Mundo de ficçãoIniciar sessãoDominic Bellandi
Ivan Petrov já me esperava no escritório quando entrei.
Sentado diante da mesa, imóvel, postura reta, expressão vazia e frio o suficiente para comandar o setor mais podre da organização sem hesitar. O tráfico existia porque homens como Ivan conseguiam olhar para aquilo sem sentir absolutamente nada.
Fechei a porta atrás de mim enquanto Marco permanecia próximo à janela e Lucca ocupava o sofá de couro no canto da sala, ainda segurando uma xícara de café como se dependesse dela para sobreviver.
— Don — Ivan cumprimentou com um leve movimento de cabeça.
Caminhei até a mesa.
— O que te trouxe até a Sicília?
Sem perder tempo, ele colocou um envelope escuro sobre a madeira polida e o deslizou na minha direção.
— Pedido especial.
Abri o envelope e dentro havia algumas fotografias.
Uma garota de cabelos longos e ondulados, em um ruivo acobreado que chamava atenção sem esforço, e olhos claros demais para passarem despercebidos. Era bonita.
Mas não era isso que prendia atenção era a expressão fria e quase arrogante.
Como alguém acostumada a nunca ouvir “não”. Meus olhos desceram até o nome impresso logo abaixo da fotografia. Alina Montserrat. Ivan apoiou os braços na cadeira.— Cliente exigente.
Continuei encarando a foto.
— Perfil?
Ivan abriu outra página da pasta.
— Filha única. Herdeira do Grupo Montserrat. Família bilionária. Segurança privada constante. Circula entre Europa e Brasil acompanhando o pai em negociações internacionais.
Mantive a atenção na fotografia.
— Idade?
— Dezessete.
Minha mandíbula tensionou automaticamente, do sofá, Lucca abaixou lentamente a xícara.
— Dezessete? — Repetiu, claramente incomodado.
Mantive a atenção em Ivan.
— Então por que ela?
Ivan cruzou as mãos sobre o colo indiferente.
— O cliente viu a garota durante uma reunião empresarial no Brasil e ficou obcecado.
A palavra deixou um gosto ruim no ar. Obcecado.
— E fez o pedido especificamente dela — completou.
Voltei a atenção para a fotografia. Ela definitivamente não se encaixava no padrão habitual daqueles pedidos.
Normalmente nós escolhemos as garotas para entregar, e sempre mulheres sem influência, sem sobrenome importante. Aquelas que desapareceriam sem movimentar imprensa internacional ou governos.
Alina Montserrat era o completo oposto. Rica, visível, intocável e exatamente o tipo de problema que ninguém sensato aceitaria comprar.
— Valor? — Perguntei.
Ivan citou o número. Alto. Muito alto.
Mesmo assim, minha resposta veio imediata.— Não.
Ivan franziu levemente a testa.
— Não?
— Dobre.
Lucca soltou uma risada desacreditada.
— Porra, Dom…
— Segurança reforçada. Família poderosa. Alta exposição. O risco não vale esse valor ridículo.
Marco permaneceu quieto, analisando a situação como fazia sempre e Ivan analisou a situação antes de responder.
— Vou informar ao cliente.
Fechei a pasta, mas minha mão permaneceu sobre ela por alguns instantes.
— Há quanto tempo monitoram ela?
— Cinco dias.
— E?
— Segurança privada o tempo inteiro. Motoristas. Rotas variáveis. Pouca exposição pública.
— Ela costuma sair?
— Quase nunca sozinha. É reservada e discreta.
Aquilo combinava com a expressão da foto.
— E agora?
— Fez uma viagem internacional para Mônaco. Está acompanhando o pai em reuniões de negócios. A prima também foi com eles.
Minha mente começou a calcular possibilidades Mônaco era movimentada, luxuosa. lotada de milionários entrando e saindo o tempo inteiro. Sem dúvidas era mais fácil de se infiltrar e de sumir com alguém.
— A segurança continua reforçada?
— Sim.
— Continue monitorando.
— O cliente quer rapidez — Ivan alertou.
Minha voz saiu calma.
— Ele terá quando eu decidir.
Ivan levantou sem insistir e deixou o escritório.
Assim que a porta se fechou, Lucca soltou o ar pesadamente.— Isso tá errado.
— Desde quando você se importa?
— Desde que começaram a trazer meninas menores de idade e herdeiras bilionárias pro meio dessa merda.
Marco continuava sério, com os olhos fixos na fotografia sobre a mesa.
— Isso vai chamar atenção internacional… e pode recair diretamente na organização.
— Eu sei. Por isso dobrei o valor.
Ele soltou o ar devagar, apoiando uma das mãos na cadeira à frente da mesa.
— Então vamos torcer para o cliente não aceitar.
Cruzei os braços lentamente, recostando o corpo na cadeira. Marco raramente questionava minhas decisões daquela forma. Se estava insistindo, era porque enxergava exatamente o tamanho do problema.
E ele tinha razão.
Aquilo não era uma garota qualquer desaparecendo sem deixar rastros.
