e anos de sua juventude e casamento, ela havia engolido a seco a preferência óbvia dos pais por terceiros. Mas agora, com a traição explícita de Jackie escancarada em sua frente, ouvir aquela invalidação paterna acendeu um incêndio em seu peito.
"Pai, mãe... eu sou a filha de vocês! Por que vocês sempre, sem exceção, escolhem ficar do lado do Jackie?"
"Nós não estamos—"
"E não trabalhar por acaso foi uma escolha minha?!", Fiorella os cortou, a voz subindo um tom, as lágrimas de revolta ameaçando transbordar. Ela apontou o dedo na direção de Jackie, falando baixo, mas com uma intensidade letal para não alarmar o menino na cama. "Foi o Jackie quem chorou e me implorou de joelhos para eu largar a minha carreira e virar dona de casa! Se eu tivesse continuado no mercado, hoje eu seria dez vezes mais bem-sucedida do que ele!"
Aquilo era um fato incontestável. Fiorella Malta fora uma mente brilhante durante toda a sua jornada acadêmica. Concluíra o mestrado em Ciência da Computação aos 23 anos com honras e fora contratada de imediato por uma gigante da tecnologia por recomendação direta de seu orientador de tese. Em menos de um ano, já gerenciava equipes e liderava projetos bilionários. Tinha um futuro brilhante e milionário pavimentado à sua frente.
Se não fosse pela insistência doentia e chantagem emocional de Jackie, ela jamais teria aberto mão de seu brilho próprio para viver na sombra dele. Na época de sua demissão, diretores e professores ficaram genuinamente consternados com o desperdício de tamanho talento. E mesmo trancada em casa, quando a empresa de tecnologia de Jackie enfrentava crises de software insolúveis, era a mente de Fiorella, nas madrugadas silenciosas, que resolvia os códigos e salvava os contratos dele.
Ela nunca fora um rostinho bonito sustentado por um homem rico. Ela fora a arquiteta oculta do sucesso dele.
Ao verem a filha se exaltar com tanta propriedade, a Sra. Cecília e o Sr. Arnaldo trocaram um olhar desconfortável de soslaio. Recuando um passo, a mãe tentou mudar a abordagem: "Tudo bem, nós sabemos que você sacrificou sua carreira pelo lar, e é perfeitamente normal guardar uma pontinha de mágoa por isso. Vamos conversar com o Jackie mais tarde e exigir que ele peça desculpas adequadas a você."
"Não vai adiantar nada", Fiorella sentenciou, o olhar gélido.
"Então o que você quer afinal, Fiorella?", o Sr. Arnaldo franziu o cenho, a paciência esgotando-se. "Não me diga que está alimentando ideias ridículas de divórcio por causa de uma briga?"
"Eu? Alimentando ideias de divórcio?" Fiorella soltou uma risada amarga, o peito subindo e descendo com a respiração descompassada. "O Jackie não teve a coragem de contar para vocês o verdadeiro motivo de eu ter bloqueado ele?"
"Que motivo?"
Lentamente, Fiorella virou a cabeça na direção do leito do hospital. Jackie continuava sentado ali, encenando o papel de pai perfeito, fazendo Ben rir alto com alguma brincadeira boba.
"Porque foi o Jackie quem pediu o divórcio ontem à noite. O primeiro amor dele voltou da Austrália com uma filha a tiracolo, falida, e ele quer colocá-las para morar dentro da minha casa."
"O quê?!" A Sra. Cecília elevou a voz no mesmo instante, chocada, os olhos disparando em direção à cama.
O genro parecia a personificação da serenidade, segurando o neto com um afeto que parecia inabalável. Cecília engoliu em seco, balançando a cabeça em negação e, por um velho e destrutivo hábito de uma vida inteira, voltou a metralhar a própria filha com desconfiança:
"Isso... isso não faz o menor sentido, Fiorella. Você deve ter aprontado alguma coisa muito grave para irritar o Jackie, e ele inventou essa história absurda só para te dar um susto e te colocar no seu devido lugar."
Fiorella estancou, as palavras sumindo de sua boca diante do nível de crueldade dos pais.
A dor da rejeição e da invalidação da própria família ardeu de forma muito mais violenta do que o adultério do marido. Desde a infância, por mais que Fiorella se destacasse, tirasse notas máximas ou ganhasse prêmios, ela nunca recebera um único elogio dentro de casa. Quando passou em primeiro lugar na universidade federal e emendou um mestrado brilhante, os vizinhos celebraram; seus pais, contudo, desdenharam: "Quanto mais estuda, mais tonta e arrogante fica. Dinheiro jogado no lixo investir em mulher. No fim, vai acabar pilotando um fogão do mesmo jeito."
Em contrapartida, o irmão mais novo, seis anos mais jovem, era tratado como uma divindade intocável. Mesmo repetindo de ano de forma consecutiva na escola e afundando-se na indolência, os pais o cobriam de mimos e elogios: "Ele tem apetite, isso é sinal de um homem forte e saudável", justificavam.
O tsunami de memórias amargas sufocou Fiorella, fazendo com que lágrimas quentes de pura humilhação escorressem por suas bochechas.
Jackie, que vigiava o grupo com o canto dos olhos enquanto fingia brincar com o menino, percebeu que a atmosfera havia atingido o ponto de ebulição ideal. Ele acalmou Ben com um tapinha nas costas, levantou-se com elegância e caminhou a passos lentos até os sogros.
"Sr. Arnaldo, Sra. Cecília... por favor, poderiam fazer companhia para o Ben por alguns minutos? Preciso ter uma conversa madura e a sós com a Fiorella no corredor."
O Sr. Arnaldo fixou um olhar duro no genro. "Jackie... a Fiorella acabou de nos dizer que você exigiu a separação por causa de uma ex-namorada. Essa loucura é verdade?"
Jackie Potter sabia que a verdade viria à tona de qualquer forma no tribunal, então manteve a postura altiva e assentiu com fingida solenidade: "Sim, Sr. Arnaldo. É verdade. Mas garanto que vou compensar financeiramente a Fiorella com tudo o que ela merecer por direito. No entanto... o Ben fica comigo de qualquer maneira. Disso eu não abro mão."
Fiorella deu um passo à frente, os olhos faiscando com um ódio tão cortante e afiado que fez o homem recuar um milímetro por puro instinto. Com a voz carregada de um veneno puro, ela disparou diretamente contra o ego dele:
"Se o resultado do exame de medula confirmar que o Ben tem leucemia... você ainda vai fazer tanta questão assim de lutar pela guarda dele?"
O verniz de superioridade de Jackie Potter trincou instantaneamente. O rosto do homem empalideceu, perdendo toda a cor em segundos.
"O que... o que você disse?!"







