Mundo de ficçãoIniciar sessão
Michel sempre se lembrava do dia em que conheceu Catarina. Para ele, ela era como uma tigresa — indomável, deslumbrante, um sopro de ar fresco e sua inegável alma gêmea. Naquela época, caminhavam pela vida como sombras inseparáveis, enfrentando juntos cada tempestade. Michel tinha virado as costas para as rígidas expectativas de sua própria família apenas para construir um futuro ao lado dela. Por que não se casaria com a mulher que era o seu mundo?
Mas então, o dia da ruína chegou.
Ele estava sentado em seu escritório corporativo, no alto de um arranha-céu, quando sua mãe, Victoria, invadiu a sala. Com os olhos vermelhos e a voz trêmula, ela jogou uma única foto sobre a mesa de mogno. O impacto tirou o ar dos pulmões de Michel. Ali, sob a luz do sol de um café local, Catarina beijava seu ex-namorado, Ren.
A mente de Michel entrou em parafuso; a negação foi seu primeiro instinto. Mas sua mãe, tecendo uma teia impecável de mentiras, desmoronou suas defesas aos gritos: — Eu sempre desconfiei dela, Michel! Ela vivia saindo logo após você cruzar a porta. Como mãe, eu precisava protegê-lo. Mexi nas coisas dela e encontrei isto.
Com as mãos trêmulas de uma falsa vulnerabilidade, Victoria despejou o restante das provas plantadas: um antigo álbum de memórias de Catarina com Ren e um celular descartável repleto de mensagens secretas. — Eu... eu só queria ter certeza de que a esposa do meu filho era fiel — soluçou ela, desempenhando com perfeição o papel de mãe devastada.
Naquele dia, o mundo de Michel ruiu. Ele chegou a confrontar Ren, que, manipulado ou parte do plano, confirmou o caso. A partir dali, o marido amoroso morreu. Michel passou a sentir repulsa pelo toque de Catarina. Afogou sua dor lancinante em rotinas de trabalho intermináveis, passando dias longe de casa e cobrindo-a com um desprezo gélido sempre que seus caminhos se cruzavam na mansão.
Até hoje.
O médico da família acabara de confirmar a notícia mais inesperada: Catarina estava grávida de três semanas. Em circunstâncias normais, este seria o dia mais feliz da vida de Michel. Mas a pergunta ecoava como um sussurro venenoso em sua mente: esse bebê era mesmo dele?
Depois de todas as fotos e mensagens, a desconfiança havia se tornado sua única certeza. Em vez de alegria, uma fúria avassaladora subiu por sua garganta. Como ela ousava? Ele já havia sido fraco o suficiente ao não expulsá-la de casa após a traição, simplesmente porque não conseguia arrancar o amor agonizante que ainda sentia por ela. E agora, ela carregava o filho de outro homem sob o seu teto. Era a humilhação pública suprema.
Com o maxilar cerrado de ódio, Michel marchou pelo corredor da mansão. Perto da escadaria principal, Victoria assistia à cena com um sorriso discreto e vitorioso. Sua armadilha havia funcionado.
Michel escancarou a porta do quarto com violência. Catarina estava sentada na cama, em silêncio, com a mão repousando delicadamente sobre o ventre. Aquele gesto tão puramente protetor apenas atiçou o fogo em seu peito.
Perdendo toda a postura de executivo pragmático, ele atravessou o quarto a passos largos. Agarrou o pulso de Catarina com força, puxando-a para cima até que seus corpos quase se colassem. Seus olhos escuros ardiam em fúria, e os fios brancos de seu cabelo caíam desordenadamente pela testa.
— Eu tive a decência de não te colocar na rua — sibilou ele, a voz rouca, vibrando entre a mágoa e o ódio. — Mas agora você aparece grávida? Grávida?! Qual é o limite da sua audácia, Catarina?
Há semanas Michel a tratava como uma estranha, mas agora o peso era duplo: o médico a alertara de que qualquer estresse extremo colocaria a gestação em risco. Catarina já havia esgotado suas explicações, mas sabia que, se estivesse no lugar dele, também não acreditaria em si mesma. As provas contra ela eram ultrajantes de tão perfeitas.
