Mundo de ficçãoIniciar sessão*O Preço de Uma Vida*
O salão parecia saído de um filme.
Lustres gigantescos despejavam luz dourada. Mesas em diferentes níveis ocupavam o espaço imenso. Homens de ternos milionários bebiam uísque caro. Seguranças discretos nas paredes. Mulheres elegantes acompanhavam alguns convidados.
Mas havia algo errado. Muito errado.
Porque todos os olhares estavam voltados para o palco ao fundo.
Como se aguardassem alguma coisa.
Ou alguém.
Meu estômago afundou.
Estavam esperando por mim.
No centro do salão, Zayn Al-Hassan observava tudo em silêncio.
Não gostava daquele ambiente. Nem da atmosfera. Nem das pessoas. Chegara acreditando que seria uma reunião privada entre investidores internacionais. Mas algo estava estranho.
Os homens ao redor não falavam de negócios. Não falavam de mercados. Falavam de preços. Exclusividade. Aquisição.
Como se aguardassem uma compra.
Seu maxilar endureceu. Instinto. Uma sensação desagradável na coluna.
Observou o palco iluminado, a movimentação nos bastidores. A apresentação principal ia começar.
Uma música suave tomou o salão. O apresentador surgiu, sorridente, elegante, perigoso.
— Senhoras e senhores... — o silêncio caiu como uma lâmina. — Chegamos ao momento mais aguardado desta noite.
Meu coração martelava nas costelas.
Eu queria fugir. Correr. Desaparecer. Mas as pernas não obedeciam. O medo era uma mordaça.
— Nossa última joia — continuou o homem, voz melíflua. — Nossa peça mais rara. Uma exclusividade absoluta.
As portas atrás do palco começaram a se abrir.
Meu corpo inteiro congelou.
Não. Não. Não.
As mãos tremiam. A respiração falhou. Mas os homens me empurraram para frente, para a luz.
E então eu apareci.
O salão inteiro ficou em silêncio. Absoluto. Pesado. Chocante.
Zayn esqueceu de respirar.
Porque a mulher no palco parecia irreal.
Cabelos dourados brilhando sob os refletores. Olhos verdes carregando algo que ele nunca tinha visto: dor, medo, orgulho e uma tristeza profunda demais para alguém tão jovem.
Ela estava imóvel, mas os olhos não. Procuravam saídas. Procuravam esperança. Procuravam sobrevivência.
E naquele instante Zayn compreendeu.
Ela não queria estar ali. Aquilo não era apresentação. Não era entretenimento. Não era escolha.
Era prisão.
Eu sentia centenas de olhares na pele. Corpo tremendo, coração prestes a explodir. Mas me recusei a abaixar a cabeça. Não daria isso a eles. Não depois de tudo. Não depois dos meus pais. Não depois dos meses de cativeiro. Mesmo assustada, destruída, sozinha, continuei de pé.
O apresentador abriu os braços, teatral.
— Senhores... Ariana Romano. Filha única da lendária família Romano. Uma verdadeira princesa.
O murmúrio se espalhou como fogo.
Meu sangue congelou.
Eles sabiam quem eu era. Todos sabiam.
Meu valor não estava só na aparência. Estava no sobrenome. Na história. Na tragédia.
Eu era uma atração. Um troféu. Uma lenda vendida ao maior lance.
Senti vontade de vomitar.
Zayn apertou os punhos até os nós dos dedos ficarem brancos.
Romano. Ele conhecia o nome. Toda a Europa conhecia. A família destruída meses antes. A herdeira desaparecida, declarada morta.
E agora estava ali. Viva. Sendo vendida.
Algo escuro se moveu dentro dele. Raiva. Fria. Controlada. Mas perigosa. Muito perigosa.
— Vamos começar com cinco milhões de euros — anunciou o apresentador.
— Seis milhões — veio imediato.
— Oito milhões.
— Dez milhões.
O salão explodiu. Números subiam rápido, como se negociassem uma obra de arte rara.
Cada novo lance arrancava um pedaço da minha dignidade. Eu não era um quadro. Não era uma joia. Não era propriedade. Mas ninguém enxergava isso. Para eles eu era só um preço. Um valor. Uma aquisição.
As lágrimas ameaçaram surgir. Engoli todas. Todas.
— Quinze milhões.
— Dezoito.
— Vinte.
— Vinte e três.
Os lances continuavam. O apresentador sorria cada vez mais, o lucro aumentando, a disputa feroz.
Zayn observava em silêncio. Os olhos nunca deixaram Ariana.
Porque ela não olhava para o dinheiro. Não olhava para os homens. Não olhava para o palco.
Ela olhava para as saídas. Como alguém procurando uma chance de sobreviver. Como alguém desesperado para escapar.
Então nossos olhares se encontraram.
Um segundo. Só um segundo.
Mas foi suficiente.
Zayn viu o medo. A dor. A solidão. E algo mais. Coragem. Feroz. Inesperada.
Ela estava quebrada. Mas não derrotada.
— Trinta milhões! — gritou alguém.
O salão explodiu em murmúrios. O valor era absurdo, mesmo ali.
Meu coração afundou.
Trinta milhões. Era isso que minha vida valia agora.
Uma lágrima escapou. Só uma. Escondi rápido.
Mas Zayn viu.
E algo dentro dele mudou. Definitivamente.
— Trinta e cinco milhões — outro homem, outro predador.
O apresentador estava eufórico.
— Temos trinta e cinco milhões! Alguém oferece mais?
Silêncio. Longo. Pesado. Parecia encerrado.
Então Zayn ergueu a mão. Calmamente. Sem emoção aparente. Mas com os olhos fixos em Ariana, prometendo sem palavras que aquilo acabava ali.
— Cinquenta milhões.
O salão inteiro congelou. Até o apresentador perdeu o sorriso por um instante.
Cinquenta milhões. Ninguém respondeu. Ninguém.
O valor era devastador. Absurdo. Definitivo.
O apresentador engoliu em seco, recompôs o tom.
— Cinquenta milhões pela senhorita Romano. Primeira chamada.
Silêncio.
— Segunda chamada.
Mais silêncio. Só o som da minha respiração presa na garganta.
— Terceira chamada.
O martelo bateu. O som ecoou, alto, irrevogável, definitivo.
— Vendida.
Meu mundo parou.
_Vendida._
A palavra atravessou meu peito como lâmina fria.
Eu havia sido vendida.
Mas quando ergui os olhos novamente, encontrei o olhar do homem que deu o lance final.
E pela primeira vez naquela noite não vi ganância. Não vi luxúria. Não vi crueldade.
Vi algo que não sentia havia muito tempo.
Segurança.
E aquilo foi ainda mais assustador. Porque eu não sabia se
podia confiar nele.
Mas pela primeira vez desde a morte dos meus pais, uma pequena chama de esperança ousou sobreviver dentro da escuridão.







