CAPÍTULO TRÊS

Michel permaneceu estático no meio do hall, com os lábios entreabertos e os punhos cerrados. A audácia dela, a forma quase casual como ela simplesmente ignorou a atmosfera sufocante do confronto para receber uma maldita entrega, o deixou momentaneamente sem reação. Ele estava no meio de uma lavagem de alma, rasgando o próprio peito para mostrar suas feridas, e ela o havia deixado falando sozinho por causa de um pote de Häagen-Dazs.

— Você só pode estar brincando comigo... — murmurou ele para as paredes vazias, a voz saindo como um rosnado rouco e perigoso.

Uma onda de irritação, tão aguda que beirava a dor física, subiu por sua espinha. Ele estava ali, sangrando emocionalmente, e ela o tratava como um mero figurante no teatro da própria vida.

Com passos pesados e deliberados que ecoaram pelo mármore, Michel a seguiu até a cozinha gourmet. Não se importava se estava sendo inconveniente ou invasivo; ele não havia terminado. Não permitiria que ela usasse uma colher de sorvete como escudo para escapar da tensão que ele precisava desesperadamente resolver. Ele se apoiou contra a bancada de quartzo, cruzando os braços musculosos sobre o peito, os olhos fixos em cada movimento dela enquanto Catarina se acomodava em uma das banquetas altas.

— Então é isso? — perguntou ele, a voz destilando um sarcasmo frio e cortante. Ele a viu levar a primeira colherada à boca, e o próprio maxilar se contraiu com o gesto. — O clímax do nosso casamento é interrompido por um entregador de aplicativo? Esse é o valor real da nossa história para você agora, Catarina? Uma dose de açúcar com sabor de morango?

Ele se aproximou lentamente, projetando sua silhueta imensa sobre ela. Vê-la tão concentrada em saciar aquele desejo físico, enquanto ele submergia na loucura, era uma tortura exasperante.

— Diga-me — continuou ele, baixando o tom para um sussurro que pareceu rasgar o silêncio do cômodo. — O Liam sabe exatamente do que você precisa? Ele sabe como cuidar de você quando o seu monstro de marido está ocupado demais afundando na própria dor?

Ele sabia que estava sendo mesquinho. Sabia que estava agindo como um homem amargurado, desequilibrado e patologicamente ciumento, mas a torrente de sentimentos era incontrolável. Cada demonstração de independência dela, cada pequeno lampejo de normalidade que não o incluísse, parecia uma ofensa pessoal ao homem que havia virado as costas para o próprio legado familiar apenas para estar com ela.

Catarina sabia que a interrupção era ultrajante, mas a urgência daquele desejo de grávida vinha se acumulando há horas; ela precisava desesperadamente daquele choque gélido e doce para se manter firme.

— Desculpe — disse ela, finalmente afastando a colher dos lábios e respirando fundo, tentando aplacar o tremor interno. — Eu sei que você está sofrendo, Mit. Muito mais do que eu. E me sinto péssima por isso, porque a última coisa que eu quero no mundo é ver você desmoronando, especialmente por minha causa. Mas eu juro... eu não sei mais como resolver isso, por mais que eu queira.

Ela pronunciou as palavras com dificuldade e, logo em seguida, levou mais uma colherada à boca. Uma vontade súbita e violenta de chorar a atingiu. O sorvete estava incrivelmente bom, mas eram os hormônios que agora começavam a bagunçar sua mente equilibrada, empurrando as lágrimas para a superfície.

— Eu entendo perfeitamente o que você está sentindo. Sei que há fúria e decepção dentro de você. Se eu estivesse no seu lugar, estaria sentindo a mesma coisa — ela confessou, engolindo o nó na garganta. — Eu amo você. E embora queira consertar nosso casamento, eu também quero ir embora. Quero libertar você desse martírio, desaparecer da sua vida para que você possa me esquecer e ter paz. Mas é tão difícil... principalmente porque meu amor por você ainda é enorme.

Michel sentiu um impulso violento de estender a mão e lançar aquele pote de sorvete longe, estilhaçando-o contra o chão. Aquele "desculpe" soara fraco demais, quase casual, como uma fresta em um muro de pedra. E então ela começara a falar em ir embora. Em desaparecer. Para ele, parecia a tática de manipulação mais cruel do mundo, mas o leve tremor na voz dela fez seu coração falhar uma batida, uma reação que ele sentiu como uma traição à sua própria fúria.

— Nem pense nisso — sibilou ele, a voz vibrando com uma intensidade sombria. Ele contornou a ilha de quartzo, encurtando a distância física até que sua sombra engolisse completamente o corpo dela. — Nem pense em ficar aí sentada, saboreando sua maldita sobremesa, e me dizer que quer me "libertar". Você não tem o direito de decidir o que é melhor para mim, Catarina. Você não tem o direito de simplesmente ir embora e me deixar sozinho para recolher os cacos do que você quebrou!

Ele espalmou a mão grande contra a borda da bancada, bem ao lado do quadril dela, inclinando o tronco até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. Ele podia ver a tempestade fragmentada nos olhos dela; estava perto o suficiente para sentir o aroma doce do morango misturado ao hálito quente de Catarina.

— Você me ama? — Ele repetiu a frase com desprezo, como se tentasse traduzir uma língua morta. — Se você me amasse, não teria me transformado nessa piada. Não teria permitido que aquele homem encostasse em você. Não teria deixado a única coisa que era verdadeiramente nossa ser manchada pela sua maldita necessidade de ser "gentil" com o passado.

