A Joia do Leilão

*A Joia do Leilão*  

A chuva caía sobre Milão naquela noite.  

Garoa fina cobria as ruas elegantes, transformando as luzes em manchas douradas e prateadas no asfalto molhado. Carros de luxo cruzavam avenidas iluminadas enquanto a elite italiana ocupava restaurantes, hotéis e eventos exclusivos.  

Para a maioria, era só mais uma noite.  

Para Ariana Romano, era o começo de um novo pesadelo.  

Eu não sabia para onde me levavam. Sabia apenas que tudo havia mudado.  

Nas últimas semanas, os homens que me mantinham presa ficaram estranhamente atentos. Mais organizados. Mais cuidadosos. Como se preparassem algo.  

E naquela manhã tive certeza.  

As três mulheres retornaram, acompanhadas por outras. Nenhuma demonstrava crueldade, mas também não havia compaixão. Eu era só trabalho. Uma tarefa. Uma mercadoria.  

Uma delas abriu a cela.  

— Levante.  

Meu corpo continuava magro, mais fraco do que lembrava, mas obedeceu. As pernas vacilaram. Uma mulher segurou meu braço, não por gentileza. Mercadorias danificadas valem menos. A constatação revirou meu estômago.  

Fui conduzida por corredores que nunca tinha visto. Pela primeira vez desde a captura, deixei a cela. Meu coração acelerou. Uma parte ainda esperava uma saída, uma chance. Mas só havia mais portas, mais corredores, mais homens armados, mais grades. O mundo tinha sido reduzido àquela prisão.  

Do outro lado da cidade, o príncipe Zayn Al-Hassan encerrava uma reunião com investidores europeus. O salão reservado do hotel cinco estrelas estava silencioso. Executivos recolhiam documentos, advogados organizavam contratos. Mais um negócio concluído. Mais milhões.  

Mas Zayn parecia distante. A vista de Milão ocupava toda a parede de vidro atrás dele. A cidade brilhava sob a chuva, elegante, sofisticada, viva.  

— O evento desta noite foi confirmado — informou Amir, seu assessor.  

— Evento?  

— O proprietário do Nero Privé insiste em recebê-lo. Recepção exclusiva para investidores e convidados internacionais.  

Zayn massageou o maxilar, cansado. Normalmente recusaria. Mas ainda ficaria dois dias na Itália, e o convite vinha de um parceiro importante.  

— Tudo bem.  

— O carro estará pronto às vinte e duas horas.  

Quando me levaram para o novo quarto, fiquei sem reação.  

Luxuoso. Absurdamente luxuoso. Paredes de seda, espelhos enormes, lustres de cristal, tapetes macios, perfume caro no ar. Parecia um quarto de princesa.  

Ou uma gaiola dourada. Talvez fosse exatamente isso.  

As mulheres começaram a trabalhar sem explicações. Sem perguntas. Sem conversas.  

Uma preparou uma banheira de mármore. Pétalas claras e óleos perfumados cobriam a água. Vapor subia com aroma de jasmim, baunilha e flores do deserto.  

Duas lavaram meus cabelos. Mechas loiras desembaraçadas com paciência, máscaras, óleos, escovação cuidadosa. Durante quase uma hora trabalharam em silêncio até devolverem o brilho que os meses de cativeiro roubaram.  

Depois vieram os tratamentos. Máscaras hidratantes, cremes caros, óleos corporais. Cada centímetro do meu corpo tratado como peça rara de museu. Uma mercadoria valiosa. Não uma pessoa. Aquilo tornava tudo mais humilhante.  

Na poltrona diante do espelho iluminado, começou a maquiagem. Base leve para esconder cansaço e cicatrizes. Sombras douradas destacando os olhos verdes. Cílios alongados. Lábios num rosado natural. Nada exagerado. Tudo calculado para valorizar minha juventude, minha inocência. Exatamente o que os compradores queriam ver.  

O vestido veio por último. Dourado. Luxuoso. O tecido parecia líquido, deslizando pelo corpo, acompanhando cada curva. Costas parcialmente descobertas, frente sofisticada, bordados feitos à mão que capturavam a luz.  

Quando terminaram, me colocaram diante do espelho.  

Por segundos não reagi. A jovem assustada da cela havia sumido. Diante de mim estava uma mulher deslumbrante. Cabelos em ondas até a cintura, olhos intensos, pele com brilho recuperado, vestido transformando cada movimento em algo hipnotizante.  

Era exatamente por isso que fizeram tudo. Não por gentileza. Não por respeito. Estavam polindo uma joia antes de colocá-la à venda.  

Um frio terrível percorreu minha espinha.  

Porque entendi: não era festa. Nem celebração. Nem nova vida.  

Estava sendo preparada para um leilão. E eu era o prêmio principal.  

No mesmo horário, carros de luxo chegavam ao Nero Privé.  

O clube ocupava um edifício histórico reformado. Fachada elegante, segurança reforçada, clientes selecionados. Dinheiro. Poder. Influência. Tudo circulava ali.  

Quando o carro de Zayn parou na entrada, fotógrafos tentaram registrá-lo. Ele ignorou todos, como sempre. Nunca gostou daquele tipo de atenção. Entrou acompanhado apenas por dois seguranças.  

O ambiente era sofisticado. Música suave, luzes discretas, champanhe, conversas importantes. Nada parecia incomum. Nada sugeria o que aconteceria mais tarde.  

Porque o verdadeiro evento ainda não havia começado. E nem Zayn sabia disso.  

Meu coração acelerava desde que me retiraram do quarto.  

O vestido dourado pesava como correntes invisíveis. As joias brilhavam na pele. Os cabelos caíam arrumados sobre os ombros. Por fora, uma princesa. Por dentro, pavor.  

Dois homens armados atrás, dois à frente. Nenhum dizia uma palavra. Nenhum olhava nos meus olhos. Como se eu já não fosse gente. Só uma encomenda sendo entregue.  

O corredor terminou numa porta dupla de madeira escura. Do outro lado vinham sons. Música. Conversas. Risadas. Ta

ças. Dinheiro. Poder.  

A porta se abriu.  

E o mundo mudou.  

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