Mundo de ficçãoIniciar sessão
Dante
O sangue já estava seco na minha mão, mas mesmo assim passei o pano de novo.
Mais por costume do que por outra coisa.
O homem na cadeira ainda respirava, embora já fosse difícil dizer até quando. A cabeça caída, o corpo largado, como se já não estivesse mais ali por completo. Ainda assim, quando ouviu meus passos, tentou se mexer.
Segurei o rosto dele e levantei um pouco.
Me questiono ainda o quanto quero viver essa rotina infernal, rodeado de homens, afazeres regras. Sem nenhuma paz, felicidade.
Sem ela...
— Olha pra mim.
Demorou, mas conseguiu.
— Já deu, Dante — Matteo disse atrás de mim. — Ele não vai aguentar muito mais.
— Aguenta.
— Quem te mandou?
Nada.
Ele tentou abrir a boca. Por um segundo, achei que ia sair alguma coisa.
Mas não saiu.
Só ar.
— Eu resolvo — Matteo falou, vindo mais perto.
Olhei pra ele.
— Ainda não.
Ele sustentou um segundo… depois recuou.
Voltei pro homem.
Esperei.
Ele tentou de novo.
Nada.
— Já era.
Puxei a arma e atirei.
O tiro bateu no galpão e voltou seco.
— Podia ter feito isso antes — Matteo disse.
— Podia.
Continuei andando sem olhar pra trás.
Matteo veio junto, acendendo um cigarro.
— Perda de tempo do caralho. O cara não ia falar porra nenhuma.
— Eu precisava ter certeza.
— E aí? Tem?
— Tenho.
O cascalho estalava sob o sapato enquanto a gente seguia até o carro.
— Então fala logo — ele soltou a fumaça. — Quem?
— Ainda não sei.
Ele riu pelo nariz.
— Que beleza. A gente fode a noite inteira pra sair com “não sei”.
— Se fosse qualquer um, ele já tinha aberto a boca.
Matteo ficou em silêncio por um segundo.
— Então é alguém que mete medo de verdade.
Abri a porta do carro.
— Não é gente de fora.
— Puta que pariu…
Ele entrou e jogou a cabeça no banco.
— Falando em dor de cabeça… o conselho quer reunião. Esses velhotes não te darão um momento de paz, irmão, porra, você precisa superar!
Já sabia.
— Quando? — Pergunto ignorando o resto de sua sentença insignificante para mim.
— Amanhã cedo. Disseram que é urgente.
Soltei um riso baixo.
— Claro que é. Sempre essa porra.
— Já sabe o assunto — ele falou.
— Não tem outro assunto que interesse eles, você sabe.
Fiquei um segundo em silêncio antes de completar:
— A porra de uma esposa do caralho.
— Sempre o mesmo.
Passei a mão no rosto, já sem paciência só de imaginar a reunião.
Velhos querendo decidir minha vida. Escolher mulher. Falar de herdeiro como se fosse negócio.
Que se fodam.
Matteo soltou fumaça pela janela.
— Vai fazer o quê depois da reunião?
Liguei o carro.
— O de sempre.
Ele riu baixo.
— Aquela boate de novo?
Olhei pra frente enquanto o portão começava a abrir.
— Pelo menos lá eu consigo esquecer por algumas horas.







