ENTERRADA VIVA NO MUNDO

*Enterrada Viva no Mundo*  

O silêncio da cela não era comum. Era vivo. Pesado. Opressivo. Daqueles que se acomodam nos ombros até tornar cada respiração um esforço.  

Ariana ficou imóvel. Minutos. Horas. Já não distinguia tempo. O lugar era escuro, fechado, frio. Só uma lâmpada amarelada no teto de concreto, piscando como se fosse apagar para sempre e levá-la junto.  

Mantinha os olhos na porta metálica. Coração ainda disparado.  

_O mundo inteiro vai acreditar que você morreu com seus pais._  

Cada vez que a frase voltava, algo quebrava dentro dela. Uma costela invisível. Um pedaço da alma.  

Significava que sua vida acabou. Ariana Romano não existia mais. Pelo menos não para o mundo. Pai morto. Mãe morta. E agora ela também. Mesmo viva. Enterrada sem terra.  

A crueldade era absurda demais para aceitar. A mente se recusava. O corpo não.  

Lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto machucado, abrindo trilhas na sujeira. Não chorava só pelos pais. Chorava pela própria vida. Pela casa que nunca mais veria. Pelo quarto com janelas para o jardim. Pelas manhãs com café e risada da mãe. Pelos conselhos do pai no escritório. Pelos aniversários que não existiriam. Pelos filhos que não teria. Tudo roubado. Tudo.  

Longe dali, os jornais divulgavam a tragédia.  

Televisões mostravam destroços do comboio em loop. Fotos dos carros destruídos, do asfalto marcado por fogo, das flores que agora cobriam o portão da mansão. Investigadores, especialistas, políticos, jornalistas. Todos falavam a mesma coisa: o fim da família Romano.  

Manchetes gritavam nas bancas:  

_MASSACRE ELIMINA LORENZO ROMANO E ESPOSA_  

_HERDEIRA DOS ROMANO DESAPARECIDA_  

_AUTORIDADES ACREDITAM QUE ARIANA ROMANO NÃO SOBREVIVEU_  

Especulações. Boatos. Teorias de conspiração. Nenhuma perto da verdade.  

Porque Ariana estava viva. Respirando. Sofrendo. Aprisionada a milhares de quilômetros, num porão sem nome.  

Os dias passaram como borrão. Talvez semanas. Não havia janelas. Nem relógios. Nem luz natural. Só escuridão, concreto, silêncio e o medo como único companheiro.  

A rotina era simples e cruel. Uma vez ao dia a porta abria. Um homem mascarado entrava. Deixava uma bandeja com comida intragável e uma garrafa de água. Saía. Ninguém conversava. Ninguém explicava. Ninguém respondia às perguntas que ela gritava até a garganta doer.  

Era como se tivesse deixado de ser humana. Um objeto num depósito. Valioso demais para descartar, sem importância para ter dignidade.  

Com o tempo, percebeu mudanças. Não só físicas. Emocionais. Psicológicas.  

Falava menos. Chorava menos. Dormia menos. O corpo se adaptava ao horror. A mente também, e isso a assustava mais.  

Os pesadelos eram constantes. Sempre iguais. Sempre cruéis.  

Revia o restaurante. Piano, risadas, perfume de lírios da mãe, colar sobre a mesa de linho branco. Tudo perfeito. Até o sangue surgir. Uma gota na toalha. Depois outra. Até o salão inteiro ficar vermelho.  

Tentava correr para os pais, mas o corpo não obedecia, preso à cadeira como estava agora.  

O pai olhava, rosto ferido, olhos cheios de sangue, e ainda sorria com aquele amor torto que só ele tinha.  

— Corra, princesa.  

Mas ela nunca conseguia.  

Então vinha o carro. Tiros estourando os tímpanos. Vidros quebrando. O mundo girando. Gritos. Chamava os pais, mas eles ficavam distantes, como se uma mão invisível os puxasse para longe.  

O silêncio. O pai preso nas ferragens, imóvel. A mãe viva, respirando com dificuldade, dizendo:  

— Seja forte. Sobreviva. Viva por nós.  

E desaparecia como fumaça entre seus dedos.  

Depois, a floresta. Escura. Fria. Galhos rasgando a pele. Corria até os pulmões queimarem, mas os homens sempre apareciam. Botas esmagando folhas, armas brilhando na penumbra. Sempre a encontravam. Sempre a arrastavam pelos cabelos. Até a porta de metal. A cela. Seu túmulo.  

