IV

Rust — 1789

As árvores altas da floresta balançavam suas copas ao sabor do vento suave que corria naquela tarde. O sol brilhava no céu, quente e acolhedor, como se sorrisse para tudo o que existia ali, tornando o dia ainda mais belo e gracioso. O verão era, sem dúvida, a estação mais encantadora em Rust, com suas cores vibrantes e ar puro.

Na grande e extensa propriedade da família Hamilton, todos se ocupavam com suas tarefas diárias: criados arrumavam os cômodos, jardineiros cuidavam das plantas e a família tratava de seus negócios. Enquanto isso, Kate recebia um convite especial para passear pelo bosque que ficava perto de sua casa, vindo de seu grande amigo, Harry.

Harry havia chegado à pequena cidade de Rust há pouco mais de dois anos. Logo na sua chegada, sua beleza marcante e seu jeito elegante chamaram a atenção de todas as moças solteiras da região — era o assunto principal entre elas. Mas, por incrível que parecesse, o rapaz não demonstrou interesse por nenhuma delas. O que ele realmente queria era a garota que todos olhavam com admiração e respeito: Kate Hamilton.

Foi através de Harry que os Hamilton conheceram os Voltremys — ou Vontres, como também eram chamados. Depois desse acontecimento, ele e Kate se tornaram melhores amigos, uma amizade tão forte que até mesmo o pai de Kate, um homem muito desconfiado e rigoroso, passou a confiar plenamente no jovem.

— Então, caro senhor Voltremys... — Kate sorriu de um jeito brincalhão, olhando para ele — Qual é o motivo da sua visita e desse convite para um passeio?

Harry sorriu de volta e colocou as mãos para trás do corpo, com um brilho intenso nos olhos verdes que pareciam brilhar ainda mais só de ouvir a voz da jovem. Kate tinha cabelos pretos como a noite, pele clara e um olhar doce, que encantava a todos.

— Ver uma amiga já não é motivo suficiente? — ele respondeu, e Kate ergueu o rosto para olhar o céu azul, sorrindo ainda mais. — Na verdade... quero lhe pedir desculpas pela minha atitude de três dias atrás.

Ele abaixou a cabeça, sentindo o rosto corar de vergonha. O que tinha feito não fora nada inteligente nem correto: tinha roubado um beijo dela, de surpresa, numa hora em que estavam sozinhos. Eles eram apenas amigos, e ele sabia que não devia ter feito aquilo.

— Não se preocupe, está tudo bem — disse Kate, aproximando-se e tocando levemente a mão dele, num gesto de carinho e compreensão. — Você é um rapaz muito bom e bonito, Harry. Tenho certeza de que um dia vai encontrar alguém que o corresponda de verdade.

Ela soltou a mão dele e voltou a caminhar devagar entre as árvores, como se nada tivesse acontecido.

Mas Kate deveria saber uma coisa: Harry nunca fora o tipo de homem que aceitava um "não" como resposta, nem um "talvez". Ele sempre conseguia o que queria, custasse o que custasse. E, naquele momento, o que ele mais queria era tê-la só para si.

— Mesmo assim, eu devo me desculpar por ter agido com pouca educação e sem respeito — disse ele, voltando a caminhar ao lado dela, mantendo um passo tranquilo. — Nossa família vai passar os festas de colheita e o Natal todos juntos, como já é tradição. Precisamos estar bem um com o outro, não acha?

— Claro que sim. E por isso estamos bem, não estamos? — Kate ergueu o dedo mindinho e sorriu, como faziam quando eram crianças e selavam promessas.

Harry logo encaixou o seu dedo no dela, num gesto que parecia simples, mas que para ele significava muito mais.

— Tenho algo muito importante para te contar — disse ela de repente, deu dois pulinhos de alegria e parou bem na frente dele, com os olhos brilhantes. — Creio que nem eu mesma esperava por isso tão cedo...

