Mundo de ficçãoIniciar sessãoA primeira coisa que senti não foi o luxo. Foi o peso. Meus olhos pesavam como se tivessem sido selados com chumbo. Minha mente era uma estação de rádio fora de sintonia, captando apenas ruídos e flashes distorcidos de pessoas me perseguindo e risadas abafadas.
Virei o rosto para o lado e o meu coração simplesmente parou.
Havia um homem ali. A centímetros de mim. Ele estava deitado de lado, dormindo, a luz da rua iluminando o relevo dos músculos das costas e a curva de um ombro largo. Ele estava sem camisa. O calor que emanava daquela pele era real demais.
O pânico, que estava adormecido pela droga, despertou em um estalo. Merda, quem era ele? Só podia ser um dos veteranos que estava me perseguindo, é claro...
Não esperei. Levantei da cama em um silêncio desesperado, as pernas trançando enquanto eu corria em direção à porta da suíte. Segurei a maçaneta e puxei com força. Nada. Trancada. O desespero virou uma onda de calor que subiu pela minha nuca. Eles tinham me prendido ali.
Virei-me de volta para o quarto, os olhos buscando qualquer coisa que servisse de arma. Meus dedos agarraram um vaso de cristal pesado em cima do aparador.
— SEU LIXO! — Gritei, partindo para cima do homem na cama com o vaso erguido. — ME DEIXA IR EMBORA!
Ele deu um pulo, acordando no susto com o meu berro. No puro reflexo de quem tem treinamento, ele rolou para o lado no milésimo de segundo em que eu desci o golpe. O vaso não o atingiu, mas ele foi mais rápido: com um movimento seco, ele golpeou meu pulso, fazendo o cristal voar e se estraçalhar contra a parede.
Ele avançou para imobilizar meus braços, a voz rouca e cortante:
— Ei! Calma! O que você pensa que está...
Eu não deixei ele terminar. Com a mão direita que ainda estava livre, aproveitei a proximidade e desferi um tapa estalado no rosto dele.
O som do impacto foi mais alto que o do vaso quebrando. O rosto dele virou para o lado. O silêncio que se seguiu foi gélido. Ele virou o rosto devagar, a marca dos meus dedos subindo no rosto esculpido. Os olhos verdes, que antes estavam sonolentos, agora queimavam com uma fúria que me fez querer desaparecer.
— Você dorme na minha suíte, tenta me rachar a cabeça com um vaso e ainda me acerta um tapa? — a voz dele saiu baixa, vibrando de uma raiva contida. — Quem você pensa que é para agir assim comigo? Se você quer brincar de louca, eu não sou o cara certo. Agora, você baixa o tom e me dá um motivo muito bom para eu não chamar a segurança agora mesmo.
— O meu motivo é que eu não vou precisar de muito esforço para te denunciar por estupro — respondi, a voz trêmula, mas carregada de veneno. — É uma ótima forma de começar o dia, não acha?
Ele travou. Os olhos se estreitaram tanto que pareciam duas frestas de luz perigosa.
— Mas que porra você está falando? — ele rosnou, a perplexidade lutando com a fúria.
— Você está com aqueles filhos da puta, não é? — Avancei um passo, ignorando o fato de que ele era o dobro do meu tamanho. — Me trouxe para cá para quê, hein? Eu não sou idiota!
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um segundo como se estivesse contando até dez para não perder o controle. Quando os abriu, a tempestade ainda estava lá, mas ele parecia ter recomposto uma calma assustadora.
— Talvez você queira notar que está perfeitamente vestida, garota — ele disse, cada palavra saindo pausada, cortante. — Eu não encostei um dedo em você. Pelo contrário, eu te tirei do jardim quando você mal conseguia ficar de pé. E em troca, eu ganho um vaso quebrado e um tapa na cara no lugar de um "obrigado".
Fiquei estática. Meus dedos, que ainda estavam em posição de ataque, fraquejaram. Comecei a olhar para as minhas próprias mãos, para o meu vestido... ele estava no lugar. Amassado, mas intacto. A memória do jardim, do perfume de sândalo e da voz dele afastando os veteranos começou a emergir do nevoeiro.
Ele me soltou com um movimento brusco, como se meu toque o queimasse agora. Sem dizer mais nada, ele caminhou até o bar, pegou uma garrafa de whisky e serviu uma dose generosa. O som do gelo batendo no vidro foi o único ruído no quarto.
— Eu não pedi para você me trazer para cá! — Retruquei, o orgulho subindo para mascarar o medo.
Ele se inclinou para frente, apoiando o peso nos cotovelos. O movimento fez os músculos do abdômen se contraírem.
— Engraçado. Lá no jardim você implorou. Jogou a responsabilidade na minha conta. — Ele me estudou com um olhar frio. — Sabe o que eu acho? Aqueles caras no jardim falaram que você estava atrás de um peixe grande. Eu achei que era mentira deles, mas esse seu teatrinho de acordar batendo... talvez seja só parte do golpe para parecer difícil.
— O que você disse? — Senti o sangue ferver. — Você acha que eu planejei ser dopada para cair na sua cama? Você consegue se ouvir ou esse tanto de músculo já apertou o seu cérebro?
— O que eu acho é que você é boa demais em se defender para ser completamente inocente nessa história. E ainda não decidi se isso me impressiona ou me dá dor de cabeça.
— Não fode — rebati, já me virando. — Eu vou embora daqui.
— A porta está ali — ele disse, sem olhar para trás, apontando com o copo na direção da saída. — Pode ir, se quiser. Eu não vou te impedir.
Ele deu um gole demorado no uísque, os olhos voltados para a cidade acesa do outro lado da janela.
— Mas são três da manhã. O Rio de Janeiro é muito mais perigoso lá fora do que aqui dentro. E, se você quiser testar a sorte com os seus amiguinhos do jardim de novo, a escolha é sua.
Fiquei parada.
Meu corpo inteiro parecia pesado, lento, estranho. E, pior do que isso, eu sabia que ele estava certo.
Ele virou o rosto só o bastante para me olhar por cima do ombro.
— Então? — a voz saiu baixa, calma, quase cruel. — Vai embora... ou vai ficar?







