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Capítulo 4 — Rafa Monti

O movimento já começa antes mesmo de eu entrar.

De longe, já dá pra ver.

Carros parados.

Gente aglomerada.

Câmera.

Microfone.

Flash.

Solto um suspiro, reduzindo a velocidade do carro enquanto me aproximo da entrada do centro de treinamento.

— Já começou cedo… — murmuro, mais pra mim mesmo.

Estaciono no lugar de sempre, desligo o motor e fico alguns segundos ali, parado, olhando pelo para-brisa.

Repórteres.

Fãs.

Gente chamando meu nome.

Gente que nem me conhece… mas acha que conhece.

Normal.

Faz parte.

Pego meus óculos escuros, coloco com calma e saio do carro.

— Rafa! Rafa! Aqui!

— Monti, só uma pergunta!

— Você vai jogar domingo?

— Olha pra cá!

Ignoro a maioria.

Sempre ignoro.

Mas não sou babaca também.

Dou um aceno rápido com a cabeça, levanto a mão de leve pros fãs mais próximos.

— Valeu, valeu…

Nada demais.

Só o suficiente.

Segurança abre caminho e eu sigo andando, sem parar.

Sem olhar muito.

Sem dar espaço.

Aprendi cedo que, se parar… já era.

Assim que entro no prédio, o barulho fica pra trás.

E, finalmente…

Respiro melhor.

— Até que enfim, né, estrela? — a voz vem carregada de deboche.

Viro o rosto na hora.

Vini.

Encostado na parede, com aquele sorriso de quem já tava esperando pra encher o saco.

— Fala, moleque — respondo, dando um toque de mão nele.

— Demorou hoje, hein.

— Tua cara — retruco, já andando.

Ele ri, vindo atrás.

— Tá cheio lá fora?

— Como sempre.

— Famoso sofre — ele fala, colocando a mão no peito, fingindo dor.

— Vai se ferrar.

Entramos no vestiário, e o clima já é outro.

Resenha.

Música baixa tocando.

Gente trocando roupa.

Rindo.

Zoando.

É ali que tudo fica leve.

— Olha quem apareceu! — um dos caras fala alto. — O homem tá vivo!

— Pensei que tinha sumido com alguma modelo por aí — outro completa.

Dou uma risada de canto.

— Inveja é foda, né?

— Inveja nada, irmão — Vini já se mete. — A gente só queria essa vida difícil aí.

— Difícil é aguentar vocês — retruco, já pegando minha chuteira.

— Ih, tá estressado… briga com a loira? — alguém solta.

Reviro os olhos.

— Vocês não têm outro assunto, não?

— Não — Vini responde na hora. — Mulher e futebol, só isso que importa.

— E comida — outro completa.

— Verdade — ele aponta. — Sem comida a gente nem corre.

Risadas.

Sempre assim.

Troco de roupa rápido, vestindo o uniforme de treino, enquanto a conversa continua.

— E aí, Monti… aquela lá ainda tá contigo? — um pergunta, curioso.

— Qual delas? — outro já corta, arrancando mais risada.

Balanço a cabeça, pegando minha garrafa de água.

— Vocês são ridículos.

— Fala sério, pô — Vini encosta do meu lado. — A loira… tá firme ainda?

Dou de ombros.

— Tá.

— Tá nada — ele ri. — Essa tua cara aí não engana ninguém.

Olho pra ele de lado.

— Cuida da tua vida, irmão.

— Eu cuido — ele levanta as mãos. — Só tô preocupado contigo.

— Sei…

Saímos juntos pro campo.

E aí…

É outra coisa.

Grama.

Bola.

Espaço.

Liberdade.

— Bora, rapaziada! — o preparador grita.

Começa leve.

Aquecimento.

Corrida.

Alongamento.

Mas não demora muito pra virar bagunça.

— Ei! — alguém grita quando leva um empurrão. — Tá achando que é jogo?

— Aqui é treino, irmão! — outro responde, já rindo.

A bola começa a rolar.

Toque rápido.

Drible.

Riso.

— Passa, pô! — Vini grita.

— Te vira! — respondo, puxando a bola e passando por dois.

— Olha o cara… quer humilhar!

Dou um corte seco, bato pro gol.

— Golaço! — alguém grita.

— Claro, né — abro os braços. — Aprende.

— Marrento! — Vini vem rindo, me empurrando de leve.

— Fala menos e j**a mais.

— Ih, tá querendo competir?

— Sempre.

A gente se encara por um segundo.

Depois…

Começa.

Disputa.

Corrida.

Choque de corpo.

Riso no meio.

— Perdeu! — ele grita quando rouba a bola.

— Sonha — respondo, já recuperando.

O treino segue assim.

Leve.

Intenso.

Mas divertido.

Do jeito que tem que ser.

Porque, no fim das contas…

É isso que faz a gente continuar.

Entre uma pausa e outra, sentamos no gramado.

— E aí, Monti… — Vini fala, respirando fundo. — Tu vai naquele evento hoje?

Franzo a testa.

— Que evento?

— Da imprensa, pô.

— Nem sabia.

— Claro que não — ele ri. — Tu nunca presta atenção nessas coisas.

Passo a mão no cabelo, pegando a garrafa de água.

— Se tiver que ir… eu vou.

— Ih… — ele dá um sorriso malicioso. — Sempre aparece umas jornalistas boas nesses eventos.

Reviro os olhos.

— Tu só pensa nisso.

— E tu não?

— Não tenho tempo pra isso.

Ele me encara por um segundo… e depois ri.

— Mente mal pra caramba.

Balanço a cabeça, sem responder.

Mas, no fundo…

Eu sei.

Essas coisas sempre acabam dando problema.

Sempre.

E eu não tô com paciência pra mais um.

Mal sabia eu…

Que, dessa vez…

Ia ser diferente.

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