CAPÍTULO DOIS

A sesta de Catarina durou cerca de três horas. Quando ela finalmente abriu os olhos, foi atingida por uma vontade avassaladora e quase incontrolável de sorvete de morango. Não era, nem de longe, o seu sabor favorito, mas seu corpo parecia clamar por aquilo com uma urgência inexplicável.

Sem hesitar, ela pegou o celular e discou o número de seu assistente pessoal, o homem que resolvia sua vida com um único telefonema.

— Liam... compre sorvete de morango para mim. Agora.

Ela tentou projetar sua habitual voz de comando, aquela que usava para fechar negócios multimilionários, mas o tom saiu quase infantil, como o de uma criança implorando pela sobremesa antes do jantar.

Ao ouvir a promessa de Liam de que estaria na cobertura em dez minutos, Catarina levantou-se da cama, calçou os chinelos e saiu do quarto. A urgência era tamanha que ela acabou ficando parada bem no hall de entrada da cobertura, contando os segundos, incapaz de fazer qualquer outra coisa enquanto esperava pelo sorvete.

Do outro lado do salão, Michel não havia dormido um único segundo. Ele passara as últimas horas vagando como um fantasma pelo apartamento ultramoderno. Tinha um copo de bourbon puro em uma das mãos e um cigarro aceso na outra — seus únicos companheiros no silêncio opressivo daquela noite. Toda vez que fechava os olhos, a imagem de Catarina adormecida e vulnerável era brutalmente substituída pela foto dela sorrindo para Ren no café.

Ele estava jogado em uma das profundas poltronas de couro preto, com a camisa social desabotoada até a metade do peito, revelando o traçado escuro de suas tatuagens contra a pele clara. Sob a iluminação tênue e indireta da cobertura, ele parecia o retrato vivo de um magnata em decadência, com os cabelos desordenados e o maxilar tenso de exaustão. Michel estava preso em uma espiral analítica e sombria, dissecando cada pixel daquela imagem, caçando desesperadamente uma mentira na história de Catarina que finalmente a fizesse confessar.

O som suave de passos sobre o piso de mármore polido o arrancou de seu transe. Ele não ergueu a cabeça de imediato; manteve os olhos fixos no líquido âmbar que girava em seu copo, presumindo que ela havia descido para tentar, mais uma vez, diminuir a distância entre os dois.

— A ânsia por atenção finalmente passou? — perguntou ele, a voz um murmúrio baixo, rouco e carregado de um cinismo afiado.

Finalmente, Michel ergueu os olhos escuros e semicerrados. Ele não notou que as bochechas dela tinham um pouco mais de cor ou que ela parecia mais alerta do que três horas atrás. Deu um gole lento no bourbon, medindo-a de cima a baixo, procurando qualquer vestígio de culpa.

— Ou você só veio verificar se a "traidora" ainda tem um teto sobre a cabeça? — acrescentou, a voz caindo para um sussurro frio que cortou o ar. Ele não fazia ideia de que ela esperava uma entrega; para ele, Catarina estava apenas parada ali, calma demais para alguém que havia estraçalhado sua alma.

O cheiro do cigarro dele a atingiu em cheio, parecendo muito mais forte e nauseante do que o normal. Catarina levou delicadamente o indicador abaixo do nariz, tentando bloquear a fumaça.

— Por que você continua falando comigo desse jeito? — perguntou ela, a voz mansa, mantendo os olhos fixos na porta enquanto calculava o tempo de Liam. — Se é assim que se sente, por que simplesmente não pede o divórcio?

Ela o encarou de frente, sem alterar o tom.

— Você quer me torturar por algo que eu não fiz? É esse o seu objetivo ao me tratar assim?

Os nós dos dedos de Michel ficaram brancos ao redor do copo de vidro. A palavra "divórcio" o atingiu como um soco direto no estômago, roubando-lhe o ar por uma fração de segundo antes que ele conseguisse soltar a respiração em um sopro gélido. Ele odiava a frieza profissional com que ela sugeria aquilo, como se estivessem discutindo a dissolução de uma parceria de negócios, e não o fim de suas vidas.

— Divórcio? — repetiu ele, soltando uma risada seca e sem humor. Bateu o copo sobre a mesa lateral de mármore com força excessiva. — Você acha que é simples assim, Catarina? Acha que posso assinar um pedaço de papel e fingir que os últimos anos não foram uma grande farsa?

Ele se levantou. Seus 1,90 m de altura projetaram uma sombra imensa e intimidadora pelo hall enquanto ele caminhava em direção a ela com a postura predatória de quem encurrala uma presa. Parou a poucos centímetros de distância, forçando-a a erguer o queixo para encará-lo. O cheiro de tabaco forte e bourbon amargo invadiu o espaço pessoal dela, um contraste violento com o perfume floral que ela exalava.

