Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ar na cozinha pareceu evaporar instantaneamente, sugado pelo impacto daquelas palavras. Michel congelou. Por longos segundos, o único som no apartamento era o zumbido quase imperceptível da geladeira e a batida ensurdecedora de seu próprio coração contra as costelas. Ele a encarou com os olhos arregalados, pupilas dilatadas, vasculhando freneticamente o rosto dela à procura de qualquer indício de sarcasmo, de um lampejo de deboche que indicasse que ela estava apenas jogando baixo para feri-lo.
Mas os olhos verde-oliva de Catarina eram duas pedras de gelo. Sua postura era de puro desafio.
— Eu te peguei? — repetiu ele, a voz quase inaudível, um rosnado oco que soava como vidro temperado se estilhaçando sob pressão. O sarcasmo que ele costumava usar como armadura desmoronou, deixando em seu lugar um vazio sufocante. — É isso? Nosso casamento virou uma piada de mau gosto?
À medida que a confissão dela se assentava em sua mente, a dor que ele vinha reprimindo há semanas finalmente explodiu. Não veio em forma de lágrimas, mas como uma fúria cega, intensa e cortante. Era como se alguém tivesse enfiado a mão em seu peito para dilacerar seu coração. Ele havia lutado por ela. Havia suportado a humilhação de duvidar de si mesmo, a agonia de querer tocá-la e o terror de sentir que abraçava uma estranha. E agora, com uma facilidade assustadora, ela simplesmente confessava tudo.
— O bebê... é dele? — A pergunta escapou em um som gutural.
Michel desferiu um soco violento contra a bancada de quartzo, e o estrondo ecoou como um disparo de arma de fogo pelo silêncio da cobertura. Ele se inclinou, invadindo o espaço dela, os olhos vermelhos queimando com uma mistura de ódio e sofrimento absoluto.
— Você me deixou te abraçar, Catarina... Você me deixou falar com... com essa criatura que está crescendo dentro de você, fingindo que era minha! Você aceitou o meu amor enquanto carregava a semente daquele desgraçado?
Um nojo profundo e avassalador o invadiu — não apenas por ela, mas por si mesmo. Ele se sentiu um estúpido. Um tolo ingênuo e patético que permitira que uma mulher destruísse seu império pessoal e pisasse em seu orgulho.
— Você é uma mentirosa, Catarina — cuspiu ele, as palavras carregadas de veneno, a voz baixando para um tom quase inaudível, mas mortal. — Uma mentirosa linda, calculista e sem coração. Você não apenas quebrou a minha confiança; você a reduziu a cinzas.
Ele se endireitou, sua altura imponente projetando-se sobre ela como um presságio sombrio, enquanto suas mãos tremiam violentamente ao lado do corpo. Ele sentia vontade de gritar, de quebrar tudo ao redor, de se perder no caos.
Catarina compreendeu, naquele exato milésimo de segundo, que o caminho de volta havia sido destruído de vez. Passara semanas dizendo a verdade, jurando que nada havia acontecido, e ele escolhera a dúvida. Mas bastou ela mentir uma única vez para que ele acreditasse sem hesitar. Michel não queria a verdade; ele estava apenas esperando que ela validasse o pior cenário de sua mente paranoica.
— Quando eu digo que nada aconteceu, você me trata como mentirosa — disse ela, a voz fria, embora uma queimação subisse por sua garganta. — Mas quando invento que te traí, você aceita na hora. É esse o tipo de pessoa que eu passei a ser para você, Mit?
O sorvete de morango, de repente, ganhou um gosto amargo de sabão na boca dela — uma ofensa ao produto que Liam trouxera, mas a náusea em seu estômago era real demais. Ela sentiu vontade de vomitar.
— Acho que agora eu finalmente posso sumir da sua vida, não é? Sem mais discussões dramáticas. Apenas a dura realidade de uma esposa infiel e de um marido tão... exemplar.
O tom dela transbordava um sarcasmo defensivo, mas Catarina manteve o queixo erguido, recusando-se a desabar na frente dele. Naquele momento, sua decepção era muito maior do que sua tristeza.