— Eu já expliquei tudo o que tinha para explicar — disse ela, puxando o pulso com firmeza e massageando a pele marcada. — Mas, para ser sincera, não posso mais continuar nesta casa se você insistir em me tratar como um monstro.
Ela o encarou, sem recuar diante da fúria dele.
— Se o bebê é seu ou não, você tem o direito de acreditar no que quiser. Mas eu vou ter este filho.
Uma dinastia de magnatas não sobrevivia sem herdeiros. Assim como seus irmãos, Catarina tinha deveres de sangue. Se não gerasse aquele bebê, a pressão familiar a forçaria a procedimentos de fertilização. Sendo a primogênita, ela precisava dar o primeiro passo, não importava o quanto o casamento estivesse em ruínas.
Michel soltou uma risada seca, sem qualquer humor. Seus olhos desceram para o pulso dela, e uma pontada rápida de culpa o atingiu ao ver a marca vermelha em sua pele morena. Ele a reprimiu imediatamente. A gentileza tinha sido sua ruína; não seria enganado novamente.
— Livre para acreditar no que eu quiser? — repetiu ele, a voz caindo para um sussurro perigoso. Ele deu um passo à frente, sua estatura de quase dois metros projetando uma sombra imensa sobre a cama de seda. — Você acha que isso é um jogo, Catarina? Acha que pode posar de santa, trazer o filho de um bastardo para debaixo do meu teto e agir como se nada tivesse acontecido?
A determinação dela em proteger aquela gravidez o atingia como um soco, mas seu orgulho era uma armadura impenetrável. Na sua mente, a imagem dela com Ren no café ainda queimava em alta definição.
— Você quer ir embora? — Ele se inclinou, o peito quase roçando o dela, o cheiro de seu perfume caro misturado ao tabaco amargo do cigarro que fumara minutos antes. Com o indicador, ele ergueu o queixo dela, forçando-a a encarar seus olhos sem vida. — Então vá. Corra de volta para ele. Mas não use este bebê como desculpa para escapar da bagunça que você mesma criou.
Ele a soltou abruptamente, como se a proximidade o queimasse, e caminhou até a janela, apoiando as mãos trêmulas na cômoda. Deus, ela continua linda, mesmo mentindo, pensou, torturado.
— Se decidir ficar — completou, de costas —, assuma o papel da mulher que me traiu. Não espere que eu seja um pai amoroso para uma criança que sequer carrega meu sangue.
Catarina se levantou devagar e aproximou-se dele, inclinando a cabeça para olhá-lo de perto. Não havia desespero em seus olhos; ela nunca foi de se curvar.
— Você me conhece tão pouco, Mit.
Havia uma ponta de melancolia em seu tom, mas nenhum sinal de fraqueza.
— Não sei em que momento você me perdeu pelo caminho, mas se eu realmente quisesse outro homem, não faria nada pelas suas costas. Eu teria te deixado. Meu orgulho não me permite ser uma raposa que se esconde; eu sou uma puma. O que eu quero, eu conquisto de frente, sem mentiras.
Com um suspiro exausto, ela encostou a testa contra o braço dele, fechando os olhos por um breve segundo.
— Você se esquece de quem eu sou... e, às vezes, eu também me esqueço. Se fosse qualquer outro homem me tratando assim, eu já teria ido embora sem olhar para trás na primeira vez que você gritou comigo. Mas, infelizmente, eu amo você. E é por isso que continuo me sujeitando a essa humilhação.
Os músculos do braço de Michel tensionaram-se instantaneamente sob o toque dela, rígidos como rocha. Por um milésimo de segundo, a convicção na voz dela quase rachou a geleira em seu peito. Uma puma. Ele se lembrou da mulher feroz e independente que conhecera na faculdade; a mulher que não precisava de ninguém, mas que escolhera estar com ele.
Contudo, a imagem da foto voltou a assombrá-lo. A proximidade física de Ren, as mensagens detalhadas... era tudo real demais. A dúvida era um parasita que devorava seu bom senso.
