Cap. 4: A Cicatriz e o Sopro

O trajeto até o hospital  foi o percurso mais longo da vida de Yuri. Sentado ao lado de Aleksei no banco traseiro do carro blindado, ele sentia o peso do olhar do mafioso sobre si. Cada curva que o motorista fazia aproximava Yuri da sua própria sentença de morte, pois ele sabia que não havia irmã alguma naquele prédio cinzento. Ele estava apenas ganhando tempo, tentando encontrar uma saída para a teia de mentiras que criara.

— Você está muito pálido, Yuri — Aleksei comentou, a voz como um trovão baixo na cabine silenciosa. — Se a sua história for real, eu salvarei sua irmã. Mas se você estiver me usando novamente...

Ele não precisou terminar a frase. O aviso estava implícito no aperto de sua mão sobre o joelho de Yuri.

Assim que o carro parou diante da entrada de emergência, o perigo que Yuri tanto temia se materializou, mas não da forma que ele esperava. Antes que os seguranças pudessem desembarcar, um vulto saltou de trás de uma ambulância abandonada. Uma lâmina longa e brilhante cortou o ar da noite, refletindo a luz fraca dos postes. O assassino — um dos cães de guarda de Ivan — não visava Aleksei. Ele mirava o coração de Yuri.

Em um reflexo puramente instintivo, Aleksei não sacou sua arma; ele usou o próprio corpo. Com um rugido, ele empurrou Yuri para dentro do carro e recebeu o golpe. A faca rasgou o tecido caro de seu paletó e mergulhou fundo em seu braço esquerdo. Aleksei reagiu com a rapidez de um predador ferido, desarmando o agressor com um golpe seco no pescoço e derrubando-o no chão asfáltico, mas o sangue já começava a ensopar sua camisa branca.

— Aleksei! — Yuri gritou, saindo do carro e segurando o braço do mafioso. — Você... você me protegeu!

— Entre no carro! Agora! — Aleksei rosnou, a face retorcida pela dor e pela fúria.

De volta à mansão, o caos se instalou. A noiva de Aleksei correu ao seu encontro no hall, soltando gritos histéricos ao ver o ferimento. Aleksei a ignorou completamente, subindo as escadas com Yuri logo atrás. No quarto principal, ele trancou a porta, excluindo o resto do mundo.

— Limpe isso. Agora — ordenou Aleksei, sentando-se pesadamente na beirada da cama e rasgando a manga da camisa.

Yuri pegou o kit de primeiros socorros com as mãos trêmulas. Ele se ajoelhou entre as pernas de Aleksei, sentindo o calor que emanava do corpo do homem. Ver o "Lobo de Kyiv" sangrando por sua causa despertou uma avalanche de sentimentos contraditórios no peito de Yuri.

— Por que você fez isso? — Yuri sussurrou, passando o antisséptico com uma delicadeza extrema. — Eu sou apenas um problema para você.

Aleksei inclinou-se para frente, forçando Yuri a encará-lo. O rosto do mafioso estava a centímetros do seu. — Eu protejo o que me pertence, Yuri. E você, por bem ou por mal, pertence a mim. Ninguém tira o que é meu.

Yuri sentiu um nó na garganta. Ele lembrou-se da mentira sobre a irmã e do fato de que Aleksei quase morrera por uma mentira. — Minha mãe dizia que o carinho curava a dor mais rápido que o remédio — murmurou, movido por um impulso de ternura e culpa.

Em um gesto que desafiava toda a lógica daquela relação brutal, Yuri inclinou a cabeça e assoprou suavemente o corte profundo de Aleksei. O hálito quente de Yuri sobre a pele ferida agiu como uma carga elétrica. Os músculos de Aleksei tensionaram-se violentamente e ele soltou um suspiro entre dentes.

Yuri levantou o olhar e encontrou os olhos de Aleksei escurecidos por uma intensidade avassaladora. O ar entre eles ficou rarefeito. Yuri sentiu-se atraído, os lábios buscando os de Aleksei, desejando o beijo que selaria aquele pacto de sangue. No último instante, porém, Aleksei desviou o rosto, segurando o queixo de Yuri com uma força possessiva.

— Já chega — Aleksei sibilou, a frieza retornando aos seus olhos. — Não use seus truques comigo. Eu sangrei por você hoje, e isso só prova que sua vida agora vale muito mais do que você pode pagar. Vá para o seu quarto.

Yuri levantou-se, humilhado e confuso, deixando Aleksei sozinho com sua dor e sua possessividade silenciosa. Ele sabia que, a partir daquela noite, não havia mais volta. Ele era a caça, e o Lobo nunca mais o deixaria ir.

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