Mundo de ficçãoIniciar sessãoRenata
Duas semanas. Foi esse o tempo que meu corpo levou para começar a me denunciar. No início, tentei fingir que era cansaço. Trabalho acumulado, pressão na empresa, noites mal dormidas, Erick Monteiro atravessando meus pensamentos como uma sombra que eu não conseguia expulsar. Eu culpava o estresse, o café forte, a ansiedade. Culpava qualquer coisa, menos a possibilidade que crescia devagar dentro da minha cabeça. Mas naquela manhã, quando o cheiro do perfume de uma funcionária no elevador me fez levar a mão à boca e sair correndo antes que as portas fechassem, eu soube. Alguma coisa estava errada. Entrei no banheiro da empresa com o coração batendo tão forte que parecia querer quebrar minhas costelas. Me apoiei na pia, respirei fundo, molhei a nuca e encarei meu reflexo no espelho. Eu estava pálida. Não era só medo. Era pressentimento. — Não, Renata… — sussurrei para mim mesma, como se negar em voz baixa pudesse impedir a realidade. Na hora do almoço, inventei uma desculpa e saí da empresa. A farmácia ficava a duas ruas dali, mas o caminho pareceu longo demais. Cada passo carregava uma pergunta. Cada carro passando, cada buzina, cada pessoa na calçada parecia distante, como se o mundo tivesse seguido normal enquanto o meu começava a desabar. Comprei dois testes. A atendente colocou a sacola no balcão sem me olhar muito, mas mesmo assim senti meu rosto queimar. Como se todo mundo soubesse. Como se estivesse escrito na minha testa: “Ela cometeu um erro com o próprio chefe.” Voltei para casa tremendo. Meu apartamento pequeno parecia apertado demais quando fechei a porta. Joguei a bolsa no sofá, tranquei tudo, como se alguém pudesse invadir aquele momento. Como se Erick pudesse aparecer de repente, frio, imenso, bonito demais, cruel demais, exigindo explicações que eu ainda nem tinha coragem de dar. No banheiro, li as instruções três vezes. Minhas mãos estavam geladas, os dedos quase não obedeciam. Fiz o teste e coloquei sobre a pia, virando de costas. Cinco minutos. Nunca cinco minutos pareceram uma sentença tão longa. Andei de um lado para o outro. Mordi a unha. Rezei sem saber para quem. Lembrei da noite no apartamento dele, das luzes da cidade, da voz rouca dizendo meu nome, do modo como ele me olhava como se eu fosse a única coisa real no mundo. Depois lembrei da manhã seguinte. “No escritório, nada muda.” A frase dele voltou como uma lâmina. Nada muda. Mas tudo tinha mudado. Quando o tempo acabou, eu me virei devagar. Meu corpo inteiro ficou imóvel antes mesmo da minha mente entender. Duas linhas vermelhas. Uma parte de mim morreu ali. Outra nasceu. Levei a mão à barriga, ainda lisa, ainda silenciosa, e um soluço escapou da minha garganta. Não era tristeza pura. Era medo. Pânico. Uma ternura absurda misturada com desespero. Havia uma vida ali. Pequena demais para ser sentida, grande demais para ser ignorada. — Meu Deus… — murmurei, escorregando até o chão frio. Chorei abraçada aos joelhos, sem saber se estava chorando por mim, pelo bebê ou pelo homem que provavelmente destruiria os dois com uma única palavra. Erick não era o tipo de homem que recebia surpresas bem. Ele controlava tudo: horários, reuniões, contratos, pessoas. E eu? Eu tinha me tornado a variável impossível. A secretária grávida. O escândalo. A rachadura na imagem perfeita do chefe de gelo. Meu celular vibrou no chão. O nome dele iluminou a tela. Erick Monteiro. Meu coração parou. A ligação tocou até cair. Logo depois, veio uma mensagem. “Você saiu sem autorização. Volte para a empresa.” Olhei para a tela com os olhos ardendo. Tão Erick. Frio. Direto. Mandão. Como se eu fosse apenas uma peça fora do lugar. Apertei o celular nas mãos, sentindo a raiva nascer junto do medo. Parte de mim queria responder com tudo. Dizer que ele não fazia ideia do que tinha acontecido. Que a vida inteira estava prestes a mudar. Que, por culpa daquela noite, eu carregava algo que não cabia nos contratos dele. Mas não consegui. O medo era maior. E se ele dissesse que o filho não era dele? E se me acusasse de armadilha? E se mandasse eu desaparecer? Levantei com dificuldade e lavei o rosto. O espelho me devolveu uma mulher assustada, mas não quebrada. Ainda não. Coloquei os dois testes dentro da bolsa como quem escondia uma bomba. Troquei de roupa, prendi o cabelo e voltei para a empresa com as pernas bambas. Ao entrar no prédio, vi Erick no hall principal. Ele estava parado perto dos elevadores, terno escuro impecável, expressão dura, olhar fixo em mim. O tipo de homem que fazia o ambiente inteiro parecer menor. — Renata — ele chamou, a voz baixa e perigosa. — Minha sala. Agora. Engoli em seco. Minha mão apertou a bolsa contra o corpo. Lá dentro, as duas linhas vermelhas queimavam como segredo, como culpa, como destino. E eu soube, naquele instante, que contar a verdade para Erick Monteiro talvez fosse mais assustador do que descobrir a gravidez.






