Eu acordo antes do despertador porque entrevistas não são encontros.
São batalhas silenciosas.
O teto do apartamento temporário é branco demais, genérico demais, exatamente como deve ser. Nenhum objeto pessoal à vista. Nenhuma pista de permanência. Se eu desaparecesse hoje, aquele lugar não lembraria de mim amanhã.
Levanto sem pressa. A pressa denuncia ansiedade, e ansiedade é uma fraqueza que não posso permitir. O banho é rápido, funcional. Água morna. Cabelo preso. Nada de perfume chamativo — só o suficiente para não parecer descuido. Aparência é linguagem. E eu sou fluente.
Enquanto me visto, repasso mentalmente o anúncio que li na noite anterior. Não as palavras. As entrelinhas.
Discreto. Direto. Frio.
Um pedido de ajuda que se recusa a parecer um pedido.
Não era uma agência. Não era uma família comum. Não era alguém desesperado — ainda. Era alguém no limite do controle, tentando manter a ilusão de que tudo estava sob comando.
Esse tipo de pessoa não contrata babás.
Recruta.
Escolho roupas neutras. Nada que chame atenção demais. Nada que apague quem eu sou. Um meio-termo calculado: competente, confiável, invisível o bastante para não ameaçar, presente o suficiente para ser notada.
Antes de sair, desligo o telefone principal e levo apenas o descartável. Nenhuma notificação ativa. Nenhum contato salvo. Hoje, eu sou apenas Rayana. Sem passado. Sem futuro.
O endereço aparece no GPS apenas uma vez. Depois some.
Gosto disso.
A casa surge atrás de um portão alto, silencioso, quase agressivamente discreto. Não há ostentação. Nenhuma tentativa de impressionar. Isso me diz muito mais do que mansões espalhafatosas jamais diriam.
Sou revistada antes mesmo de dizer meu nome.
Não reclamo.
Homens que protegem algo valioso não pedem desculpas por isso.
O segurança me conduz até a sala principal. Vidro, linhas retas, cores frias. Tudo organizado demais para ser confortável. O tipo de lugar onde emoções são tratadas como riscos calculáveis.
Espero em silêncio.
Não mexo no telefone. Não observo demais. Não pareço curiosa. Curiosidade fora de hora levanta perguntas.
Ouço passos antes de vê-lo.
Cristian Montenegro entra na sala como alguém que já foi interrompido demais naquele dia. Terno escuro. Postura impecável. Olhar que avalia antes de cumprimentar.
Ele não sorri.
— Rayana — diz, conferindo algo num tablet.
Não é uma pergunta.
É uma confirmação.
— Sim.
Ele me observa por alguns segundos a mais do que o socialmente necessário. É o tipo de olhar que tenta decidir se você é uma variável aceitável.
— Sente-se.
Sento.
— Você não veio por nenhuma agência — ele diz.
— Não confio nelas — respondo.
— Por quê?
— Pessoas terceirizam responsabilidade quando não querem lidar com consequências.
Ele inclina levemente a cabeça. Ponto para mim.
— Seu currículo é… incomum — continua.
— Eu prefiro “flexível”.
— Não há referências verificáveis.
— Há descrições consistentes.
Silêncio.
Ele cruza as pernas com precisão. Não é um homem que desperdiça movimentos.
— A maioria das candidatas tentou me convencer de que ama crianças — diz. — Você não fez isso.
— Porque não seria verdade — respondo, sem hesitar. — Crianças não precisam ser amadas por estranhos. Precisam ser protegidas. O resto vem depois. Ou não vem.
Algo muda no ar.
Não dramaticamente. Não visivelmente. Mas muda.
— Você tem filhos? — ele pergunta.
— Não.
— Já cuidou de algum?
— Sim.
— E não se apegou?
Sorrio. Pequeno. Controlado.
— Apego não é um pré-requisito para competência.
Ele me observa com mais atenção agora. Não como uma candidata. Como um problema interessante.
— Sabe que este não é um trabalho comum — diz.
— Sei.
— Minha filha não fica com estranhos.
— Nenhuma criança deveria.
— Eu estarei presente na maior parte do tempo.
— Isso pode ser um problema — respondo.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque crianças percebem tensão. E adultos controladores tendem a confundir presença com proteção.
Silêncio de novo.
Ele poderia encerrar ali. Mandar me retirar. Eu saberia aceitar isso.
Mas ele não faz.
— Quero que você a conheça — diz, levantando-se.
Seguimos por um corredor amplo, silencioso demais para uma casa com um bebê. Ele abre a porta do quarto sem anunciar. Confiança absoluta de que o mundo se adapta a ele.
Bárbara está no berço, sentada, brincando com algo invisível. Os cabelos claros refletem a luz da janela. Ela olha para mim antes mesmo de olhar para ele.
Isso acontece.
Crianças fazem isso.
Escolhem instintivamente.
— Bárbara — diz Cristian, a voz diferente. Menos afiada. — Esta é a Rayana.
Não estendo os braços. Não falo com voz infantilizada. Apenas me aproximo devagar.
— Oi — digo, no tom exato entre neutralidade e presença.
Ela me observa. Avalia. Depois estica uma das mãos, como se estivesse testando o ar.
Quando a pego no colo, não há choro. Não há resistência. Ela encosta a cabeça no meu ombro como se fosse lógico.
Sinto o peso dela. Real. Concreto. Inconveniente.
Cristian não disfarça a reação.
— Ela não faz isso — diz.
— Crianças gostam de previsibilidade — respondo. — Eu não a surpreendi.
Bárbara brinca com o botão da minha blusa. Puxa, curiosa.
— Quanto tempo você pretende ficar? — ele pergunta.
Pergunta errada.
Resposta perigosa.
— O tempo necessário — digo. — Enquanto fizer sentido.
Ele me observa como se tentasse decifrar se isso é uma ameaça ou uma promessa.
— Você aceitaria regras rígidas — continua. — Monitoramento. Limites claros. Nenhuma improvisação.
— Improvisação é inevitável — respondo. — Mas ilegalidade não é uma opção.
Ele sorri pela primeira vez. Não um sorriso bonito. Um sorriso curto, tenso.
— Você sabe quanto eu pago?
— Sei quanto vale o risco — respondo. — O valor é proporcional.
Silêncio.
Ele estende a mão.
— Comece amanhã.
Não há contrato ainda. Não há confirmação formal. Apenas decisão.
Aperto a mão dele.
— Certo.
Quando saio da casa, o céu está cinza. O tipo de cinza que antecede algo grande. Não sei se é tempestade ou mudança de estação.
No carro, ligo o telefone descartável. Nenhuma mensagem. Nenhum alerta. Tudo sob controle.
Ainda.
Enquanto o portão se fecha atrás de mim, sinto algo que não sentia há muito tempo.
Não medo.
Não excitação.
Antecipação.
E isso, mais do que qualquer golpe que já planejei, é o que me diz que nada daqui para frente será simples.