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CAPÍTULO 01 - Dominic Bellandi - O PESO DA COROA

Dominic Bellandi

Milão despertava devagar sob um céu cinza e pesado.

Lá embaixo, a cidade começava a ganhar vida entre buzinas distantes, carros escuros e pessoas correndo atrás de rotinas que, há muitos anos, deixaram de fazer sentido para mim.

Do alto da cobertura, observei o movimento em silêncio enquanto segurava uma xícara de café ainda quente. O reflexo no vidro devolvia parte da minha imagem.

Terno escuro, postura rígida e a barba começando a perder o alinhamento impecável que eu costumava manter.

Precisava apará-la ainda hoje, passei os dedos pela mandíbula por um instante antes de voltar a atenção para a cidade. Milão era diferente da Sicília, mais moderna, mais fria e igualmente funcional.

A Sicília carregava as raízes da família Bellandi, o peso do sobrenome, nossas tradições e o sangue derramado por aliados e inimigos ao longo de gerações. Milão, por outro lado, havia expandido meu império nos últimos dois anos.

Tudo o que sustentava a organização passava, de alguma forma, por aquela cidade.

E tudo passava primeiro pelas minhas mãos.

Atrás de mim, a porta da cobertura se abriu sem qualquer cerimônia.

— Buongiorno, Don.

A voz rouca arrancou minha atenção da paisagem além da janela.

— Buongiorno, Marco.

Marco Bellini fazia parte da minha vida muito antes de eu assumir a liderança da La Corona Nera.

Filho de um dos aliados mais antigos da organização, cresceu ao meu lado em meio a reuniões, armas escondidas sobre mesas de jantar e homens perigosos demais para conviver com crianças.

De alguma forma, em algum ponto daqueles anos, deixou de ser apenas o filho de um aliado e virou família.

Levei a xícara aos lábios, tomando um gole do café antes de voltar minha atenção para ele.

— Onde está Lucca?

Marco se aproximou sem pressa.

— Largado no sofá.

Soltei um suspiro curto.

— Bêbado, suponho.

— Tecnicamente… sim.

Aquilo me fez encará-lo de lado. Marco claramente estava segurando o riso.

— O stronzo passou a madrugada inteira na boate — completou.

Um sorriso discreto puxou o canto da minha boca. Lucca tinha vinte e oito anos, uma arma na cintura e maturidade emocional de um adolescente sempre que álcool e mulheres entravam na equação.

Meu irmão era eficiente, violento quando precisava, provavelmente o mais insano da família Bellandi e leal até a morte.

Mas disciplinado? Nem fodendo.

— Estou começando a achar que preciso arrumar um casamento pro meu subchefe — comentei, voltando a observar a cidade pela janela.

Marco soltou uma risada baixa.

— Antes disso, talvez você precise casar primeiro.

Ignorei a provocação.

— O conselho voltou a tocar no assunto — ele continuou. — Querem uma primeira-dama pra La Corona Nera.

— Aqueles velhos realmente acreditam que eu preciso de uma esposa para manter respeito dentro da organização?

— Eles acreditam que uma família forte mantém estabilidade.

— Eu já sou a estabilidade.

Desde que assumi a organização no lugar do meu pai, os lucros triplicaram. Expandimos operações pela Suíça, França e Europa Oriental sem chamar atenção da polícia internacional.

Nenhuma guerra interna aconteceu sob meu comando. Liderança nunca foi a questão.

A tradição, sim.

Os mais velhos continuavam presos à velha mentalidade siciliana de que um homem poderoso precisava de uma esposa ao lado, de preferência bonita, submissa e com uma linhagem respeitável.

Como se um sobrenome fosse me tornar mais perigoso.

— Você sabe como eles pensam. — Marco apoiou uma das mãos no balcão da cozinha.

— Sei. E continuo não me importando.

Casamento nunca esteve nos meus planos.

Relacionamentos criavam vulnerabilidades, expectativas desnecessárias e complicações que eu preferia manter longe da minha vida.

Eu tinha visto isso acontecer com homens muito mais inteligentes do que eu, meu pai foi uma das raras exceções e não porque amava menos minha mãe. Muito pelo contrário.

Ele sobreviveu porque ela sempre entendeu exatamente qual era o lugar dela dentro daquele mundo. Flora Bellandi nunca interferiu nos negócios, mas também jamais fingiu não enxergar a verdade. Ela sabia quem nós éramos e o que fazíamos.