O sorriso da jovem se alargou tanto que suas bochechas ficaram rosadas, e ela parecia não caber em si de tanta felicidade.

— Uau... — Harry sorriu, contagiado momentaneamente pela alegria dela, embora já sentisse um aperto no peito. — Então conta-me logo essa novidade, antes que eu fique curioso demais.

Kate fez um pequeno suspense, segurando o riso e mantendo o sorriso nos lábios, antes de falar:

— Eu vou conhecer Tom. O meu prometido! — ela deu-lhe as costas e soltou um suspiro apaixonado, olhando para o horizonte entre as árvores. — Isso não é simplesmente incrível?

Naquele instante, toda a alegria de Harry, e qualquer vestígio de sorriso que houvesse em seu rosto, desapareceu de uma vez. Ele alimentava, lá no fundo, a esperança de que, com o tempo e com as suas investidas, Kate acabaria se apaixonando por ele, esquecendo qualquer outro homem. Mas ouvir aquilo foi como se alguém tivesse cravado uma estaca bem no meio do seu coração.

— Eu... realmente não estava esperando por essa notícia — ele respondeu, forçando um sorriso que pareceu mais um esgar de dor. — Você parece muito animada, não é mesmo?

Ele continuou andando ao lado dela, sentindo o chão desaparecer sob os seus pés.

— E os seus pais já lhe contaram mais detalhes? — perguntou ele, tentando disfarçar a própria angústia.

Harry sabia segredos profundos sobre a família de Tom, coisas que ninguém mais em Rust imaginava. E isso o deixava inquieto: ele sabia da antiga história que envolvia lobos e vampiros, e temia que os pais de Kate estivessem envolvidos em algo muito maior e perigoso ao combinarem esse casamento.

— Tipo o quê? — Kate olhou rapidamente para ele, mas logo voltou sua atenção para uma flor branca que crescia à beira do caminho, aproximando-se para sentir o seu perfume.

— Ah... sobre como será o casamento, como será a vida de vocês... sei lá, detalhes assim — ele respondeu, tentando parecer natural.

— Eles me deram o direito de escolher algumas coisas, sim — Kate olhou novamente para ele, com um brilho doce nos olhos. — Mas você conhece muito bem a minha família, Harry. Eles gostam mesmo é das regras, da tradição, de tudo no seu lugar.

Ela arrancou a flor com cuidado e chegou mais perto dele, erguendo-a com carinho.

— Mas, apesar de tudo... eu sinto que eu e ele somos almas gêmeas. Tenho certeza disso — disse ela, e entregou a flor a ele, apontando para os próprios cabelos negros, que naquele dia estavam soltos, caindo em cachos sobre os ombros. — Você já sentiu isso por alguém? Essa ligação forte?

Ela olhou bem dentro dos olhos dele, sorrindo, e Harry percebeu: havia um brilho diferente nela quando falava de Tom, uma luz que nunca aparecia quando estava ao lado dele. Aquilo provocou nele uma pontada de ciúmes que queimou forte por dentro.

Harry ajeitou a flor branca nos cabelos dela, e a cor clara da pétala fazia um contraste ainda mais belo com a escuridão dos fios.

— Sim — ele respondeu baixo, e com os dedos tocou levemente uma mecha de cabelo dela.

— É mágico, não é? Uma sensação maravilhosa — Kate voltou a caminhar por entre as flores, com passos leves.

— É... — Harry murmurou, pensativo. — Mas mágica também é ilusão, é truque. E nem todo truque é realmente bom ou verdadeiro.

Ela olhou para ele, surpresa com a resposta, mas logo sorriu novamente.

— É verdade, tem razão.

Harry observava a jovem com atenção: ela estava com dezenove anos completos, mas tinha uma inocência e uma pureza que pareciam de uma criança de seis anos. Era exatamente isso que ele amava nela: a capacidade de perdoar, de confiar, de ver o bem em tudo. Toda a humanidade que existia dentro dela era algo que só ela conseguia despertar nele, algo que ele havia perdido há séculos.

