Mundo de ficçãoIniciar sessãoVirei as costas e saí. Mas assim que alcancei o hall dos elevadores, um clarão iluminou as janelas de vidro, seguido por um estrondo que pareceu sacudir o prédio inteiro. No mesmo instante, o céu desabou em uma tempestade violenta.
Parei, estática. O som da chuva batendo no vidro não era apenas barulho para mim, era um gatilho. Olhei para a rua lá fora, a escuridão engolindo tudo, e depois para a porta da suíte de onde eu tinha acabado de sair.
O Rio de Janeiro era perigoso para uma mulher sozinha às três da manhã, mas embaixo de um temporal daqueles... era impossível. Senti o pânico subindo pela garganta.
Engoli o orgulho, dei meia volta e bati na porta.
Arthur abriu quase imediatamente, com um sorriso de lado que dizia "eu sabia".
— Posso ajudar, Cinderela? — debochou.
— Ah, larga de ser babaca — empurrei o ombro dele e entrei, passando direto para o banheiro.
Precisei de um minuto encarando o espelho para me recompor. Tirei o vestido alugado com cuidado (se eu estragasse aquela seda, teria que vender um rim para pagar) e vesti o roupão de algodão egípcio que estava pendurado atrás da porta. Era imenso em mim, mas era confortável.
Quando voltei para o quarto, Arthur ainda estava com o copo de uísque, me medindo de cima a baixo.
— Sexy — ele comentou, a voz mais baixa.
— Não ache que isso é algum tipo de sedução — retruquei, cruzando os braços. — Eu só não posso estragar aquele vestido.
Um trovão gigantesco explodiu lá fora, e a luz do quarto simplesmente apagou. O grito saiu da minha garganta antes que eu pudesse conter. Corri para a cama no escuro total, mergulhando embaixo do edredom como se tivesse dez anos de idade.
Ouvi a risada dele, curta e profunda, vinda do escuro.
— Atira vasos em cabeças alheias, mas tem medo de escuro?
— Eu não posso nocautear o escuro — respondi, com a voz abafada pelas cobertas.
— A luz de emergência já vai entrar. Relaxa.
Segundos depois, uma iluminação fraca e amarelada se acendeu, deixando o quarto com sombras longas e um clima denso. Mais um trovão, mais um sobressalto meu. Arthur caminhou até mim e estendeu o copo de uísque.
— Bebe. Você está tremendo tanto que daqui a pouco vai desarticular os dentes.
Peguei o copo, sentindo o peso do cristal genuíno. Minhas mãos ainda batiam contra o vidro, então usei as duas para levá-lo à boca. Tomei um gole generoso, esperando algo doce como os licores baratos que eu já tinha provado, mas o que veio foi um soco. O uísque era forte, amadeirado e tinha um gosto de coisa antiga e cara.
Imediatamente, fiz uma careta, fechando os olhos enquanto sentia o líquido queimar um rastro de fogo da garganta até o estômago.
— Credo... isso tem gosto de fumaça — reclamei, a voz saindo raspada, enquanto colocava o copo na mesinha de cabeceira.
Arthur soltou uma risada baixa, observando minha reação com um divertimento que não tentou esconder.
— Agora, é melhor a gente dormir. O resto da madrugada vai ser longo.
Ele deu a volta e começou a se acomodar no sofá perto da janela, cruzando as pernas longas de um jeito que parecia desconfortável para um homem daquele tamanho.
— Não vai caber todo o seu ego nesse sofá — ironizei, embora meu coração estivesse disparado.
— Estou acostumado a lidar com coisas grandes. E sei muito bem como usá-las — ele devolveu, os olhos brilhando no escuro.
Revirei os olhos, mas quando outro relâmpago iluminou o quarto, o medo venceu o orgulho.
— Deita aqui... na cama. Por favor.
Arthur hesitou por um segundo, então se levantou e deslizou para o lado vago. O calor do corpo dele me deixando levemente mais calma.
— Qual o seu nome mesmo? A propósito.
— Zara. E o seu?
Ele me olhou surpreso, quase como se fosse um insulto eu não saber quem ele era. Típico daquele mundo.
— Arthur.
Ele não me deu um sobrenome. O que, normalmente, era típico de pessoas como ele. Apresentar a família quase antes de a si mesmo.
