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Capítulo 03 - Herdeira do Império - Alina Montserrat

Alina Montserrat

A sala de reuniões tinha uma vista aberta para o porto de Mônaco.

Se eu não tivesse herdado o hábito metódico do meu pai, provavelmente teria me distraído facilmente.

Lá fora, os iates cortavam a água azul com uma calma quase irreal, contrastando com o céu limpo e luminoso. Tudo parecia distante demais para ser real.

O vidro separava dois mundos distintos: de um lado, a paisagem quase cinematográfica; do outro, homens em ternos impecáveis, vozes baixas e decisões que moviam cifras que a maioria das pessoas nem imaginava existir.

Era nesse tipo de ambiente que eu funcionava melhor.

Sentada à direita do meu pai, mantinha a postura firme enquanto acompanhava cada detalhe da reunião. Estava usando um terno social cinza, discreto o suficiente para não chamar atenção e sofisticado o bastante para não parecer deslocada.

Augusto sempre dizia que presença não era sobre ser notado, mas sobre ser levado a sério e o simples fato de ser uma mulher mais nova, tudo em mim precisava transmitir confiança e poder.

Ao meu lado, Mavi mantinha um bloco de anotações aberto, acompanhando tudo com atenção e muito diferente de mim, ela tinha facilidade em transformar o que via em palavras. Cursava Direito.

Segundo meu pai, ela assumiria futuramente a área jurídica do grupo — ocupando o lugar que hoje pertence ao meu tio Enzo, um dos principais nomes da estrutura da família Montserrat e também nosso vice-presidente.

Nenhuma de nós estava ali por acaso, ambas estávamos sendo preparadas e cada uma ocupava um espaço definido dentro de um sistema que já existia antes mesmo de nascermos.

De alguma forma, aquilo nunca me pareceu estranho ou chegou a me sufocar, talvez porque eu nunca tenha conhecido outra realidade.

— Como os senhores já sabem — meu pai começou mantendo o tom controlado de sempre — o Grupo Montserrat está ampliando sua estrutura logística na Europa.

Os executivos à mesa concordaram imediatamente.

Augusto deslizou os dedos pelo tablet, e a tela atrás dele exibiu o projeto principal da reunião.

Um mapa do litoral entre França e Mônaco apareceu no painel.

— Nosso interesse é assumir a parte operacional e administrativa do terminal privado em Cap-d’Ail.

Analisei a projeção enquanto ele falava. Eu conhecia cada detalhe daquele projeto porque participei diretamente do levantamento estratégico nas últimas semanas.

Rotas marítimas, fluxo alfandegário, movimentação financeira, armazenamento de cargas sensíveis. Nada ali era improvisado.

Cap-d’Ail tinha uma localização quase perfeita.

Próximo de Mônaco, conectado às principais rotas do Mediterrâneo e distante o suficiente dos grandes portos comerciais para garantir discrição operacional. Exatamente o tipo de lugar que o Grupo Montserrat procurava.

Ao meu lado, Mavi mantinha a atenção nas apresentações enquanto organizava algumas observações jurídicas no tablet. Ela parecia animada.

— A proposta inclui integração direta com nossa divisão tecnológica na Suíça e no sul da França — meu pai continuou. — O objetivo é reduzir o tempo de transporte para cargas de alto valor e ampliar o controle de segurança internacional.

Um dos empresários franceses se debruçou ligeiramente sobre a mesa.

— Estamos falando de equipamentos tecnológicos?

— Entre outras áreas — Augusto respondeu. — Servidores privados, sistemas de inteligência artificial, equipamentos hospitalares e contratos ligados à segurança corporativa.

Os executivos trocaram olhares discretos. Dinheiro sempre chamava atenção mais rápido do que qualquer discurso sofisticado.

— E qual seria o investimento inicial da Montserrat? — Perguntou outro executivo.

Meu pai citou o valor com naturalidade, era uma quantia extremamente alta, mas absolutamente compatível com o tamanho da operação e ninguém naquela sala pareceu assustado com os números.

Apenas calculavam o quanto poderiam ganhar.

— E quem ficará responsável pela supervisão europeia? — O francês voltou a perguntar.

Foi então que meu pai voltou a atenção para mim.

— Minha filha participará diretamente da fase inicial do projeto.

Aquilo atraiu interesse imediato, vários olhares vieram na minha direção de forma quase automática, mantive a postura intacta e confiante.

— Alina já acompanha parte das decisões estratégicas do grupo e vai começar sua inserção na gestão internacional a partir dessa expansão.

Percebi claramente a surpresa de alguns deles, não pela minha presença, mas pela minha aparência, que denunciava o quanto eu era jovem.

Na visão deles, garotas de dezessete anos normalmente estavam preocupadas com festas, redes sociais ou faculdade. Não sentadas em reuniões milionárias discutindo logística internacional.

— Prazer — falei calmamente.

O executivo francês sustentou meu olhar antes de fazer um leve aceno com a cabeça e aquilo bastou para eu entender exatamente o que ele estava pensando.

Jovem demais. E, para piorar, mulher.

 

Na visão de muitos naquela mesa, meu sobrenome era o único motivo para eu estar ali. Talvez, em parte, eles tivessem razão. Só que eu pretendia provar que não precisava viver à sombra dele para conquistar meu lugar.

