POV Cristian

Eu acordo antes do sol porque o mundo não espera.

E porque ela também não.

O choro vem sempre alguns segundos antes do alarme, como se Bárbara tivesse desenvolvido um senso cruel de pontualidade. Não é um choro desesperado. É um aviso. Um som curto, decidido, que diz levanta agora ou eu vou piorar.

Abro os olhos, já cansado.

O relógio marca cinco e quarenta. Tenho uma reunião com investidores às sete, um voo às dez, um almoço diplomático ao meio-dia e um evento beneficente à noite. Nada fora do comum. O incomum é fazer tudo isso com uma criança de um ano dependendo exclusivamente de mim.

Levanto antes que o choro escale. Não porque me comova — embora isso também aconteça —, mas porque aprendi que ignorar pequenos problemas é o jeito mais rápido de transformar tudo em um desastre.

Bárbara está sentada no berço quando entro no quarto, os cabelos claros grudados na testa, os olhos grandes demais para um rosto tão pequeno. Quando me vê, estica os braços sem hesitar. Não chora mais. Nunca chora quando sou eu.

— Bom dia — murmuro, a voz ainda presa na garganta.

Pego-a no colo e sinto imediatamente. O peso errado. O calor suspeito.

Suspiro.

— Certo — digo, resignado. — Começamos cedo hoje.

Trocar fraldas se tornou uma habilidade estratégica. Não posso errar. Não posso demorar. Não posso subestimar nada. Já perdi duas camisas de alfaiataria italiana e um terno sob medida porque confiei demais em um “acho que ainda dá tempo”.

Não dá.

Coloco-a na cômoda, preparo tudo com precisão cirúrgica. Bárbara me observa com atenção excessiva, como se estivesse avaliando meu desempenho.

— Eu sei — digo. — Já entendi que você acha que faz melhor.

Ela ri. Ri alto. Uma gargalhada curta e satisfeita, como alguém que acabou de vencer uma disputa invisível.

Limpo, troco, descarto. Lavo as mãos duas vezes. Só então respiro.

Sou Cristian Montenegro.

E administro bilhões com menos tensão do que uma troca de fraldas mal calculada.

Enquanto preparo a comida dela — tudo orgânico, balanceado, feito por mim porque não confio em ninguém — reviso mentalmente os tópicos da reunião. Fusões. Projeções. Um relatório que subestima riscos e outro que exagera soluções.

Bárbara b**e a colher na bandeja da cadeirinha, impaciente.

— Um minuto — digo, sem saber para quem.

Levo-a comigo enquanto me visto. Ela observa meu reflexo no espelho enquanto ajusto a gravata com uma mão só. Já fiz isso tantas vezes que virou automático. A maioria dos homens aprende a se vestir para impressionar. Eu aprendi para sobreviver.

Às seis e quarenta, estamos no carro. Cadeira especial instalada por mim. Cinto revisado duas vezes. Segurança na frente e atrás, mantendo distância respeitosa. Não entrego minha filha a ninguém. Nem por cinco minutos.

O motorista me olha pelo retrovisor.

— Senhor Montenegro, o trânsito—

— Eu sei — corto. — Vamos pelo caminho alternativo.

Ele obedece sem discutir. Todos obedecem.

A reunião acontece numa sala envidraçada no trigésimo andar. Dez homens engravatados. Duas mulheres entediadas. PowerPoints demais. Nenhuma surpresa.

Bárbara fica sentada no meu colo durante toda a apresentação.

— Isso é… incomum — comenta um dos investidores, tentando sorrir.

— Ela não interfere nas decisões — respondo, seco. — Diferente de alguns aqui.

Silêncio. Seguimos.

Ela fica inquieta perto do final. Começa a se mexer, a puxar minha gravata. Tento distraí-la com o relógio. Erro clássico.

O cheiro chega antes do aviso.

Fezes. Vazamento total. Sem misericórdia.

— Senhor Montenegro, talvez possamos—

— Cinco minutos — digo, já me levantando.

Saio da sala com a dignidade possível enquanto sinto algo quente se espalhar pela lateral do meu terno. No banheiro, olho o estrago no espelho.

Impecável por fora. Arruinado por dentro.

Troco a fralda com uma mão, seguro o telefone com a outra, dando instruções enquanto lavo o tecido na pia como se isso fosse salvar alguma coisa.

Não salva.

Chego atrasado ao aeroporto. No jatinho, Bárbara dorme tranquila enquanto eu troco mensagens com três assessores diferentes. Um deles sugere — com extremo cuidado — que eu considere ajuda.

Ignoro.

No almoço diplomático, ela acorda no pior momento possível.

— Senhor Montenegro, gostaríamos de agradecer sua presença—

O som é inconfundível. Um arroto seguido de vômito. Leite, purê de legumes e algo que cheira a banana.

Diretamente no meu paletó.

O silêncio na mesa é absoluto.

— Pedi desculpas por mim — digo, levantando. — Ela ainda não fala.

No evento beneficente à noite, tudo parece sob controle. Bárbara está calma. Alimentada. Limpa. Eu começo a acreditar que talvez o universo tenha decidido aliviar.

Nunca confie nisso.

Ela resolve chorar. Alto. Estridente. Bem no meio do discurso do anfitrião.

As pessoas olham. Algumas com pena. Outras com julgamento. Todas esperando que eu faça algo.

Eu faço.

Saio com ela nos braços, andando pelo salão como se aquilo fosse parte do plano. Murmuro coisas que não fazem sentido. Funciona. Sempre funciona.

No carro, no caminho de volta, Bárbara dorme. Eu não.

Encosto a testa no vidro escuro e observo a cidade passando. Luxo, poder, influência. Tudo inútil diante de uma criança que depende exclusivamente de você.

Eu sabia que isso era insustentável.

Eu só não queria admitir.

Em casa, coloco Bárbara no berço. Fico ali alguns minutos a mais do que o necessário. Observando. Pensando.

Não confio em ninguém.

Mas também não posso continuar assim.

No escritório, já de madrugada, abro o tablet. Não acesso sites comuns. Não publico anúncios públicos. Isso atrai curiosos. Gente errada. Pessoas que falam demais.

Eu preciso de alguém específico.

Alguém fora do sistema.

Escrevo o anúncio com cuidado extremo. Cada palavra é um filtro. Nada de sentimentalismo. Nada de promessas. Apenas o essencial — e o suficiente para afastar quem não sabe ler nas entrelinhas.

Quando termino, releio.

Apago uma frase. Ajusto outra.

Assino digitalmente.

Cristian Montenegro.

Publico em um lugar que quase ninguém conhece.

Fecho o tablet.

No andar de cima, Bárbara se mexe no berço. O monitor permanece silencioso.

Pela primeira vez em meses, sinto algo parecido com… expectativa.

Não sei quem vai responder.

Só sei que, seja quem for, vai precisar ser excepcional.

Porque eu não entrego o que é meu a qualquer um.

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