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Capítulo 2 — Rafa Monti

Acordo antes do despertador.

Sempre.

Meu corpo já se acostumou com isso. Anos de treino, disciplina, rotina… uma hora você nem precisa mais pensar, só faz.

Abro os olhos devagar, encarando o teto do quarto ainda escuro. Por alguns segundos, fico ali, em silêncio, apenas ouvindo a minha própria respiração.

Esse é o único momento do dia que é realmente meu.

Sem cobrança.

Sem mídia.

Sem ninguém.

Ou pelo menos… era pra ser.

Passo a mão pelo rosto, soltando um suspiro baixo antes de me levantar. Caminho até a janela e puxo levemente a cortina. A cidade ainda está acordando.

Barcelona.

Dois anos morando aqui.

Dois anos jogando em um dos maiores clubes da Europa.

Pressão constante.

Expectativa absurda.

E, ainda assim… é exatamente onde eu queria estar.

Eu não nasci pra vida comum.

Nunca nasci.

Viro de costas, indo direto para o banheiro. Ligo a água fria e jogo no rosto, tentando despertar de vez. Me encaro no espelho por alguns segundos.

Rafa Monti.

Nome que a mídia repete o tempo todo.

Nome que a torcida grita.

Nome que carrega responsabilidade.

Mas, ali… sou só eu.

Ou pelo menos tento ser.

Visto uma roupa de treino — bermuda, camiseta leve — e desço as escadas da casa. Minha intenção é simples: tomar meu café em paz e ir pro treino.

Simples.

Era pra ser.

Mas assim que piso na sala, já sei que não vai ser.

— Amiga, grava aqui! Essa luz tá perfeita!

— Meu Deus, olha essa casa!

— Gente, isso aqui é surreal!

Paro no último degrau, cerrando o maxilar.

Tá de sacanagem.

A sala está cheia.

Gente que eu nem conheço.

Mulher pra todo lado.

Celular levantado, câmera ligada, risada alta.

Filmando.

Mostrando.

Invadindo.

Minha casa.

Meu espaço.

Minha paz.

Passo a mão no rosto, já sentindo a irritação subir.

— Qual foi? — minha voz sai mais firme do que eu planejava.

Algumas olham.

Outras nem ligam.

Continuam como se eu fosse parte do cenário.

Inacreditável.

— Bom dia, amor! — a voz dela vem leve, animada.

Taís aparece no meio daquela bagunça toda, impecável como sempre. Cabelo loiro perfeitamente alinhado, roupa de marca, maquiagem leve… pronta pra qualquer câmera.

Porque sempre tem uma.

— Tu tá fazendo o quê? — pergunto, direto, sem paciência.

Ela se aproxima sorrindo, como se estivesse tudo normal.

— Só chamei umas amigas… relaxa.

Dou uma risada curta, sem humor.

— Relaxar com minha casa virando cenário de vídeo?

— Ai, Rafa… para com isso — ela revira os olhos. — É só conteúdo.

Conteúdo.

Minha casa virou conteúdo.

Minha rotina virou conteúdo.

Minha vida virou conteúdo.

Respiro fundo, tentando manter o controle.

Eu odeio isso.

Odeio gente invadindo meu espaço.

Lá fora, beleza.

Faz parte.

Mas aqui dentro…

Era pra ser diferente.

— Fala pra elas pararem de filmar — digo, mais baixo agora, mas firme.

Taís cruza os braços, me encarando.

— Você tá exagerando.

— Tô nada.

Ela se aproxima mais, abaixando o tom de voz.

— Rafa, isso é importante pra mim.

E aí…

É aí que complica.

Porque eu sei que é.

Sei o quanto ela vive disso.

A imagem.

Os seguidores.

A vida perfeita.

Solto o ar devagar, passando a mão na nuca.

— Tá… — digo, cedendo. — Mas maneirar, pô.

Ela sorri na hora, satisfeita.

— Viu? Não era difícil.

Não.

Difícil não é.

Só é irritante pra caramba.

Mas eu não falo.

Não vale a discussão.

Sigo direto pra cozinha, ignorando completamente o que está acontecendo na sala. Pego uma xícara, sirvo café e encosto no balcão.

Silêncio… só na minha cabeça.

Porque, do lado de fora, a bagunça continua.

Risadas.

Saltos no chão.

Gente falando alto.

Câmera clicando.

Levo o café aos lábios, tentando ignorar.

Tentando focar.

Treino.

Jogo.

Disciplina.

É isso que importa.

Sempre foi.

— Rafa! — Taís aparece na porta da cozinha.

Olho pra ela, já sem muita paciência.

— Que foi?

— Você tá muito sério hoje.

— Tô normal.

— Não tá não — ela se aproxima. — É só uma manhã com amigas.

— Na minha casa.

Ela suspira, cruzando os braços.

— Você sabe que eu moro aqui também.

Eu sei.

E é exatamente por isso que eu ainda tô tentando não explodir.

Fico em silêncio por alguns segundos.

Depois balanço a cabeça de leve.

— Vou treinar.

— Já? — ela faz um biquinho. — Fica mais um pouco.

Dou um meio sorriso, sem humor.

— Tu sabe que não dá.

Ela sabe.

Sempre soube.

Pego minha chave, já indo em direção à saída.

— Rafa — ela chama de novo.

Paro, olhando por cima do ombro.

— Te amo.

Fico em silêncio por um segundo.

Dois.

Três.

— Também — respondo, automático.

Não espero reação.

Saio.

O ar fresco da manhã b**e no meu rosto assim que atravesso o portão.

E, finalmente…

Paz.

Caminho até o carro, entrando e fechando a porta com força. Encosto a cabeça no banco por um segundo.

Só um.

Porque não posso parar.

Nunca posso.

Dou partida no carro e sigo em direção ao centro de treinamento.

É ali que tudo faz sentido.

Campo.

Bola.

Jogo.

Sem filtro.

Sem gente invadindo.

Sem mentira.

Só eu… e o que eu sei fazer.

E, no fim das contas…

É isso que importa.

Sempre foi.

Sempre vai ser.

Ou pelo menos…

É o que eu gosto de acreditar.

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