— Kate... você acredita em vampiros? — perguntou ele de repente, mudando totalmente de assunto.

Ela parou e olhou para ele, confusa com a pergunta inesperada.

— Não sei bem. Às vezes acho que sim, outras vezes acho que não... — ela deu de ombros e chegou mais perto. — E você? Você acredita?

— Depende do ponto de vista — ele respondeu com um ar misterioso.

— Depende? Que resposta é essa? — ela riu, e ele também, embora por dentro estivesse muito sério. — Mesmo que eles existissem, devem ser seres que vivem há muito, muito tempo, isolados em algum lugar.

— A única coisa que eu sei sobre eles... é que têm a eternidade pela frente. E isso parece ser algo incrível.

— Ninguém realmente quer viver a eternidade, Harry — ela disse, brincando de mexer nos cabelos bagunçados do rapaz. — A eternidade é tempo demais. É viver além do necessário, ver anos e séculos passarem diante dos olhos... — ela suspirou, ficando um pouco mais séria. — Imagina só: ver todas as pessoas que você ama morrerem, uma por uma, e não poder fazer nada para impedir? Ficar sozinho no final de tudo...

— Há uma forma de mudar isso — Harry ajeitou o cabelo dela, olhando bem nos seus olhos. — Você pode transformar quem ama. Assim, todos vivem para sempre, ao seu lado.

— Mesmo assim... é tempo demais — Kate puxou o braço dele, começando a caminhar de volta, em direção à casa, dando o assunto por encerrado. — Prefiro viver o meu tempo, e ser feliz enquanto ele durar.

Depois de deixá-la na porta da residência dos Hamilton, Harry seguiu sozinho o caminho até a casa onde vivia. Durante todo o trajeto, sua mente trabalhava numa única direção: ele precisava encontrar uma forma de fazê-la entender que a eternidade seria maravilhosa se fosse com ele. Que poderiam ser amigos, ou algo muito mais, para sempre. E que, com o tempo, talvez ela acabasse sentindo por ele o mesmo amor que ele sentia por ela — ele, que já existia há noventa e oito anos, mas que ao lado dela se sentia como um jovem apaixonado.

Ao chegar em casa, ele passou rapidamente pela sala, onde Davis e Ster estavam sentados, lendo um dos muitos livros antigos que guardavam na estante.

— Como foi o passeio? — Davis foi o primeiro a falar, percebendo a pressa com que Harry passava por eles em direção às escadas.

— Nada de novo — respondeu Harry, sem parar, já subindo os degraus.

— Quando é que vai transformá-la? Já passou da hora, não acha? — Ster se levantou do sofá e caminhou até o pé da escada, olhando firme para ele.

Ela assumia o papel de mãe de Harry há anos, apenas para manter o disfarce e viverem entre os humanos sem levantar suspeitas. Tinha aparência de jovem, mas já era velha em séculos de existência.

— Estamos no final do ano, época de festas e olhares atentos por toda parte — Harry parou e olhou para ela, com raiva. — Você quer chamar atenção? Quer ser descoberta e queimada viva numa fogueira?

— Ora... eu já estou morta de qualquer forma, há muito tempo — ela respondeu, dando-lhe as costas com desdém.

— E vai morrer de verdade, e para sempre, se continuar agindo como uma tola, colocando as suas vontades acima das ordens que recebemos — avisou ele, com voz dura.

— Está apaixonado por ela, Harry? — Davis perguntou calmamente, virando o rosto na direção dele, percebendo a forma como ele olhava para Ster, mas pensava em Kate.

— Não diga asneiras. Eu não estou apaixonado por nenhuma humana tola e ingênua — Harry desceu os degraus que já havia subido, com expressão fechada. — Eu estou é preservando a segurança de todos nós, para que não acabemos mortos por causa de erros bobos. Agora, se me dão licença, tenho coisas mais importantes para fazer do que ficar jogando conversa fora.

