V

Rust — 2020

 

— Mas esse livro que você mencionou... — começou Margareth, enquanto acompanhava Kate pelos degraus da grande escadaria de madeira.

 

— É um livro que Sara confiou a mim — respondeu Kate, com naturalidade. — Um grimório antigo, com feitiços que ela mesma usava quando precisava de algo muito importante ou poderoso.

 

Kate abriu a porta do escritório e entrou, com a bruxa logo atrás de si. A testa de Margareth franziu-se imediatamente, cheia de confusão e desconfiança. Ela sabia muito bem que aquilo era mentira: o verdadeiro livro de feitiços de sua tia estava guardado com ela, trancado a sete chaves e protegido por magia, há muitos anos.

 

Margareth tinha o grimório de Sara em seu poder. Tinha recebido-o das próprias mãos da tia, como herança e proteção. Por isso, não conseguia entender por que Kate contava essa história, nem como poderia afirmar algo que era completamente falso.

 

— Você não cansa de mentir, não é mesmo? — perguntou Margareth, parando em pé bem na frente da vampira, que se acomodara na grande poltrona de couro, observando-a com calma. — O único livro de feitiços que Sara possuía está comigo, muito bem guardado e lacrado com um feitiço de proteção que nem você seria capaz de quebrar.

 

Kate sorriu, levantou-se devagar, caminhou até o armário de bebidas e encheu um copo de whisky até a metade.

 

— Aquele livro que está com você contém apenas os feitiços mais simples, básicos, que qualquer aprendiz de bruxa consegue usar — disse ela, levando o copo aos lábios e bebendo tudo de um só gole. — O que eu tenho, e o que conheci com ela, é coisa muito mais forte, complexa... talvez grande demais para a sua cabeça ainda tão jovem compreender.

 

Margareth revirou os olhos, irritada, e sentou-se na cadeira à sua frente, cruzando os braços.

 

— Já que essa pedra Kijuty faz o que eu quero, desde que eu use o feitiço correto ao lado, por que você simplesmente não me entrega o livro e eu mesma resolvo tudo isso? — perguntou ela, direta.

 

Kate sorriu novamente. Conhecia Margareth há tempo suficiente para saber exatamente o que se passava por trás daqueles olhos desconfiados.

 

— Para que você me selasse junto com todos os outros que já ficaram presos por aí? — Kate levantou-se da poltrona e encostou-se na beirada da mesa, ficando mais próxima da bruxa. — Não, obrigada. Eu não vou dar a você o gostinho de se livrar de mim tão facilmente.

 

— Não tinha pensado nisso... — mentiu Margareth, respondendo rápido e com ar de quem não se importava.

 

Mas ela tinha pensado, sim. E muito. O seu plano exato era esse: assim que conseguisse o que precisava, selar Kate num lugar de onde nunca mais pudesse sair. Uma prisão eterna. Menos um problema para ela, menos uma ameaça para todos em Rust.

 

— Claro que não... — ironizou Kate. — Mas não se preocupe comigo. Eu vou embora daqui assim que tudo estiver concluído e resolvido.

 

— E nunca mais voltará — completou a bruxa, firme.

 

— E nunca mais voltarei — afirmou a vampira, sem desviar o olhar.

 

Margareth levantou-se, deu uma última olhada demorada em Kate, lutando consigo mesma para decidir se poderia ou não acreditar naquelas palavras. Havia tanta mentira, tanto histórico de traições entre elas... Ela deu meia-volta e caminhou em direção à porta do escritório, quando a voz de Kate a chamou, fazendo-a parar e se virar novamente.

 

— Eu prometo.

 

As duas se encararam em silêncio por alguns segundos. E, pela primeira vez em cento e cinquenta anos, o olhar de Kate era verdadeiro, limpo, sem nenhum truque. Era o mesmo olhar que a bruxa conhecia desde a juventude, o olhar da amiga que um dia chamou de irmã. No fundo, mesmo com toda a raiva e mágoa, Margareth sentia falta daquela vampira de outrora.

 

Margareth apenas fez um sinal de confirmação com a cabeça e saiu do escritório, voltando para a sua própria casa.

