Mundo de ficçãoIniciar sessãoEmbora permanecesse sentada à mesa, meus olhos acompanhavam sorrateiramente cada movimento daquele homem. Ele cumprimentou alguns convidados, conversou com outra meia dúzia e permaneceu ali, com uma taça de champanhe na mão — da qual não deu um único gole sequer.
Em determinado momento da noite,um homem se aproximou e murmurou algo em seu ouvido. Ele pareceu estremecer, embora mantivesse a mesma postura. Pediu licença e saiu. Peguei a bolsa, o casaco e fui atrás. Assim que deixou o restaurante, seus passos se tornaram mais largos. Entrou no carro e acelerou. Para minha sorte, um táxi apareceu logo em seguida; entrei e implorei ao motorista: —Segue aquele carro, por favor. Ele parecia muito apressado. — Não perca ele de vista, moço. Pelo amor de Deus — insisti. — Calma, senhora. Estou fazendo o que posso. Ele seguiu em direção a uma área afastada da cidade e parou diante de uma casa que só podia ser definida como deslumbrante. As luzes acesas contrastavam com o jardim perfeitamente iluminado. Tudo ali era impecável. Observei cada detalhe de dentro do carro. Ao menos agora eu sabia onde ele se escondia. Ele desceu do carro apressado e adentrou a mansão. Alguns minutos depois, a enorme porta se abriu novamente. Ele saiu apressado. Pisquei várias vezes, tentando entender o que via. Um bebê... Aquilo era impossível… então ele tinha um filho. Automaticamente, pensei: havia uma esposa também. Enquanto eu tirava minhas próprias conclusões, uma mulher surgiu logo atrás dele, apressada. Ela carregava uma bolsa grande em um dos braços e outra menor no outro. Os dois entraram no carro e partiram em alta velocidade. — E agora, senhora? O que faremos? — perguntou o taxista. Olhei à frente, sem hesitar. — Continua, não os perca de vista. A tela do meu telefone acendeu e, assim que abri, vi que Jhey havia me enviado um áudio. Onde é que você se meteu? Por que não está em casa? Eu não tinha tempo para explicar nada. Estou de plantão, respondi, apagando a tela do celular logo em seguida. Meus olhos permaneceram fixos no carro à frente, que seguia um pouco mais rápido do que o normal. Eles estacionaram na porta do hospital da cidade, e eu observei a alguns metros de distância. Aquele homem desceu rápido e correu em direção ao pronto atendimento. Tudo indicava que tinha uma ligação próxima com aquele menino. Esperei por horas, mas ninguém saiu. Então, voltei para casa. Eu já havia descoberto coisas demais naquele dia, e aquilo certamente seria útil. Na manhã seguinte, levantei cedo e passei um café apressada. Dois goles foram suficientes, apenas para não sair em jejum. Peguei minha moto e segui em direção ao hospital. Precisava passar despercebida; não queria que ninguém soubesse que eu estava investigando. Aproveitei uma emergência e adentrei aquele lugar enorme. Eu não fazia ideia de em qual andar ele estava. Na verdade, nem sabia se ainda se encontrava ali. Mesmo assim, precisava tentar. Passei horas vasculhando o prédio, procurando qualquer coisa que pudesse me ajudar. Estava exausta. Era impossível encontrar alguém em um hospital daquele tamanho. Fui até o bebedouro e peguei um copo de água. Já nem sabia mais em qual andar estava. Com certeza ele já havia ido embora. Eu precisaria encontrar outra forma de chegar até ele. Abri sorrateiramente a porta do último quarto daquele andar, ainda com o copo na mão. Algumas pessoas repousavam em seus leitos. Nada diferente do que eu já havia visto. Fechei a porta e dei alguns passos de costas. Ao me virar, trombei de frente com um peito firme coberto por um paletó cinza que eu poderia jurar já ter visto antes. O copo descartável se amassou completamente, e a água encharcou o terno que, com certeza, valia milhões. Levantei os olhos vagarosamente, como se temesse o que encontraria. Quando encarei seu rosto, dois olhos castanhos, marcados por olheiras profundas, me observavam em silêncio. A barba por fazer, o maxilar marcado, as sobrancelhas grossas e expressivas. Desta vez, sua presença imponente vinha acompanhada de um perfume amadeirado que exalava elegância e poder. Eu não esperava aquele encontro. De maneira nenhuma. Movi a cabeça rapidamente, tentando sair do transe, e me afastei o suficiente para encará-lo de frente.






