Fiorella procurava freneticamente pelo filho e nem sequer notou a pessoa parada ao seu lado.
Jean Carlos levou uma rajada de vento no rosto quando ela passou correndo. Franziu levemente a testa e, por impulso, olhou para trás.
Era alta, esbelta, com uma figura inegavelmente bonita.
Mas ele nunca faltou de mulheres assim ao seu redor.
Júlio também acompanhou o olhar: "Parece que é a mãe do garotinho. É bem bonita."
Jean Carlos não respondeu. Virou-se e entrou no elevador.
Enquanto desciam, falou com calma: "Cancele minha agenda de amanhã pela manhã. Preciso ir ao quartel dos bombeiros recolher os pertences do Yan."
Júlio assentiu. "Certo."
Desde o sacrifício do irmão, toda a família Vans havia ficado paralisada pelo luto — sem tempo, sem forças para ir buscar aquilo que ele havia deixado para trás.
Só de pensar na cena que enfrentaria amanhã, o geralmente inabalável Jean Carlos sentiu os olhos arderem em silêncio.
---
"Ben, você quase parou o coração da sua mãe! Da próxima vez não saia correndo assim, tá bom? Isso deixa a mamãe maluca de preocupação." Fiorella encontrou o filho, se agachou e o abraçou com força.
Ben fez beiço e disse com culpa: "Desculpa, mãe. Eu saí para te procurar, mas o hospital é muito grande e me perdi..."
"Tudo bem, mamãe entende."
Fiorella o beijou, pegou-o no colo e agradeceu ao médico repetidas vezes.
O doutor observava Fiorella em silêncio, impressionado com o rosto belo e cativante dela. Não resistiu e puxou conversa: "Com licença, a senhora está aqui visitando alguém ou acompanhando um paciente internado?"
"Estou internando meu filho", respondeu Fiorella com educação.
"Em qual departamento, se me permite?"
"Hematologia."
Fiorella terminou de responder e então olhou para o crachá do médico — médico-chefe. Ficou curiosa: "Por que o senhor está perguntando?"
Ele sorriu. "Sem nenhuma intenção especial. Achei o menino muito simpático e não pude deixar de demonstrar interesse." Levantou a mão e deu um tapinha carinhoso na cabeça de Ben. "Meu amiguinho, melhoras rápidas."
"Obrigado, doutor. Que o senhor tenha um ótimo trabalho."
Ben respondeu naturalmente, sem precisar que a mãe o lembrasse — para a sua idade, tinha uma inteligência emocional surpreendente.
Fiorella se despediu, virou-se e saiu com o filho nos braços.
"Mamãe, era o papai no telefone há pouco? Ele vai visitar o Ben?" perguntou o menino, abraçando o pescoço dela com seus bracinhos.
Fiorella sorriu — um sorriso que escondia uma dor enorme. "Papai vem assim que terminar o trabalho."
Atrás deles, o médico balançou a cabeça pensativo: "Estranho. Pessoas só se parecem quando têm algum laço..."
---
Fiorella havia dito aquilo apenas para confortar o filho. Mas pouco depois de retornarem ao quarto, Jackei apareceu.
Com os pais dela.
"Ben, me desculpe, papai se atrasou ontem à noite e só conseguiu vir agora." Jackei foi direto para o lado do filho assim que entrou.
Fiorella estava furiosa, mas não podia extravasar na frente de Ben.
Voltou o olhar para os pais que entravam logo atrás e deu um passo à frente.
"Mãe, eu não pedi especificamente para você não contar para ele? Por que o trouxe até aqui?"
"Calma, não fique assim", disse Dona Cecília, pegando na mão da filha. "Um pai tem que estar ao lado do filho quando ele está doente. Como você vai impedir Ben de ver o pai só porque vocês dois estão brigados?"
O pai, Seu Arnaldo, também entrou na conversa: "O Jackei sempre foi muito bom para você. Pare de criar confusão à toa. Os homens carregam muito peso no trabalho — você deveria ser mais compreensiva."
"É isso mesmo", emendou Dona Cecília. "Você não precisa trabalhar, tem babá para ajudar com as crianças e ainda recebe uma mesada generosa todo mês. Quantas mulheres gostariam de estar no seu lugar?"
Fiorella havia crescido sabendo que os pais pensavam assim, e por muito tempo havia engolido esse discurso em silêncio.