Era a única filha de um dos magnatas mais influentes do Brasil. Uma herdeira cercada por dinheiro, segurança e contatos suficientes para transformar um sequestro em notícia internacional em poucas horas.Lucca pegou a fotografia outra vez, analisando com mais atenção.
— Ela realmente tem cara de problema.
— Porque é — Marco respondeu antes de mim.
Meu irmão inclinou levemente a cabeça enquanto continuava encarando a foto.
— Mas que é bonita pra caralho… isso é.
Marco lançou um olhar irritado para ele.
— Você não estava revoltado com essa situação há dois minutos?
Lucca ergueu uma sobrancelha, completamente tranquilo.
— E continuo. Uma coisa não anula a outra.
Marco soltou um suspiro indignado. Peguei a fotografia das mãos do meu irmão antes que ele começasse outra provocação idiota.
Por alguns segundos, observei a imagem novamente, a menina realmente chamava atenção, não apenas pela aparência. Era o olhar. A garota parecia encarar a câmera como alguém acostumada a estar acima das pessoas ao redor.
Fechei a pasta lentamente.
— Vamos esperar.
Marco manteve o semblante fechado.
— E se o cliente aceitar?
— Então fazemos o nosso trabalho.
— Somos a La Corona Nera — continuei, firme. — Também temos nossa própria influência.
As palavras saíram diretas, mas senti o peso de cada uma delas. Porque aquela era a verdade, nosso mundo funcionava dessa forma. Dinheiro. Poder. Controle.
Mesmo quando o trabalho era podre; mesmo quando nenhum de nós realmente gostava daquela parte da organização. Ainda assim, continuávamos.
Homens como nós não tinham o luxo de escolher quais pecados carregar.
Marco desviou o olhar primeiro, claramente insatisfeito, mas sem argumentar mais. Lucca apenas terminou o café já frio antes de se levantar da poltrona.— Espero sinceramente que esse cliente desista.
— Clientes assim nunca desistem — Marco murmurou.
E nós três sabíamos disso. Afrouxei discretamente os punhos da camisa social antes de mudar o assunto.
— Aproveitando que estamos todos aqui… quero atualizações dos negócios na França e na Suíça.
Marco imediatamente assumiu o tom profissional.
— Os cassinos continuam operando normalmente. Mas tivemos movimentação suspeita em uma das empresas de fachada em Genebra.
Lucca passou a mão na nuca, agora completamente focado.
— Já mandei homens verificarem.
Assenti devagar enquanto caminhava até o bar do escritório. Negócios. Era melhor voltar a falar sobre dinheiro, rotas e poder.
👑👑👑
Il Palazzo della Corona Nero era o lugar mais movimentado da Sicília e nessa noite já pulsava completamente desperto.
Luzes douradas refletiam nos lustres de cristal enquanto o jazz baixo se misturava ao barulho constante das fichas deslizando pelas mesas. Dinheiro circulava ali como oxigênio.
Para quem via de fora, aquilo era apenas mais um império empresarial sofisticado italiano. Luxo. Poder. Exclusividade. O prédio inteiro funcionava como uma máquina dividida em camadas cuidadosamente construídas.
O Corona Club era a fachada social perfeita. Música baixa, luzes quentes, mulheres circulando entre políticos, empresários e homens ricos demais para ouvir “não” com frequência.
Entretenimento legalizado.
Nada explícito o suficiente para chamar atenção. Só o bastante para manter clientes importantes distraídos e satisfeitos sem envolver a parte suja. No andar acima, o ambiente mudava completamente.
O Corona Casino era puro excesso disfarçado de elegância.
Salões enormes, lustres dourados refletindo sobre mesas perfeitamente alinhadas e uma iluminação feita para deixar qualquer milionário confortável o suficiente para gastar e intimidado o bastante para não esquecer onde estava pisando.
A elite europeia circulava ali dentro movimentando fortunas como se dinheiro fosse só mais um detalhe da noite. Homens poderosos apostavam milhões enquanto bebiam whisky caro e fechavam acordos silenciosos entre uma rodada e outra.
Tudo parecia sofisticado demais para levantar suspeitas e era exatamente essa a intenção. Mais acima, o spa carregava um luxo ainda mais perigoso. Era um local tranquilo, coberto pelo cheiro de perfumes caros e mármore polido.
Políticos, empresários e aliados da organização passavam horas trancados nas salas privadas, longe de câmeras, jornalistas e curiosos. Alguns iam para relaxar, outros… para desaparecer discretamente por algumas horas do mundo real.
Mas era no subsolo Corona Black que a máscara caía.
O verdadeiro coração podre da organização funcionava ali embaixo. O “parquinho sujo”. Era assim que Lucca e Marco chamavam aquela área privada do império.Sem música elegante, sem fachada refinada e sem teatro corporativo.
Apenas liberdade sendo comprada. Passei pelo corredor principal enquanto algumas mulheres cruzavam o salão acompanhadas por funcionários da organização.Algumas já entendiam exatamente como aquele mundo funcionava.
Outras aprendiam rápido.Desci as escadas sem diminuir o passo.
— Quantas hoje?
Ivan já me esperava perto do acesso restrito, encostado na estrutura metálica com aquele jeito frio de sempre.