— Quer falar sobre tortura? — sussurrou ele, a voz perigosa e vibrante de mágoa. Inclinou-se para frente, os olhos fixos nos dela. — É você quem segura o chicote aqui, Catarina. É você quem fica aí parada, com esse olhar de vítima incompreendida, enquanto carrega na barriga a prova física da sua infidelidade.

O olhar de Michel desviou-se rapidamente para a porta de entrada, percebendo a atenção dividida dela. Um lampejo de irritação cruzou suas feições. Ele odiava que ela estivesse distraída, que não estivesse totalmente consumida pelo incêndio que destruía o casamento deles.

— E o que você está esperando aí em pé? — questionou, o tom áspero e impaciente, aproximando-se tanto que seu peito quase roçou o dela. — Está esperando um milagre? Ou está esperando que o seu amante apareça para resgatá-la enquanto você se esconde na minha casa?

A fumaça do cigarro impregnada nas roupas dele estava se tornando insuportável para o olfato sensível de Catarina. Ela cobriu o nariz com uma das mãos, enquanto pousava a outra sobre o ventre.

— Não estou me fazendo de vítima, Mit. Só não tenho energia para lidar com as suas birras. Não agora, quando o estresse é a última coisa de que preciso.

A disciplina de Catarina era sua maior força. O médico fora categórico: o primeiro trimestre era crucial e delicado, e qualquer pico de estresse poderia colocar a gestação em risco. Por isso, ela engoliria o próprio orgulho, ouviria cada insulto de Michel e manteria o controle emocional a qualquer custo para proteger a vida dentro dela.

— Eu costumo dizer que quem não deve, não teme. E eu não tenho absolutamente nada a esconder.

Ela deu um passo para trás, buscando um pouco de ar puro, longe do hálito de bourbon dele.

— Estou esperando o Liam trazer meu sorvete. É o tipo de coisa que eu pediria ao meu marido, mas como você está ocupado demais me odiando, tive que incomodar meu assistente a esta hora da noite.

Naturalmente, Liam receberia uma excelente compensação financeira pelo favor, mas o ponto dela permanecia o mesmo.

Os olhos de Michel escureceram instantaneamente. O nome "Liam" ecoou como uma bofetada em seu orgulho. Não importava se o homem era apenas um funcionário; a imagem de outro homem atendendo aos desejos dela, correndo para suprir seus caprichos mais íntimos enquanto ela estava vulnerável, fez seu sangue ferver com um ciúme primitivo e irracional.

— Liam? — cuspiu ele, a palavra soando como uma ofensa. — Você aciona o seu assistente porque seu marido está quebrado demais pelas suas mentiras para brincar de companheiro atencioso?

Ele a contornou, os passos pesados e agressivos. A acusação de que estava tendo "birras" o feriu mais do que ele gostaria de admitir. Aquilo não era um ataque de raiva; era uma hemorragia interna, e ela estava tratando sua agonia como se fosse um mero capricho infantil.

— "Nada a esconder"? — desdenhou ele, a voz destilando um sarcasmo amargo. Michel estendeu o braço abruptamente, apoiando a mão no aparador atrás dela, encurralando-a contra o móvel. — Essa é a maior audácia que você teve hoje. Você fica aí parada, grávida de um filho que muito provavelmente não é meu, e tem a coragem de me dizer que sua consciência está limpa?

Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela, a respiração quente e resinada de álcool. Queria quebrar aquela maldita fachada de autocontrole. Queria ver lágrimas nos olhos dela, queria que ela desmoronasse, que mostrasse qualquer emoção real em vez daquela disciplina irritante.

— Se não tem nada a esconder, por que parece que você me atravessa toda vez que me olha? Como se já estivesse de luto por um homem que sequer foi embora ainda? — Ele soltou um suspiro agudo e frustrado, os olhos descendo para os lábios dela por um breve segundo antes de voltarem a focar em seu olhar. — E não use essa gravidez como um escudo. Um bebê não apaga o que você fez, Catarina. Só torna as suas mentiras muito mais difíceis de engolir.

Catarina respirou fundo. Sabia que não podia simplesmente ignorar a dor dele, especialmente quando ele parecia tão estilhaçado. Ela o amava. Droga, ela estava carregando o filho dele, mesmo que ele se recusasse a aceitar.