Acordava ofegante, suada, chorando. E demorava a lembrar que a realidade era ainda mais cruel, porque não acabava quando abria os olhos.  

Numa dessas madrugadas, despertou sufocada. Corpo trêmulo, respiração curta, coração querendo sair pela boca. Abraçou os joelhos, buscando conforto que não existia naquele concreto gelado.  

Então sentiu algo contra a pele.  

O colar.  

O presente de aniversário. Ainda escondido sob a camiseta rasgada. Os sequestradores não perceberam. Ou não se importaram.  

Segurou o pingente com força, as esmeraldas frias contra a palma. Como se segurasse as mãos dos pais. Lágrimas voltaram, quentes, queimando as feridas no rosto. Fechou os olhos e, pela primeira vez desde a morte deles, permitiu-se lembrar das coisas boas. O restaurante. As risadas. A mãe ajeitando seu cabelo atrás da orelha. O pai fingindo bravo quando ela roubava sobremesa. Os três abraçados, inteiros.  

A memória doeu. Mas trouxe calor. Uma chama pequena, teimosa, no meio do peito. Lembrança de quem era. Ariana Romano. Filha. Amada. E de quem não podia deixar de ser, nem que tentassem enterrá-la viva.  

Meses passaram.  

O corpo emagreceu, as costelas marcando a pele. O rosto perdeu a juventude despreocupada. Os olhos verdes ficaram mais atentos, cautelosos, tristes, cercados de olheiras.  

Mas algo resistia. Algo que os sequestradores não destruíam.  

Vontade de sobreviver. Honrar os pais. Descobrir quem fez aquilo e por quê.  

Recusa em morrer por dentro.  

Numa manhã silenciosa, sem aviso, tudo mudou de novo.  

A porta metálica abriu com violência. Não era um dos homens habituais.  

Três mulheres entraram. Elegantes, salto alto ecoando no concreto, perfume caro brigando com o cheiro de mofo. Uma com maleta prateada, outra com roupas dobradas sobre o braço, a terceira com uma prancheta, avaliando Ariana como se avaliasse um diamante bruto.  

O estômago dela contraiu. Algo errado. Muito errado.  

— Levante — disse a da maleta, voz sem inflexão.  

Ariana não se moveu. O corpo travou.  

— Levante. Agora.  

Obedeceu devagar. Pernas fracas, meses de confinamento cobrando cada músculo. A cabeça girou.  

As mulheres a examinaram. Cabelo, dentes, pele, olhos, braços, cicatrizes. Mediram, anotaram. Como veterinários com um animal de raça.  

A humilhação ferveu o sangue, trouxe cor ao rosto pela primeira vez em meses.  

— O que tá acontecendo? — a voz saiu mais forte do que esperava.  

Silêncio.  

— Para onde vão me levar?  

Silêncio. Só o risco da caneta no papel.  

Uma abriu a maleta. Instrumentos médicos brilharam sob a luz amarela. Agulhas, luvas, tubos.  

Ariana empalideceu. O ar faltou.  

— Não.  

A mulher segurou seu braço com dedos de gelo.  

— Fique quieta. É rápido.  

— O que vocês querem? — o medo voltou, mais forte, mais sombrio. Algo definitivo estava para acontecer.  

Terminado o exame, a mulher fechou a maleta com um clique que soou como sentença. Trocou olhares com as outras e sorriu. Um sorriso comercial.  

— Perfeita.  

A palavra atravessou Ariana como gelo na espinha.  

_Perfeita. Para quê? Para quem?_  

As mulheres recolhiam o material quando Ariana ouviu uma frase, dita casual, como quem comenta o tempo:  

— Os compradores vão pagar uma fortuna. Ano passado não tivemos um lote assim.  

O mundo parou. O som sumiu. Só aquela palavra ecoando no crânio.  

_Compradores._  

O sangue sumiu do rosto. Coração falhou uma batida. Depois outra. As pernas bambearam.  

Então com preendeu. Finalmente. Com uma clareza que doeu mais que qualquer tiro.  

Não era refém. Não era testemunha. Não era prisioneira comum.  

Era mercadoria. Extremamente valiosa. Preparada para leilão.  

O verdadeiro pesadelo não foi o acidente. Não foi a cela.  

O verdadeiro pesadelo estava apenas começando.  

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