Então, minha curiosidade falou mais alto:
— Arthur do quê?
— Só... Arthur.
A chuva apertou, chicoteando o vidro. No reflexo, agarrei a mão dele com força. Ele não soltou. Em vez disso, começou a acariciar meu polegar, um gesto tão protetor que me desarmou por completo.
— Qual é a desse medo de chuva, Zara?
Respirei fundo, o cheiro do perfume dele me acalmando.
— Eu tinha dez anos. Uma enchente alagou tudo onde eu morava. Perdi tudo. Inclusive minha mãe. Ela morreu tentando salvar o pouco que a gente tinha.
— Sinto muito — ele disse, eu fiz um breve aceno com a cabeça, tentando não lidar com uma dor antiga. — E depois? Você não tinha mais família?
— Não é da sua conta — cortei, sentindo o nó na garganta.
— Tudo bem, tudo bem — ele cedeu, a voz suave. — Eu também não gosto de chuva.
— Você? Tem algum medo secreto?
— Só não gosto de não ser obedecido. Nem pelo tempo.
Soltei uma risadinha fraca.
— Você parece ser muito mandão.
— Eu faço isso para viver.
— Mandar?
— Mandar — ele repetiu, virando-se para mim. — E agora eu estou mandando você relaxar, ou vai acabar esmagando a minha mão.
Olhei para nossos dedos entrelaçados.
— E você é tão bom em mandar quanto é em fazer mulheres relaxarem?
O ar entre nós mudou. A diversão sumiu, dando lugar a uma eletricidade pura.
— Eu posso te mostrar, se você quiser.
Eu nunca tive o hábito de me entregar a desconhecidos. Na verdade, minha vida era um exercício constante de isolamento e a intimidade era um luxo que eu não podia pagar, pois exigiria baixar guardas que eu levei anos para construir. Mas ali, naquele quarto mergulhado em sombras e ecos de trovões, as engrenagens da minha resistência estavam falhando.
Era uma mistura perigosa de sensações que eu mal conseguia processar. Havia o medo, aquele trauma antigo da água subindo que ainda fazia meu peito apertar. Havia a adrenalina de ter acabado de escapar de um quase ataque no jardim. E havia o passado, sussurrando que eu sempre estive sozinha.
E havia o Arthur.
Ele estava ali, sólido e inabalável, agindo como uma âncora no meio da minha tempestade mental. Enquanto o mundo lá fora parecia querer me engolir, o calor do corpo dele e a pressão firme da sua mão eram as únicas coisas que me impediam de flutuar no mar da minha própria ansiedade.
O desejo não surgiu do nada. Ele brotou daquela necessidade desesperada de ser cuidada, de parar de lutar por apenas uma hora.
— Me mostra — desafiei em um sussurro.
Puxei-o pelo pescoço. Arthur não hesitou. Ele veio para cima de mim com a força da tempestade que rugia lá fora, mas seus beijos eram um incêndio controlado, projetado para queimar cada rastro de medo da minha pele.
Senti suas mãos firmes puxarem o nó do cordão que prendia o meu roupão, e o algodão pesado escorregou pelos meus ombros tão rápido quanto a minha sanidade.
Na manhã seguinte, acordei com o sol batendo forte no rosto. Tentei tatear o outro lado da cama, mas só encontrei lençóis frios.
Abri os olhos de sobressalto. O quarto estava vazio. Nem sinal do Arthur. Tudo bem. Tinha sido um caso de uma noite só, eu devia esperar por isso. Fazia o tipo dele.
Me vesti, tentei dar um jeito no cabelo e saí do quarto.
Ao chegar no saguão, caminhei em direção à recepção para fazer o check-out.
— A chave da suíte, por favor — o recepcionista pediu educadamente.
Entreguei o cartão magnético, pronta para dar o fora dali.
— Aqui está. Obrigada.
Eu já estava me afastando, a poucos passos da porta giratória que me levaria de volta para a rua, quando a voz dele me parou como um tiro.
— Senhorita, espere! — O homem analisava a tela do computador com uma expressão profissional implacável. — Ainda consta uma pendência no seu check-out.
Parei, sentindo um calafrio subir pela espinha.
— Pendência?
— Um consumo de serviço de quarto e frigobar no valor de mil seiscentos e quarenta reais. Como a senhorita pretende pagar?