— Eu olho para você desse jeito porque estou profundamente magoada, Mit — disse ela, a voz finalmente entregando uma fraqueza que ela tentava esconder. — Você me acusa de traição repetidas vezes, mesmo eu sendo inocente. Mas o pior de tudo... o pior é que eu entendo você. Se os papéis fossem invertidos, eu também não acreditaria em uma única palavra sua.

No fundo, a mente analítica de Catarina compreendia a lógica dele. As provas eram absurdamente convincentes, e ela não tinha como provar o contrário naquele momento. Ela realmente estivera naquele café com Ren, embora os motivos reais tivessem sido urgentes — ela acreditara que o ex-namorado precisava de ajuda financeira rápida, e a conversa não passara de um fantasma do passado que ela queria enterrar de vez. Mas Michel não estava pronto para ouvir os detalhes.

— E eu estou sensível demais agora — continuou ela, sentindo os olhos arderem. — Estou fingindo que suas palavras não me machucam e evitando te tocar porque sei que você vai recuar com raiva. Mas a verdade é que eu queria te abraçar. Queria que você estivesse do meu lado, que beijasse minha barriga e conversasse com o nosso bebê. Eu sei que você não consegue fazer isso agora porque está ferido, e eu não posso consertar essa ferida de imediato. Eu não quero o divórcio, Mit. Mas está ficando insuportável ver você sofrer desse jeito por causa de uma mentira.

A vulnerabilidade crua na voz dela atingiu Michel como uma descarga elétrica, quebrando instantaneamente a blindagem de cinismo que ele erguera com tanto esforço. Por um breve segundo, o CEO implacável desapareceu, deixando apenas o homem desesperadamente apaixonado pela mulher diante dele.

Nosso bebê.

Aquelas duas palavras abriram um corte profundo em seu peito. Ele queria tanto acreditar nela. Cada fibra de seu ser gritava que aquela criança era sua, que Catarina era dele. Mas então, a imagem da foto deepfake — o ângulo perfeito, a luz âmbar do café, a proximidade inegável dos lábios de Ren nos dela — reluziu em sua mente como uma lâmina quente. O autodesprezo o invadiu, trazendo uma onda física de náusea. Ele era um homem de fatos e lógica, e os fatos o estavam destruindo.

— Não — sussurrou ele, a voz embargada pela dor.

Ele deu um passo para trás, quebrando a proximidade sufocante, mas seus olhos permaneceram fixos na leve curva da barriga dela. Sentiu uma vontade avassaladora de estender a mão, de espalmar a palma quente contra o ventre de Catarina e reivindicar aquela vida, mas sentiu-se indigno, sujo pela própria desconfiança.

— Não aja como se você fosse a única vítima aqui, Catarina — disse ele, a rigidez retornando à sua voz em um mecanismo automático de defesa, embora o tom agora estivesse desprovido de crueldade, restando apenas exaustão. — Foi você quem entrou naquele café. Foi você quem permitiu que ele se aproximasse. Foi você quem deixou esses segredos crescerem até que desmoronassem sobre nós.

Ele gesticulou vagamente para a vastidão luxuosa e fria da cobertura. Michel atacava porque estava apavorado. Se baixasse a guarda e se permitisse acreditar nela, estaria entregando a própria pele para ser esfolada novamente caso a traição fosse real.

— Você diz que queria me abraçar? — Ele soltou um riso baixo e amargo, os olhos cheios de uma dor silenciosa. — Então por que age como se eu fosse um estranho? Por que me olha como se eu fosse um monstro que você é obrigada a suportar por causa de um filho?

O som estridente da campainha ecoou pelo apartamento, cortando o confronto. O sorvete havia chegado.

Imediatamente, a expressão exausta de Catarina se desfez, dando lugar a um brilho de pura expectativa. Sem perder tempo, ela passou por Michel, quase correndo em direção à porta de entrada, e a abriu com pressa.

— Obrigada, Liam. Boa noite.

Ela pegou a sacola de papel kraft das mãos do assistente, fechou a porta com um estalo rápido e praticamente marchou em direção à cozinha gourmet, deixando Michel parado no hall.

Liam era, sem dúvida, o funcionário mais eficiente do país. Ele não havia comprado apenas um pote comum; trouxera uma seleção de sabores e picolés da Häagen-Dazs. Ao abrir a embalagem e ver a marca premium, Catarina sentiu que seu assistente merecia um monumento. Rapidamente, ela desbloqueou o celular e enviou uma mensagem direta:

Catarina: Você vai receber um bônus generoso este mês.

Eficiente e profissional. Depois de guardar os potes adicionais no congelador, ela abriu o pote de morango, pegou uma colher de metal e, sem perder um segundo de seu precioso desejo, voltou para o hall de entrada para continuar a discussão com o marido, colherada por colherada.

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