Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 3 — Eliza Vasconcelos
O vapor ainda preenchia o banheiro quando eu desliguei o chuveiro. Passei a toalha pelo corpo devagar, sentindo o calor da água ainda presente na pele, enquanto meus pensamentos começavam a se organizar para o dia que estava só começando. Hoje não era um dia comum. E, por mais que eu tentasse tratar como qualquer outro… eu sabia. Alguma coisa estava diferente. Caminhei até o espelho, limpando levemente o vidro embaçado com a palma da mão. Meu reflexo apareceu aos poucos. Olhos atentos. Postura firme. Respirei fundo. Controle. Era isso que eu precisava manter. Comecei a me arrumar com calma, como sempre fazia. Não era apenas sobre aparência… era sobre como eu me sentia. Abri o guarda-roupa e passei os olhos pelas peças organizadas. Elegância sempre foi algo importante pra mim. Não por status. Mas por escolha. Hoje, optei por uma calça pantalona preta, que caía perfeitamente no meu corpo, valorizando a cintura e alongando minha silhueta. Combinei com uma segunda pele branca, ajustada, delicada, criando um contraste sutil. Peguei meu cachecol preto, com pequenos detalhes discretos que davam um charme a mais, e o envolvi no pescoço com cuidado. O frio de Madri pedia isso. E eu gostava. Gostava da forma como o inverno trazia uma certa sofisticação natural. Me sentei na cama para calçar a bota. Cano curto. Salto alto. Elegante. Firme. Assim que me levantei, observei o resultado no espelho. A postura mudava. A presença também. Passei os dedos pelos cabelos, soltando levemente algumas mechas para que caíssem de forma natural pelos ombros. Depois, fui até a penteadeira. Minha maquiagem sempre foi algo simples… mas bem feita. Base leve. Pele bem acabada. Olhos definidos, sem exageros. E, por fim… O batom vermelho. Clássico. Forte. Confiante. Sorri de leve ao me encarar no espelho. Era como se, naquele momento, eu vestisse mais do que roupas. Eu vestia quem eu precisava ser lá fora. Peguei minha bolsa, conferindo rapidamente se estava tudo ali: celular, carteira, documentos, bloco de anotações. Depois, uma pasta — com materiais do trabalho — que segurei com uma das mãos. E, claro… Meu café. Nunca saio sem ele. Tranquei a porta do apartamento atrás de mim e segui pelo corredor, o som dos meus passos ecoando suavemente no silêncio do prédio. Assim que saí para a rua, o ar frio tocou meu rosto, fazendo com que eu puxasse levemente o cachecol para mais perto. Madri tinha esse charme. Mesmo no frio. Mesmo na correria. Comecei a caminhar. Meu trabalho ficava a apenas duas quadras dali, o que era perfeito. Eu ainda não tinha carro… mas, sinceramente, nunca senti falta. Eu gostava de andar. De observar. De sentir a cidade. As pessoas começavam a ocupar as ruas. Algumas apressadas. Outras distraídas. O som dos passos, dos carros ao longe, das conversas baixas… tudo se misturava de uma forma quase harmônica. Segurei melhor a pasta contra o corpo, enquanto a outra mão mantinha o café aquecendo meus dedos. Era estranho. Uma sensação diferente no peito. Como se algo estivesse prestes a acontecer. E, por mais que eu não soubesse o quê… Eu sentia. Passei em frente à cafeteria de mais cedo, trocando um sorriso rápido com a atendente que me reconheceu. Continuei andando. Passo firme. Postura ereta. Olhar atento. Eu não era mais a garota que chegou aqui perdida. Eu sabia onde estava. Sabia o que queria. E estava pronta. Ou pelo menos… Era o que eu acreditava. Diminuí o ritmo ao me aproximar do prédio do escritório. Grande. Moderno. Imponente. Respirei fundo. Mais um dia. Mais uma oportunidade. Mais um desafio. Ajustei levemente o cachecol, segurando a alça da bolsa com mais firmeza. Mas, por algum motivo… Eu não entrei. Fiquei ali. Por alguns segundos. Observando. Sentindo. Como se algo estivesse prestes a mudar. E, talvez… Estivesse mesmo