— Seis.
Minha mandíbula travou imediatamente.
— Idade?
— Todas maiores. Conferidas duas vezes.
— Perfis?
— Duas europeias, uma russa, uma espanhola e duas latino-americanas.
Assenti sem interromper o passo.
— E a Montserrat?
Ivan hesitou apenas o suficiente para me irritar.
— O cliente confirmou. Disse que não se importa com o valor. Quer apenas a “Barbie brasileira”.
A forma como ele disse aquilo fez minha mão se fechar em punho. Barbie.
Um apelido idiota para algo que, na prática, envolvia uma operação inteira prestes a entrar em ação.Desviei o olhar para o salão abaixo.
Homens conversavam em pequenos grupos.
Taças de bebida cara, sorrisos falsos e seguranças espalhados como sombras. Tudo funcionando exatamente como planejado.Meu subchefe e meu consigliere já estavam posicionados em uma mesa elevada, com visão direta do palco onde o leilão aconteceria. Um ponto estratégico.
Discreto o suficiente pra não chamar atenção, mas privilegiado o bastante pra enxergar qualquer movimentação fora do padrão.Ambos seguravam copos de uísque, com a postura relaxada de quem fingia tranquilidade enquanto observava tudo ao redor. O cigarro entre os dedos de Marco queimava devagar enquanto os olhos dele varriam o ambiente atentos a qualquer movimento errado.
Caminhei entre as mesas com Ivan logo atrás de mim.
Quando me aproximei, Marco foi o primeiro a levantar o olhar.— O cliente aceitou — falei diretamente, já retirando um cigarro do maço.
Acendi com calma, puxando a primeira tragada enquanto observava o palco lá embaixo.
Marco não demonstrou surpresa. Apenas expirou lentamente a fumaça, como se já esperasse aquilo.— Já era previsível — murmurou.
Lucca soltou uma risada curta, sem humor.
— Agora começa a parte divertida.
Dei um trago lento antes de responder:
— Divertida não é a palavra.
Ele inclinou o corpo pra frente, apoiando os antebraços na mesa.
— Vamos precisar de um plano muito bem fechado para isso não virar um inferno internacional.
Marco concordou em silêncio.
— Não é só o sequestro — completou ele. — É o depois.
Assenti, entendendo exatamente o que ele queria dizer.
O problema nunca era o ato. Era o rastro. Ivan finalmente se pronunciou ao meu lado.— Eles estão com a segurança reforçada.
— Ainda assim vai ter abertura — Lucca respondeu, já em modo operacional. — Sempre tem.
Ele não estava errado. Meu irmão se inclinou sobre a mesa, agora completamente focado.
— Então qual é o plano? Porque isso não vai ser uma operação de entrar e sair.
Passei o cigarro entre os dedos antes de responder, mantendo os olhos no movimento lá embaixo.
— Na verdade, é mais favorável do que parece.
Ele franziu o cenho.
— Explica.
— Ela está em Mônaco. E gente como ela não fica trancada o tempo todo. Mais cedo ou mais tarde, sai do circuito controlado da família.
Marco soltou uma leve expiração pelo nariz, já entendendo o raciocínio.
— Ambiente aberto… muita movimentação… pouca previsibilidade.
— Exatamente.
Lucca passou a mão pela nuca, calculando possibilidades.
— Ainda assim, Mônaco não é um lugar indiferente. Qualquer erro ali vira perseguição internacional em minutos.
— Por isso não haverá erro.
A fumaça do cigarro subia devagar entre nós enquanto o leilão continuava acontecendo lá embaixo, como se nada tivesse relação com o que estava sendo decidido acima.
Desviei o olhar pro meu subchefe.— Prepare os melhores soldados. Partida ainda hoje.
Ele não hesitou.
— Sim, fratello.
Marco já começava a organizar mentalmente os detalhes.
— Rotas de entrada e saída precisam ser separadas. Sem padrão repetido.
— Já pensei nisso — respondi.
Lucca recostou na cadeira, o copo de uísque girando lentamente na mão.
— Ivan vai com eles.
Olhei pra ele procurando qualquer objeção.
— Sim, Don — Ivan respondeu.
Assentiu uma última vez antes de se afastar.
Marco apagou o cigarro no cinzeiro com calma.— Então começamos hoje.
— Já começamos — corrigi, voltando a atenção pro palco.
Traguei o cigarro enquanto os primeiros lotes da noite começavam a ser anunciados.
Cada pessoa ali tinha um preço. Um nome que deixava de importar no instante em que o martelo batia. Era assim que o mundo funcionava naquele subsolo luxuoso. Dinheiro mascarando podridão.Marco cruzou os braços.
— Se algo sair do controle, não vamos ter segunda chance.
— Não vai sair — respondi, firme.
Mas enquanto a fumaça subia devagar e o leilão seguia acontecendo abaixo de nós, uma parte da minha mente já não estava mais nos números ou na operação. Estava naquela garota.
E na forma absurda como um nome estrangeiro tinha começado a ocupar espaço demais dentro da minha cabeça.







