Mundo ficciónIniciar sesiónNo dia do lançamento, me arrumei bem cedo. Eu devia estar deslumbrante — o tipo de mulher que qualquer homem enlouqueceria com apenas um olhar.
Por precaução, sob o vestido justo, com uma fenda que certamente roubaria a atenção de vários olhares, fixei na coxa um pequeno punhal e um mini revólver. Eu não sabia o que esperar daquela festa, então estar preparada era o mínimo. A maquiagem estava impecável. Dessa vez, alterei detalhes sutis, apenas o suficiente para que, caso alguém me visse na rua depois, não fosse capaz de me reconhecer como a mesma pessoa. Batom vermelho, salto pontiagudo, e um perfume que, sem dúvida, entraria primeiro. Minha garganta secava às vezes, mas eu não me permitia ficar nervosa. Abri a gaveta, peguei o convite e conferi mais uma vez. Estava idêntico ao original. Ter bons contatos na polícia era extremamente útil. Peguei um táxi e informei o endereço impresso no convite. — Chegamos — disse o motorista. Quando desci, pensei que ele tivesse se enganado. Eu esperava uma mansão badalada, um hotel luxuoso, ou qualquer extravagância típica daqueles magnatas que amam exibir poder. Mas, para minha surpresa, não havia nada disso. Era um restaurante francês. Le Suffer, dizia a placa na entrada. Aquilo me causou um certo estranhamento; eu nem sabia que havia um restaurante francês ali. Cravei os dedos na palma da mão ao ver a pequena meia-lua formada na entrada. Inspirei profundamente e soltei o ar devagar, como se precisasse me certificar de que ainda estava respirando. Em seguida, me aproximei. Dois homens na porta me abordaram. Entreguei o convite, e eles sequer se deram ao trabalho de conferir. Como eu imaginava, apesar da seriedade do evento, o decote provocador do meu vestido pareceu bem mais interessante naquele momento. Com o olhar faminto de quem encontra um osso raro, me deixaram entrar. O cenário lá dentro era simples. Parecia, de fato, apenas um restaurante. Após as mesas, um pequeno palco havia sido montado — provavelmente o local onde ocorreria o discurso. Escolhi uma mesa exatamente de frente para o palco. Nem perto demais, nem longe. A distância perfeita para colocar meu jogo de sedução em prática. Conforme os minutos passaram, as pessoas foram se reunindo. Um homem de terno e gravata apresentou-se como Jhoe, fez os agradecimentos de praxe e anunciou a entrada do CEO. Aplausos ecoaram por todo o restaurante. Olhei em volta e percebi que os seguranças que haviam me recepcionado agora estavam do lado de dentro. O restaurante estava completamente fechado. A bile subiu pela minha garganta. Não havia saída. Eu estava no covil dos lobos. Era tudo ou nada. Me ajeitei na cadeira e concentrei os olhos no palco. Um leve som de passos começou a inundar meus ouvidos. Uma porta se abriu à direita, atrás do palco, e meus olhos foram tomados por uma presença masculina que não se parecia em nada com a imagem que eu havia criado para aquele nome. Observei-o de baixo para cima, à medida que o som dos passos se tornava mais firme. Sapatos sociais pretos, certamente caríssimos, exalando elegância à distância. Um terno cinza-escuro de caimento perfeito, que lhe conferia um ar impecável. O cabelo preto, cortado de forma clássica, reforçava ainda mais sua postura superior. Os olhos castanhos eram penetrantes, embora frios como um dia de inverno. O maxilar firme, a barba por fazer. Ele tinha o tipo de presença que silencia uma sala em frações de segundo, elegante, seguro e perigosamente calmo. Meu peito se contraiu. Aquele dia estava cheio de surpresas. Mais uma vez, nada saía como eu esperava. Ele se posicionou atrás do púlpito, de frente para todos. Antes de dizer qualquer palavra, seus olhos percorreram cada canto da sala, como se se certificasse de conhecer cada rosto ali ou talvez como se quisesse confirmar que tudo estava exatamente como havia sido planejado. Poucas palavras foram ditas, mas todas carregavam autoridade. Não houve brincadeiras nem sorrisos ensaiados. Ele foi direto ao ponto e começou a falar sobre o novo produto. Eu mal prestei atenção. A única coisa que conseguia notar era que, apesar de muitos naquela sala me observarem como se quisessem me devorar, ele sequer parecia ciente da minha existência. Em nenhum momento seus olhos se voltaram para mim. Como eu havia subestimado aquele homem. Não era à toa que ocupava aquela posição. Ele estava claramente preparado para tudo. Ainda assim, não me dei por vencida. Fiz um leve movimento na cadeira, sem tirar os olhos dele, e cruzei as pernas, permitindo que a fenda do vestido revelasse minha coxa na direção do palco. Eu precisava parecer interessada, mesmo não estando nem um pouco. Será que ele realmente não havia me notado? Ou era apenas fingimento? Estava na hora de descobrir. Ele encerrou a apresentação com tranquilidade, agradeceu a todos e desceu do palco. Mais uma vez, sem sequer lançar um olhar na minha direção. Senti uma pontada de revolta. Aquilo nunca havia acontecido comigo. A sedução sempre fora meu truque infalível. Nunca encontrei alguém imune a isso. Continuei sentada na cadeira, pensando no que fazer dali para frente.