A reunião continuou pelos quarenta minutos seguintes entre ajustes contratuais, projeções financeiras e divisão operacional. Enquanto Mavi analisava cláusulas jurídicas e possíveis riscos legais, eu me concentrava nas rotas estratégicas e na expansão futura para integração com a Suíça.

Tudo seguia exatamente como planejado.

Ao final, os contratos preliminares começaram a ser alinhados, e os executivos finalmente se levantaram. Meu pai apertou algumas mãos antes de encerrar.

— Ficamos no aguardo da minuta final.

— Será enviada ainda hoje — respondeu um dos franceses.

Deixamos a sala logo depois e assim que as portas se fecharam atrás de nós, Mavi soltou um suspiro discreto.

— Ok… isso foi muito mais sério do que eu imaginava.

— Foi uma negociação normal.

Ela me encarou imediatamente.

— Você percebeu a reação deles quando o tio Augusto falou seu nome?

— Percebi.

— E não vai comentar?

— Não vejo motivo.

Mavi soltou uma pequena risada, balançando a cabeça.

— Às vezes eu esqueço que você simplesmente não fica nervosa.

Meu pai seguia ao nosso lado com a tranquilidade habitual, ajustando o relógio no pulso antes de olhar para nós duas.

— Vocês foram muito bem.

— Tivemos bons mentores.

Pisquei de forma breve e arranquei um sorriso verdadeiro dele.

No instante seguinte, Augusto passou o braço pelos meus ombros, me puxou para perto e fez o mesmo com Mavi, trazendo nós duas para um abraço rápido no meio do corredor. Um gesto simples. Mas raro o suficiente para significar muito.

— Tenho orgulho de vocês — disse em voz baixa.

Mavi sorriu imediatamente, abraçando ele de volta com mais força, eu apenas fechei os olhos e fiquei aproveitando o meu lugar favorito no mundo.

Almoçamos em um restaurante sofisticado próximo ao porto, as mesas externas tinham vista direta para os iates ancorados. Mavi falava sem parar, como sempre, comentando sobre absolutamente tudo ao nosso redor enquanto eu admirava a cidade com atenção quase obsessiva.

Mônaco era fascinante, carros luxuosos cruzavam as ruas como algo comum, turistas fotografavam cada esquina como se estivessem dentro de um filme e executivos caminhavam apressados com celulares presos ao ouvido, parecendo acreditar que perder dois minutos admirando a paisagem poderia lhes custar milhões. Era curioso.

Mesmo em um lugar paradisíaco, algumas pessoas ainda pareciam incapazes de simplesmente parar e viver o momento.

Depois do almoço, voltamos para o hotel, assim que entramos no lobby, o celular do meu pai tocou. Ele atendeu imediatamente, mas bastaram poucos segundos para eu notar a mudança sutil em sua expressão.

— Entendo… sim… isso pode ser interessante.

Augusto se afastou alguns passos enquanto continuava ouvindo a ligação e Mavi fez uma careta dramática na minha direção.

— Outra negociação.

— Provavelmente.

Ela suspirou frustrada.

— Acho que seu pai nasceu assinando contratos.

Minutos depois, ele voltou guardando o celular no bolso do paletó.

— Uma empresa de Nova York quer discutir uma parceria estratégica.

— Agora? — Mavi perguntou, indignada.

— Sim. E infelizmente não posso adiar.

O olhar dele encontrou o meu logo em seguida.

— Vocês duas podem aproveitar a cidade. Os seguranças vão acompanhar vocês o tempo todo.

Quase perguntei se podia ficar com ele, o pedido chegou até a ponta da língua, mas parei antes de falar. Eu tinha dezessete anos, não sete. Ainda assim, acompanhei ele com os olhos por tempo demais enquanto ajustava o relógio no pulso.

Eu gostava daqueles momentos com meu pai, principalmente porque sabia o quanto eram raros e Augusto percebeu. Aproximou-se, tocando meu ombro antes de me puxar para um abraço.

— Minha menina… não faz essa cara — murmurou contra meus cabelos antes de beijar minha testa. — Ainda teremos tempo para aproveitar essas férias juntos, hm?

O aperto no meu peito suavizou um pouco.

— Ok, papis — respondi baixo, me aconchegando um pouco mais nele.

O perfume amadeirado que ele usava há anos continuava exatamente o mesmo desde a minha infância. Ele nunca mudou, pois sabia que era o meu favorito.

— Que fofos vocês dois — Mavi comentou, cruzando os braços enquanto fazia expressão de sofrimento. — Mas agora vamos resolver uma coisa urgente.

Meu pai arqueou uma sobrancelha.

— O quê?

— Vamos subir e trocar essas roupas antes que continuem confundindo a gente com jovens executivas bilionárias.

Eu e Augusto acabamos rindo ao mesmo tempo.

— Nós somos exatamente isso, Mavi — respondi.

Ela apontou o dedo na minha direção.

— Hoje não. Hoje seremos duas patricinhas ricas aproveitando Mônaco.

— Tem razão — concordei. — Talvez seja bom fingir que sabemos nos divertir.

Meu pai balançou a cabeça, claramente divertido.

Me aproximei dele mais uma vez para deixar um beijo rápido em seu rosto antes de subir com Mavi para os quartos. E, por alguns minutos, tudo realmente parecia apenas férias.

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