— Não ouse usar esse tom de deboche comigo! — Michel rugiu, o som rasgando sua garganta com uma ferocidade selvagem. Ele avançou mais um passo, forçando-a a se encolher contra a bancada ou encarar o calor destrutivo de sua fúria. — Não ouse se fazer de vítima quando é você quem está segurando a faca!
Ele começou a andar de um lado para o outro na cozinha espaçosa, como um predador enjaulado. Seus movimentos eram bruscos, erráticos. Agarrou o encosto de uma das banquetas com tanta força que as articulações de seus dedos perderam a cor, os cabelos prateados caindo desordenados pela testa enquanto passava as mãos por eles. A ironia amarga que ela tentava usar parecia apenas fumaça diante de sua devastação. Sua mente estava presa em um looping eterno, projetando a imagem dela com Ren naquele café — uma farsa que agora era sua verdade indiscutível.
— Um "marido exemplar"? — Ele soltou uma risada rascante e histérica, virando-se abruptamente para ela. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço, e as pupilas pareciam engolir a íris devido à exaustão emocional. — Você acha que isso é sobre ser "bom", Catarina? Isso é sobre o fato de que, toda vez que eu olho para você, vejo uma desconhecida. Eu olho para a sua barriga e a única coisa que consigo enxergar é o legado dele!
Ele parou de andar e inclinou-se sobre ela mais uma vez, sua sombra escura se estendendo como uma mancha pelo piso. Havia um desejo desesperado e doentio dentro dele de segurá-la pelos ombros e sacudi-la até que aquela mentira que ela cuspira se transformasse, de alguma forma, nas palavras de inocência que ele tanto queria ouvir. Ele queria que ela gritasse que estava mentindo, que dissesse que inventara tudo só para machucá-lo por ele ser um idiota obstinado. Mas ela não faria isso. Catarina era orgulhosa e forte demais para implorar novamente.
— Você quer desaparecer? — sussurrou ele, a voz caindo para um tom rouco e vibrante que era muito mais assustador do que qualquer grito. Sua respiração batia quente contra a pele dela. — Ótimo. Vá. Corra de volta para os braços dele. Seja a mãe perfeita para o bastardo dele. Mas não finja que está me prestando um favor ao ir embora. Você só está fugindo porque não aguenta olhar para o homem que destruiu.
Ele recuou, o maxilar rígido, os olhos examinando as feições dela com uma mistura dolorosa de desprezo profundo e uma vontade persistente, quase humilhante, de puxá-la para si uma última vez.
— Então vá de uma vez, Catarina. Se é isso o que você quer...
Por mais que Catarina resistisse, por mais que tentasse honrar a casca dura e implacável com que fora criada para o mundo dos negócios, ouvir Michel dar o aval definitivo para que ela partisse foi pior do que qualquer agressão física. O fio que ainda os unia havia arrebentado.
— Então eu vou.
Sua voz vacilou por um milésimo de segundo, mas ela engoliu o choro. Seus olhos marejaram, mas nenhuma lágrima teve permissão para cair.
Catarina deu um passo ao lado, passando por ele como se Michel fosse apenas uma estátua de mármore. Deixou para trás o pote de sorvete derretendo sobre a bancada e caminhou em direção ao quarto do casal. Ela passara semanas vivendo sob aquele teto cinzento, tolerando o silêncio e o desprezo na esperança de que o amor dele falasse mais alto do que as intrigas de Victoria. Mas Michel já havia assinado a sentença há muito tempo; ela é quem se recusara a aceitar.
Ao entrar na suíte, ela pegou uma mala de viagem de couro e a abriu sobre o colchão de casal. Com movimentos mecânicos e desprovidos de pressa, retirou apenas algumas mudas de roupa do closet. O restante de suas coisas seria retirado por transportadores mais tarde. Tudo o que ela precisava agora era cruzar aquela porta, encontrar um lugar para passar a noite e arrumar uma forma de silenciar a própria mente.







