Mundo de ficçãoIniciar sessão— Me desculpa, eu não tive a intenção.
Falei esperando que me tratasse com a mesma frieza da noite anterior. E novamente eu fui surpreendida. Ele sacudiu o terno numa tentativa frustrada de expulsar a água e, feito isso, olhou-me. Eu podia jurar que havia ternura em seus olhos. Com um sorriso de canto, que marcava perfeitamente um único lado de sua boca, ele falou: — Não se preocupe, não foi nada. — Está tudo bem com você? Eu fiquei estática por uns breves segundos. Ele não ia me ignorar? Ou falar um monte de asneira? O que era aquilo agora? — Está tudo bem? — ele insistiu. — Sim. Claro que sim, me perdoe — falei tentando manter a compostura. — Eu realmente não vi você vindo. — Eu estava um pouco apressado também, talvez por isso não tenha tido tempo de evitar. — Bom, agora eu preciso ir — falou, retirando as mãos que eu nem sabia que estavam depositadas nos meus ombros. Eu o assisti sair, me desculpando mais uma vez. Olhei aquela silhueta seguir pelo corredor enquanto minha cabeça perguntava repetidas vezes: como assim? É sério isso? Meus olhos o acompanharam discretamente, enquanto minhas pernas davam leves passos atrás dele. Duas voltas no corredor e ele entrou em um quarto. Então era ali que ele se encontrava. Analisei o ambiente. Aquela ala parecia ser bem importante, mas o que eu esperava? Aquele hospital era um dos mais importantes do mundo, nada mais natural. Respirei por uns breves segundos, pensando em qual seria o próximo passo, como me aproximar daquele homem que, a cada instante, demonstrava uma personalidade diferente. Antes que eu chegasse a uma conclusão, a porta do quarto se abriu num ímpeto e ele saiu transtornado. Eu me afastei o suficiente para não ser atropelada por ele, que, mesmo tendo me olhado, não pareceu dar a mínima. — Você precisa ficar calmo. Por favor, senhor, estamos fazendo o nosso trabalho, vai ficar tudo bem — dizia a enfermeira em um tom suave, enquanto ele esfregava as duas mãos no cabelo em direção à nuca e andava de um lado para o outro. O olhar transbordava desespero. Ele não parecia nem de longe o cara imponente e frio que entrou no restaurante naquela noite. Gesticulei para a enfermeira que eu cuidaria daquilo. Ela pareceu muito agradecida e voltou novamente para o quarto. Ele fez menção de acompanhá-la, mas eu o impedi. — Eu não sei o que está acontecendo, mas agir assim não vai ajudar — falei com um tom brando, enquanto segurava seu braço. Ele se voltou na minha direção e, por um segundo, eu tive a impressão de que ele havia me reconhecido. Pareceu querer dizer alguma coisa, mas a voz não saiu. Olhei para o lado e vi um bebedouro. — Vem… — falei, ainda segurando seu braço. Ele não se opôs. Peguei um copo de água e entreguei a ele, depois peguei outro para mim. Mostrei algumas cadeiras que ficavam no corredor e pedi que ele se sentasse. Ele se sentou, mas não provou da água. — Vai te fazer bem, toma um pouco — eu insisti. — Você está muito agitado. — Tenta se acalmar. Falei duvidando que ele fosse obedecer. Ele era o cara que passou uma noite inteira com uma taça de champanhe sem sequer provar. Não parecia o tipo de pessoa que bebia coisas das mãos de estranhos. Mas não precisei insistir novamente. Ele levou o copo à boca e tomou. Eu pisquei repetidas vezes. Depois de tomar alguns goles em silêncio, ele me olhou com os mesmos olhos do corredor anterior. — Obrigado. — Não precisa agradecer, não é fácil lidar com essas situações. — Você está melhor? — Sim. Eu quis perguntar quem estava lá dentro, mas eu ia parecer suspeita. Além do mais, nada indicava que ele pudesse confiar em mim. A porta atrás de nós se abriu mais uma vez e a enfermeira saiu. Ele se voltou rapidamente na direção dela. Eu me levantei, mas fiquei no mesmo lugar. Embora fosse possível ouvir a conversa dos dois de onde eu estava, não queria parecer que estava invadindo a privacidade dele. — Está tudo bem, conseguimos estabilizá-lo. — Ele está dormindo agora. — Se quiser, pode vê-lo. Ela saiu acompanhada de outras pessoas e ele veio novamente até mim. — Mais uma vez, muito obrigado — falou, estendendo a mão na minha direção. Eu ergui a minha e segurei a dele. — Eu já disse que não precisa agradecer — parei nesse momento, porque eu não podia deixar parecer que sabia o nome dele. Tentando uma nova jogada, completei: — O meu nome é Julia. — Ah, claro. Que falta de educação, eu nem me apresentei. — Rafael… muito prazer. Rafael. Soava bem. Soaria perfeito, se eu não soubesse quem ele realmente era.