Ele deu as costas para o casal e saiu andando, deixando-os em silêncio.

Subiu novamente as escadas, entrou no seu quarto e fechou a porta.

Todas as mentiras que contava para eles, e para si mesmo, escondiam a verdade por trás de uma casca dura de vampiro: ele tinha se apaixonado por Kate no exato momento em que a viu sair da carruagem, no dia em que chegou à cidade pela primeira vez. E aquele sentimento só crescia a cada dia.

— Que pedido de desculpas tão comovente... — uma voz feminina falou de repente.

Harry olhou para a janela e viu Anne sentada no parapeito, com os olhos vermelhos brilhantes fixos nele. Ela sorria de um jeito que parecia apaixonado, mas havia maldade nos olhos.

— Quase fiquei comovida também... e com ciúmes — disse ela, brincando com a voz, antes de saltar ao chão e caminhar devagar até ele, jogando os cabelos pretos para trás dos ombros.

— Você estava nos observando esse tempo todo? — Harry chegou perto dela e tocou os fios de cabelo dela, com uma mistura de medo e desejo.

— Me enoja ver como ela é tão ingênua, tão humana... — Anne deu-lhe as costas e começou a limpar as próprias unhas com ar de tédio. — Mas acho que a eternidade vai lhe fazer muito bem. Vai mudar ela para sempre.

Num movimento rápido como um raio, ela se virou, agarrou o pescoço de Harry e o empurrou com força contra a parede, prendendo-o ali.

— Agora me diga, querido Harry... qual é o seu problema? — perguntou ela, com o rosto sério e feroz, sem soltá-lo.

— Do que está falando? — Harry mal conseguia falar, pressionado pela força dela. Para alguém que havia se transformado há tão pouco tempo, Anne era incrivelmente forte — mais forte até do que ele.

— Eu quero Kate transformada. E queria que já estivesse feita ontem, seu idiota! — a mulher de cabelos pretos chegou mais perto, ficando cara a cara com ele, mostrando os dentes. — E saiba de uma coisa: se eu mesma tiver que transformá-la, não serei nada boazinha. Vou arrancar o coração dela com as minhas próprias mãos, e acabarei de vez com essa história toda dos Vontres.

— Eu vou transformá-la... — Harry tentou dizer, mas ela apertou ainda mais o pescoço dele, cortando o ar. — Eu prometo... farei isso em breve.

Ela ficou alguns segundos mais segurando-o, encarando-o com ódio e desconfiança, até que finalmente o soltou. Harry caiu de joelhos no chão, respirando com dificuldade.

— Eu achava que você era apaixonado por mim, Harry. Não por ela — disse Anne, olhando-o de cima, com os olhos vermelhos faiscando. — Por que tudo tem que ser sempre dela?

— Eu amo você, Anne. Somente você — Harry se levantou devagar, aproximou-se dela e fez um carinho suave no seu rosto, tentando acalmá-la. — Eu só...

Ela segurou a mão dele com força, parando o gesto de carinho no meio do caminho.

— Então transforme ela. E rápido — sussurrou ela, com voz fria e ameaçadora. — Porque se não fizer, eu mesma faço. E antes disso, vou enfiar uma estaca no seu coração. Sem nenhuma pena.

Ela soltou a mão dele com força, deu-lhe uma última olhada carregada de aviso e, tão rápido quanto tinha aparecido, desapareceu do quarto, deixando apenas um rastro de ar frio.

Harry ficou sozinho, parado no meio do cômodo, com a cabeça cheia de pensamentos conflitantes. Ele amava Anne, era verdade, mas também estava se apaixonando perdidamente por Kate. E, pior do que tudo, ele não tinha escolha nenhuma.

Ele precisava fazer o que Anne mandava.

Precisava ganhar Kate para a eternidade.Para que ela fosse dele... para sempre.

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