Ele estava sendo cruel, e tinha plena consciência disso. Mas a dor em seu peito era dilacerante. Ele queria agarrá-la pelos ombros, puxá-la para o seu peito e sacudi-la até que a verdade viesse à tona, mas o medo de tocá-la e simplesmente desmoronar em choro em seu colo, derrotado, o mantinha rígido.

— Ir embora para me salvar? — Ele soltou um riso amargo. — Essa é a maior mentira egoísta que você já me disse. Você quer ir embora para fugir da culpa. Quer fugir para poder continuar fingindo ser a garota perfeita e intocável que sempre foi.

Catarina fazia um esforço monumental para se manter ancorada na razão, apesar do bombardeio constante de acusações. Ela sabia que fora um erro ir àquele café, mas conhecia sua própria conduta. Jamais permitira que Ren a tocasse, muito menos que a beijasse. Mas Michel estava cego, e no fundo ela não conseguia culpá-lo pelo que via naquelas fotos.

— Você pode se recusar a acreditar agora, mas eu amo você — insistiu ela, a voz subindo de tom enquanto enfiava mais uma colherada de sorvete na boca, uma quantidade excessiva que fez seus dentes doerem com o frio repentino. — Se eu não te amasse, Mit, eu teria ido embora no primeiro segundo em que você ergueu a voz para mim nesta casa.

Ela engoliu o sorvete com dificuldade e continuou:

— Se você não quer que eu vá embora, então nós precisamos arrancar essa desconfiança pela raiz. Eu não posso viver com você me odiando todos os dias; isso está me matando aos poucos. Eu não quero o fim. Não quero que o nosso casamento termine por causa de uma armação barata que a sua mãe arquitetou. Eu preciso que você olhe nos meus olhos e enxergue a verdade quando digo que nunca te traí.

A menção a Victoria fez o corpo de Michel enrijecer instantaneamente, como se tivesse recebido um golpe físico. Ele soltou uma risada ríspida, sem qualquer resquício de humor, um som de pura e absoluta negação.

— Minha mãe? — repetiu ele, as palavras saindo em um sussurro cortante. — Você tem a coragem de tentar empurrar a culpa para a Victoria? A mulher que sacrificou tudo para me apoiar? A mulher que viu, antes de qualquer um, o quanto você estava me distraindo do império da família?

Um instinto feroz de lealdade o dominou, um reflexo condicionado por uma vida inteira em que sua mãe fora sua única e inabalável aliada. Para Michel, Victoria era a personificação da elegância e da moralidade da alta sociedade, não uma manipuladora de bastidores. A ideia de que ela seria capaz de uma baixeza tão meticulosa parecia absurda, ainda que, no fundo de seu estômago, uma intuição incômoda cobrasse um preço pela dúvida.

— Essa é uma saída muito conveniente, Catarina — retrucou ele, estreitando as pupilas. — Culpar a matriarca porque você é covarde demais para assumir suas próprias escolhas. Uma jogada clássica. Quando não consegue vencer o argumento, você cria um monstro na minha família para se fazer de vítima.

Ele se inclinou ainda mais sobre ela, o peito quase tocando o ombro dela, usando sua estatura para sufocar qualquer reação. Ele observava a forma como ela comia, buscando desesperadamente abrigo naquele doce gelado, e aquilo o enfurecia. Ele queria uma reação à altura. Queria uma briga de verdade, uma confissão legítima, mas tudo o que sua mente processava era aquela imagem digitalizada dos lábios dela colados aos de Ren.

— Confiar em você? — desdenhou ele, a voz áspera de ressentimento. — Como eu posso fazer isso com as provas escancaradas na minha cara? Você quer que eu simplesmente feche os olhos e brinque de faz de conta? Quer que eu engula que você estava apenas "conversando" e que um beijo daquele tamanho aconteceu por acidente?

Michel ergueu a mão, os dedos trêmulos pairando a milímetros do queixo dela, sem de fato tocá-la, como se temesse que a proximidade o destruísse de vez.

— Quer acabar com a desconfiança? — desafiou ele, com um olhar que parecia queimar. — Então pare de inventar desculpas. Pare de atacar a minha mãe e comece a me dar uma única razão real para eu acreditar que você merece estar nesta casa.

Catarina tentou. Ela tentou com todas as suas forças manter a cabeça fria e a mente focada na saúde do bebê, mas o limite havia chegado. Não havia mais espaço para a razão quando o homem que ela amava tratava sua dignidade com tamanho desprezo. Ela já havia lhe dado a verdade pura e simples, e ele a rejeitara.

Se ele queria um crime, ela lhe daria o culpado.

— Quer saber? Você me pegou.

Catarina pousou a colher metálica dentro do pote de Häagen-Dazs com um som seco e arrastou a embalagem pela bancada de quartzo, afastando-se do corpo dele com um movimento brusco.

— A foto é real. Eu realmente tive um caso com o Ren Sinclair, e este bebê que eu estou carregando é dele. Era exatamente isso o que você queria ouvir para massagear o seu orgulho, não era? Pois bem, agora você ouviu da minha própria boca.

O olhar verde-oliva de Catarina faiscou com uma fúria congelante. Ela passara semanas se humilhando, implorando por um voto de confiança, enquanto ele se alimentava daquela mentira como um parasita. Se Michel queria a ruína definitiva e o fim daquela história naquela mesma noite, ela acabava de assinar o veredito.

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