— Uma puma? — desdenhou ele, embora o veneno em sua voz estivesse misturado a uma dor profunda. Ele não se virou; não queria ver o verde-oliva dos olhos dela carregado de decepção, pois isso o lembrava do monstro que estava se tornando. — Então por que está agindo como um animal encurralado, Catarina? Por que se esconder atrás de discursos sobre orgulho enquanto carrega a prova física da sua traição?
Ele finalmente girou o corpo para encará-la. Não se afastou do toque dela, mas manteve-se rígido. Seus dedos subiram involuntariamente para tocar as linhas das tatuagens no pescoço dela — um velho hábito de quando tentava se acalmar, mas que agora parecia um teste de resistência.
— Você diz que me ama — murmurou, o polegar subindo devagar pela linha da mandíbula dela, em um gesto que misturava posse e amargura. — Se me ama, como consegue mentir olhando nos meus olhos? Como consegue me deixar queimar neste inferno, sabendo que você era a única pessoa no mundo em quem eu confiava?
Ele afastou a mão, sua expressão endurecendo novamente como uma máscara de gelo.
— Não fale de orgulho comigo. Você entregou o seu no momento em que decidiu guardar segredos.
Catarina sentiu uma onda súbita de fraqueza. A gravidez parecia drenar cada gota de sua energia habitual; do contrário, ela já teria reagido à altura de seus insultos. Levou a mão ao rosto, um gesto cansado que costumava fazer desde a adolescência quando a ansiedade apertava.
— Eu nunca menti para você, Mit. E nunca te traí. Vou repetir isso quantas vezes forem necessárias, porque é a única verdade que existe.
Ela soltou um suspiro longo, os olhos fixos nos dele.
— Eu sei que as fotos são devastadoras. Se fosse o contrário, se eu visse você com outra, eu já teria transformado a sua vida em um inferno na terra. Você sabe que sim.
Sua mão desceu novamente para o ventre. A vida ali dentro, ainda do tamanho de um grão de arroz, parecia implorar por trégua e por uma cama macia.
— Você pode se recusar a acreditar em mim agora. Mas daqui a alguns meses, a verdade virá com um teste de paternidade. E quando esse dia chegar, Mit, você vai rodar o mundo inteiro atrás de uma tigela de açaí para me pedir perdão.
Ela fechou os olhos, a exaustão física finalmente cobrando o seu preço. Tudo o que ela queria era dormir.
Michel fixou o olhar na mão dela sobre a barriga. Um ciúme primitivo e violento o atingiu. Ele sentiu uma vontade avassaladora de cobrir a mão dela com a sua, de reivindicar aquela criança e a vida que um dia planejaram juntos, mas o orgulho ferido era um muro alto demais.
Ao ouvir a menção ao teste de DNA, ele soltou um riso amargo.
— Um teste de paternidade? — ecoou ele, as palavras amargas como cinzas. — Você realmente acha que um pedaço de papel apaga a traição? Acha que um laudo médico vai reconstruir a confiança que você estraçalhou?
No fundo, ele odiava o fato de ainda amar a petulância dela — a audácia de provocá-lo sobre açaí mesmo no meio da ruína de seu casamento. Era o fantasma da mulher por quem ele era perdidamente apaixonado.
— Você continua arrogante — murmurou ele, estreitando os olhos ao notar a fadiga expressa em cada linha do corpo dela. A transição da puma feroz para a mulher exausta o irritava, mas também acendia um instinto de proteção que ele tentava, a todo custo, esmagar.
Ele deu um passo em direção à cama, projetando sua sombra sobre ela enquanto Catarina se recostava. Queria confrontá-la, exigir que ficasse acordada e lutasse com ele, mas a fragilidade dela apertou seu peito de forma dolorosa.
— Não ache que vai se esquivar desta conversa com piadas, Catarina — avisou, a voz caindo para um tom mais baixo, quase vulnerável, antes de se recompor. Ele esboçou erguer a mão para tocá-la, mas recuou, fechando o punho com força.
— Vá dormir — disse ele, dando-lhe as costas com um estalo desdenhoso da língua. — Esconda-se no seu sono. Deve ser o único lugar onde você não precisa fingir.
Ele caminhou até a porta e, antes de sair, parou sem olhar para trás.
— E não espere que eu esteja de braços abertos quando o resultado desse exame chegar.







