Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 7 — Rafa Monti
Saio do carro com o coração ainda acelerado. Minha cabeça tá uma bagunça. — Caralho… — Vini fala ao meu lado, olhando na mesma direção que eu. Mas eu nem respondo. Porque eu já tô vendo. Ela. De pé. E isso, por si só, já me pega de surpresa. Eu achei que ela ia estar caída. Machucada. Pior. Mas não. Ela tá ali. De pé. Se organizando. Se recompondo. Como se nada tivesse acontecido. Ou como se… estivesse tentando fazer parecer que não aconteceu. Dou alguns passos na direção dela, ainda meio travado. Observando. Tentando entender. Mas, quanto mais eu chego perto… Mais uma coisa chama minha atenção. Ela. De verdade. O jeito. A postura. A forma como ela segura a pasta contra o corpo, mesmo com tudo molhado. Os papéis manchados de café. E o olhar… Focado. Triste. Aquilo me incomoda. Mais do que o acidente. — Tá tudo bem? — minha voz sai mais baixa do que o normal. Ela não olha pra mim de imediato. Só termina de ajeitar os papéis, passa a mão pelos cabelos… e então levanta o rosto. E é aí… Que eu travo. Por um segundo. Talvez dois. Porque… Ela é linda. Mas não é aquele tipo de beleza óbvia. Não é exagerada. Não é forçada. É… natural. Forte. Os cabelos escuros, quase pretos, caindo pelos ombros de um jeito leve… contrastando com a pele clara. O batom vermelho. Marcante. Chamando atenção na medida certa. Os olhos… Intensos. Profundos. Mas, naquele momento… cansados. Ela me encara. Direto. Sem medo. — Estou — responde, calma. — Foi só um susto. Susto. Solto um ar pelo nariz, ainda tentando processar. — Tem certeza? — insisto. — Eu posso te levar pro hospital. Ela balança a cabeça de leve. — Não precisa. A voz dela é suave. Mas firme. — Eu preciso ir trabalhar. Olho automaticamente pra pasta nas mãos dela. Molhada. Arruinada. — Isso aí… — aponto de leve. — Acho que vai ser difícil. Ela segue meu olhar. E, por um instante… Vejo algo ali. Frustração. Mas ela não desmorona. Não reclama. Só segura mais firme. — Eu resolvo. Respiro fundo. — Eu posso te levar — digo, sem pensar muito. — Pra onde você precisar. Ela me encara de novo. E, por algum motivo… Parece analisar cada palavra. Cada intenção. — Não precisa — repete. Sempre a mesma resposta. Sempre no controle. Balanço a cabeça de leve. — Pelo menos deixa eu— — Eu estou bem — ela corta, com educação… mas sem espaço pra insistência. Silêncio. Eu não sei o que dizer. E isso é raro. Muito raro. Ela ajeita o cachecol com cuidado, depois a bolsa no ombro, segurando a pasta com mais firmeza. Organizada. Mesmo depois de tudo. — Com licença — diz, dando um pequeno passo ao lado. E simplesmente… Vai. Assim. Sem olhar pra trás. Fico parado por um segundo. Dois. Três. Observando. Ela começa a caminhar pela calçada. Passos firmes. Elegantes. O salto marcando presença em cada movimento. O corpo alinhado. Seguro. O jeito como ela anda… Natural. Sem esforço. Mas chama atenção. Chama muito. — Caralho… — Vini fala baixo ao meu lado. — Tu viu isso? Não respondo. Porque eu ainda tô olhando. Ela se afasta. Mas não perde presença. O movimento do corpo. O balanço sutil do quadril. Nada exagerado. Nada forçado. Só… dela. E isso é o que mais chama atenção. A naturalidade. O controle. A diferença. Ela não é como as outras. E isso fica óbvio em segundos. Passo a mão no queixo, ainda acompanhando com o olhar até ela virar a esquina. Sumir. Desaparecer. — Tu atropela a mina… e ainda fica olhando assim? — Vini ri de leve. — Cala a boca — respondo, automático. Mas minha cabeça… Não tá mais ali. Não no acidente. Não no treino. Não na Taís. Tá nela. Na forma como ela não precisou de nada. Na forma como ela simplesmente… Seguiu. Entro no carro de novo, batendo a porta com mais força do que devia. — E aí? — Vini pergunta, ainda com um sorriso de canto. — Vai atrás? Seguro o volante. Fico em silêncio por alguns segundos. Depois… Dou partida. — Não. Mas, no fundo… Eu sei. Aquilo não acabou ali.