Mas agora que Jackei a havia traído, ouvir aquelas palavras de novo reacendeu uma raiva que ela não conseguiu segurar.
"Pai, mãe, eu sou sua filha. Por que vocês sempre ficam do lado do Jackei?"
"A gente não—"
Antes que terminassem, ela continuou: "E não trabalhar foi culpa minha? Foi o Jackei que me implorou para largar o emprego e ficar em casa. Se eu tivesse continuado, hoje não seria menos bem-sucedida do que ele."
Fiorella havia sido uma aluna brilhante a vida toda. Concluiu o mestrado em Ciência da Computação aos 23 anos e foi contratada diretamente por uma grande empresa por recomendação do próprio orientador. Um ano depois, já liderava projetos — uma trajetória de muito futuro pela frente.
Se não fosse pela insistência de Jackei, ela não teria cedido e aberto mão disso tudo para se tornar dona de casa.
Quando saiu, os líderes da empresa e os professores da pós-graduação ficaram genuinamente consternados.
E mesmo durante os anos em que ficou "escondida" em casa, quando a empresa de Jackei enfrentava algum problema técnico, era ela quem resolvia.
Ela nunca havia sido apenas um rosto bonito sustentado por um homem. Havia escolhido abrir mão do brilho por amor.
Ao ver a filha se exaltar, Dona Cecília trocou um olhar com o marido. Os dois recuaram e mudaram o tom: "A gente sabe que você sacrificou sua carreira pela família, e é normal guardar mágoa por isso. Vamos pedir para o Jackei se desculpar direito mais tarde."
"Não vai adiantar", disse Fiorella, fria.
"Então o que você quer?" Seu Arnaldo franziu o cenho. "Não me diga que quer o divórcio."
"Eu querer o divórcio?" Fiorella olhou para o pai e não conteve o sorriso amargo. "O Jackei não te contou por que eu bloqueei ele?"
"Por quê?"
Ela virou a cabeça lentamente em direção à cama do hospital, onde Jackei estava sentado com Ben no colo, os dois conversando e rindo.
"Porque foi ele quem pediu o divórcio. O primeiro amor dele voltou ao Brasil com a filha e pediu para ele as acolher."
"O quê?" Dona Cecília elevou a voz de imediato, olhando para a cama.
O genro estava ali, tranquilo, segurando o neto. Os dois sorriam.
"Isso... isso não pode estar certo. Você deve ter feito algo para irritar o Jackei e ele inventou isso para te provocar."
Dona Cecília voltou o olhar para a filha — e mais uma vez, por velho hábito, tomou o partido do genro.
Fiorella olhou para os dois e ficou sem palavras.
O que doía mais do que a traição do marido era a dúvida constante dos próprios pais.
Desde criança até a vida adulta, por mais que se destacasse, nunca recebeu uma única palavra de elogio deles. Quando passou no vestibular de uma das melhores universidades do país e depois no mestrado, os vizinhos todos a parabenizaram. Os pais disseram: "Quanto mais estuda, mais ingênua fica. É dinheiro jogado fora mandar menina estudar tanto. No fim, vai casar do mesmo jeito."
Mas o irmão mais novo, seis anos mais jovem, era sempre exaltado — mesmo quando repetia de ano, mesmo quando ganhou mais de trinta quilos e não se cuidava mais. "Ele come bem, isso é saúde", diziam os pais.
Aquelas memórias vieram todas de uma vez, e a amargura no peito de Fiorella quase a sufocou. Ela não conseguiu segurar as lágrimas.
Jackei observava da beira da cama, lançando olhares discretos para captar a reação dela.
Ao perceber a tensão no grupo, acalmou Ben, levantou-se e foi até eles.
"Seu Arnaldo, Dona Cecília, fiquem com o Ben um pouco. Preciso conversar com a Fiorella a sós."
Seu Arnaldo olhou para o genro: "Jackei, a Fiorella disse que você quer o divórcio. É verdade?"
Jackei sabia que não havia como desviar. Assentiu: "Sim. Posso compensar a Fiorella como ela merecer — mas Ben fica comigo."
Fiorella o encarou com um olhar que cortava, e disse diretamente: "Se o Ben tiver leucemia, você ainda vai querer ficar com ele?"
O rosto de Jackei empalideceu. "O que você disse?"