Eu não uso nomes verdadeiros porque nomes criam rastros.
E tudo o que cria rastro pode ser seguido.
Já fui muitas mulheres. Algumas existiram só por três horas, outras por meses inteiros. Já tive passaportes que passaram por mais países do que muita gente sonha visitar. Já sorri em salas de conselho, em jantares diplomáticos, em suítes presidenciais. Já chorei com sotaque estrangeiro, já fingi amor com convicção suficiente para enganar homens que acreditavam ser imunes a qualquer tipo de manipulação.
Nunca fui.
A primeira regra é simples: ninguém sente falta de quem nunca existiu.
Enquanto o café esfriava sobre a mesa do meu apartamento temporário, observei meu reflexo no vidro da janela. A cidade lá fora ainda dormia, iluminada por postes cansados e promessas vazias. Era sempre nesse horário que eu pensava melhor — quando o mundo ainda não tinha começado a mentir para si mesmo.
Hoje eu era Rayana.
Ontem, fui outra.
Amanhã… bem, amanhã ainda estava em aberto.
Abri o notebook com o cuidado de quem manuseia uma arma. Não por paranoia, mas por respeito. A tela acendeu mostrando uma área de trabalho limpa demais. Nenhuma foto. Nenhum arquivo com nome pessoal. Tudo criptografado, organizado em pastas com títulos genéricos que só faziam sentido para mim.
Golpes pequenos nunca me interessaram.
Cartão clonado, chantagem barata, romance com aposentado rico? Isso é para amadores. Para gente desesperada. Para quem precisa correr.
Eu não corro.
Eu planejo.
Já derrubei um conglomerado de tecnologia fazendo o CEO acreditar que eu era uma consultora enviada pelo próprio conselho administrativo. Três meses infiltrada. Relatórios impecáveis. Sugestões “inofensivas”. Uma fusão mal calculada depois, bilhões evaporaram — e eu saí antes que alguém percebesse que a ideia não tinha vindo de lugar nenhum.
Já fiz um príncipe europeu — desses que nunca aparecem em revistas, mas controlam metade da economia de um país — transferir uma fortuna inteira para uma fundação que não existia. Tudo legal. Tudo documentado. Tudo assinado. O dinheiro sumiu sem que um único crime pudesse ser provado.
Meu favorito, no entanto, foi o golpe em Singapura.
Uma mulher não entra sozinha naquele tipo de jogo sem ser devorada. Então eu virei loba antes que tentassem me transformar em presa.
Entrei como advogada internacional. Currículo impecável. Referências falsas cruzadas com pessoas reais. Um histórico impossível de questionar porque parecia entediante demais para ser falso. Em seis semanas, eu era indispensável. Em dez, tinha acesso a informações que nunca deveriam ter saído de cofres digitais.
Quando o escândalo estourou, eu já estava em outro continente, bebendo champanhe barato e assistindo às notícias como se fosse uma série que eu mesma tivesse produzido.
Nunca voltei.
Nunca volto.
As pessoas acham que o mais difícil é enganar alguém. Não é.
O mais difícil é não se apegar ao personagem.
Algumas versões de mim foram… confortáveis.
Tinham casas fixas. Rotinas. Pessoas que ligavam para saber se eu estava bem. Havia uma, em especial, que quase me fez ficar. Quase.
Mas apego é um luxo caro demais para quem vive de desaparecer.
Sou uma loba solitária. Não por trauma, não por drama — por escolha. Lobos em bando precisam confiar uns nos outros. Eu confio apenas na minha capacidade de prever o pior.
Quando preciso de alguém, eu uso.
Quando não preciso mais, eu solto.
Não é crueldade. É eficiência.
Fechei um dos arquivos e abri outro. O próximo golpe ainda estava em fase de concepção. Eu tinha opções. Sempre tenho.
Havia um fundo imobiliário inflado artificialmente, sustentado por relatórios otimistas demais. Bastava um empurrão na direção errada e tudo desabaria. Também existia um banqueiro do Oriente Médio, conhecido por colecionar mulheres como troféus e segredos como armas. Ele ainda não sabia, mas estava prestes a financiar a própria ruína.