Cresceu cercada pelas regras daquela vida e aprendeu desde cedo a conviver com elas.

Deixei a xícara vazia sobre a bancada de mármore e afrouxei discretamente os punhos da camisa social.

— Ivan mandou notícias? — Perguntei, notando que o semblante de Marco ficou mais sério.

— A nova rota pela França está funcionando.

— E o carregamento?

— Sem problemas.

Tráfico humano era o negócio mais lucrativo da organização e o único que eu genuinamente detestava. Armas faziam sentido. Dinheiro fazia sentido. Poder fazia sentido. Mas mulheres sendo vendidas como mercadoria… aquilo sempre deixou um gosto amargo.

Ainda assim, eu permitia. Porque impérios não se sustentavam com moral.

A porta da cozinha se abriu bruscamente segundos depois.

— Estão falando de mim de novo, não estão?

Lucca apareceu usando uma camiseta preta amassada e óculos escuros, claramente tentando esconder a ressaca.

— Você parece um cadáver.

— E você parece um velho corporativo.

Marco abafou uma risada e Lucca abriu a geladeira sem qualquer cerimônia.

— Preciso de café.

— Precisa de vergonha — retruquei.

Enquanto Lucca resmungava sobre a luz da manhã e vasculhava a cozinha em busca de alguma coisa para comer, voltei minha atenção para a cidade além do vidro.

                                                                      👑👑👑

Quando finalmente voltamos para a sede da La Corona Nera, o sol já começava a desaparecer atrás das colinas da Sicília. Diferente de Milão, onde tudo era moderno, frio e empresarial, a mansão Bellandi carregava história. Poder antigo, tradição e sangue.

Os muros altos de pedra escura cercavam a propriedade como uma fortaleza particular, afastada o suficiente da cidade para garantir privacidade absoluta. Era ali que decisões importantes aconteciam, onde alianças eram construídas e inimigos desapareciam.

Atravessamos a entrada principal e antes mesmo de alcançarmos a sala de jantar, o cheiro forte de café italiano tomou o ambiente. Aquilo arrancou um suspiro discreto do meu irmão.

— Finalmente algo que pode me trazer de volta à vida — ele murmurou.

— Nem um milagre resolve sua cara hoje.

Lucca resmungou alguma ofensa em italiano baixo demais para que eu me importasse em entender. Assim que entramos na sala principal, minha mãe foi a primeira a se levantar.

— Ciao, figli miei.

Flora mantinha a mesma elegância de sempre. Vestido escuro, postura impecável e aquele olhar atento que parecia enxergar muito mais do que demonstrava.

Ela se aproximou de mim primeiro, segurando meu rosto por um breve instante antes de beijar minha bochecha.

Depois encarou Lucca e suspirou.

— Dio mio… você está horrível.

Lucca puxou uma cadeira lentamente.

— Também senti sua falta, mamma.

Na cabeceira da mesa, meu pai permanecia tranquilo atrás do jornal italiano, completamente indiferente à ressaca de Lucca.

Domenico Bellandi carregava uma presença menos agressiva. Mais igualmente mortal.

Mesmo aposentado, ninguém naquela organização tomava uma decisão importante sem considerar a opinião dele.

— Sofia? — Perguntei enquanto servia café.

Minha mãe voltou a sentar-se.

— Está na aula de dança.

Sofia conseguia passar a manhã estudando lavagem de dinheiro e à tarde frequentar aulas elegantes como qualquer mulher rica da Itália.

Se alguém olhasse nossa família de fora, provavelmente enxergaria apenas milionários tradicionais. Ninguém imaginaria o que realmente sustentava aquela fortuna.

Peguei um cornetto ainda quente da bandeja no centro da mesa e dei a primeira mordida, sentindo finalmente o gosto de comida decente depois de dias em reuniões e hotéis.

Foi exatamente nesse momento que Marco Bellini entrou na sala.

— Ivan apareceu.

Meu olhar encontrou o dele imediatamente.

— O que ele quer?

— Disse que recebeu uma encomenda grande. Está esperando uma reunião.

Lucca soltou um resmungo cansado do outro lado da mesa.

— Lá vem problema.

Ivan Petrov nunca aparecia pessoalmente sem motivo.

Limpei os dedos com o guardanapo e me levantei da cadeira.

— Certo. Mande ele me encontrar no escritório.

Marco assentiu e pela expressão dele aquilo não era apenas mais um trabalho comum.

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