Tudo isso era tentador. Familiar. Seguro dentro do meu padrão.
E talvez fosse esse o problema.
Inclinei a cabeça, observando as luzes da cidade refletidas no vidro. Eu estava… entediada. O tipo de tédio perigoso que faz pessoas inteligentes cometerem erros estúpidos ou buscarem desafios desnecessários.
— Preciso de algo diferente — murmurei para o apartamento vazio.
Fechei os arquivos dos golpes planejados. Não os apaguei. Nunca apago nada. Apenas os deixei em espera, como cartas que ainda podem ser jogadas.
Abri o navegador. Camadas de proteção ativadas automaticamente. Navegação anônima sobre outra navegação anônima. Se alguém tentasse me rastrear, acabaria perseguindo sombras dentro de espelhos.
Digitei palavras vagas: oportunidades, contratos privados, empregos confidenciais. Nada que denunciasse intenção. Nada que parecesse urgente.
Passei por anúncios ridículos, propostas mal escritas, armadilhas óbvias. Gente que queria tudo rápido demais. Dinheiro fácil demais. Pessoas assim sempre querem mais do que oferecem — e não sabem esconder isso.
Rolei a página sem pressa.
Foi então que algo chamou minha atenção.
Não era chamativo. Pelo contrário. Discreto demais para o tipo de público que costumava procurar. Sem logo extravagante. Sem promessa exagerada. Apenas algumas linhas objetivas, quase frias.
Um pedido.
Um filtro.
Senti aquele arrepio específico — o que não vem do medo, mas do reconhecimento. Como quando você percebe que alguém, em algum lugar, está jogando o mesmo jogo que você.
Cliquei.
O site carregou lentamente, como se estivesse testando minha paciência. Fundo claro. Tipografia minimalista. Nada de imagens emocionais. Nada de apelos.
Li tudo uma vez. Depois outra.
Quanto mais eu lia, mais algo se ajustava dentro de mim. Não entusiasmo. Não ganância. Curiosidade estratégica — a mais perigosa de todas.
Aquilo não era um golpe esperando para acontecer.
Era um terreno novo.
Inclinei-me para frente, os cotovelos apoiados na mesa, o café esquecido ao lado. Minhas batidas cardíacas continuavam estáveis. Sempre ficam. Emoção é um recurso que eu uso com parcimônia.
— Interessante… — sussurrei.
Analisei cada palavra, cada ausência. O que não estava escrito dizia mais do que o que estava. Havia dinheiro envolvido, claro. Muito. Mas não era isso que me prendia.
Era o risco.
Não o risco financeiro. O outro. O tipo que não se mede em números. O tipo que muda trajetórias.
Abri uma nova aba e comecei a pesquisar. Não diretamente. Nunca diretamente. Caminhos longos, cruzamentos improváveis, informações periféricas. Como montar um quebra-cabeça sem olhar para a imagem da caixa.
Levei quase uma hora. Talvez mais. O tempo passou sem que eu percebesse, como sempre acontece quando algo realmente exige atenção.
Quando terminei, recostei-me na cadeira.
Sorri.
Não um sorriso bonito. Um sorriso lento, calculado. O sorriso que eu só dou quando sei que algo grande está prestes a acontecer.
— Então é isso — murmurei.
Fechei o navegador. Apaguei rastros. Desliguei o notebook.
Levantei-me e fui até a janela. O sol começava a nascer, pintando os prédios de dourado falso. Mais um dia comum para o mundo. Não para mim.
Peguei meu telefone descartável e digitei uma única mensagem, que não explicava nada e significava tudo:
Vou aceitar algo novo.
Apaguei a conversa imediatamente.
Se desse certo, mudaria tudo.
Se desse errado… bem, eu sempre soube desaparecer.
A única coisa que eu ainda não sabia — e que me intrigava mais do que deveria — era por que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava pensando em como sair depois.
A cidade despertava lá fora.
E, em algum lugar, algo me esperava.
Mas isso…
fica para o próximo capítulo.