 

Ao entrar na floresta densa de Gyt, ela finalmente pode relaxar e desfazer o feitiço que usava para esconder a sua verdadeira essência dos olhos de quem passava. Caminhava entre as árvores com a mente cheia de conflitos: uma parte dela queria acreditar, queria confiar; mas a outra, mais experiente e desconfiada, gritava para que se afastasse, pois confiar em Kate ainda poderia ser o seu pior erro.

 

Chegando em casa, ela desceu até o porão, um lugar reservado apenas para a sua magia e rituais. Pegou algumas velas de cera vermelha e uma bacia de alumínio antigo, colocando tudo no centro do cômodo. Depois da conversa com Kate, ela decidira que precisava de uma resposta definitiva, algo que viesse de quem realmente conhecia toda a verdade.

 

Acendeu as velas com um movimento simples da mão, como se fosse mágica — e realmente era. Com giz vermelho, desenhou um círculo perfeito no chão, sentou-se no meio dele e pegou um pequeno canivete de prata. Levou a mão esquerda até a borda da bacia e, fazendo uma leve careta de dor, cortou a palma da mão devagar.

 

Fechou os olhos e deixou que algumas gotas de sangue caíssem dentro do recipiente de metal. Em silêncio, começou a recitar as palavras antigas, que saíam da sua boca num tom baixo e ritmado:

 

Et sanguis meus genus quaeso mihi...

 

Um vento forte ergueu-se de repente no pequeno cômodo, mas estranhamente as chamas das velas continuaram acesas, firmes, sem se apagar.

 

Et sanguis meus genus quaeso mihi... — repetiu ela, e logo o vento parou tão rápido quanto começou.

 

Ainda de olhos fechados, sentiu uma presença conhecida, uma energia calorosa e antiga que vinha ao seu encontro.

 

Quando abriu os olhos, já não estava mais no porão da sua casa atual. Estava na sala de estar da sua casa antiga, a mesma onde viveu durante a infância e juventude, ao lado de sua mãe e de sua avó. Foi ali que ela recebeu, do mundo da magia, a herança e a ascendência das bruxas de Salém. Foi ali que aprendeu tudo o que sabia até hoje.

 

— O que faz aqui, Margareth? — uma voz suave perguntou.

 

Ela se virou rapidamente e viu Sara — sua tia, e que um dia fora a melhor amiga e fiel companheira de Kate.

 

— Tia Sara! — Margareth sorriu, surpresa e alegre, e correu até ela. — Não imaginei que seria você a aparecer. Pensei que iria encontrar a vovó...

 

Sara segurou o rosto da sobrinha com as duas mãos, olhando bem nos seus olhos, como se pudesse ler tudo o que se passava dentro do seu coração, e sorriu com doçura.

 

— Desculpe se te decepcionei... — Sara tirou as mãos devagar do rosto da jovem.

 

— Não é isso, tia — Margareth desviou o olhar, sentindo um vazio no peito. — Onde está a vovó?

 

Dessa vez, foi Sara quem desviou o olhar, afastando-se um pouco e caminhando devagar até a janela, antes de responder. Olhou para fora, como se visse coisas que não existiam mais ali.

 

— Sua avó fez um sacrifício muito grande... — começou ela, com voz calma mas cheia de tristeza. — Para que você pudesse receber a ascendência completa e todo o poder das bruxas de Salém... ela entregou o seu próprio espírito em troca. Digamos que agora, as únicas que sabem realmente o que aconteceu com ela são as próprias bruxas ancestrais.

 

Margareth sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Ela nunca gostou de saber que carregava dentro de si um poder tão imenso e surreal. E doía ainda mais saber que a avó, que tanto amava, havia dado a própria vida para que ela pudesse ter tudo isso.

 

— Mag? — Sara chamou, e a jovem olhou para ela, enxugando rapidamente as poucas lágrimas que queriam escorrer. — Por que me chamou? O que está acontecendo?

 

— É Kate Hamilton... — disse Margareth, e por alguns segundos, a expressão da bruxa mais velha ficou séria e atenta, encarando a sobrinha. Era difícil dizer se ela estava surpresa, assustada ou apenas preocupada por saber que Kate ainda existia e caminhava entre eles.

 

— Ela ainda está viva...

 

— Não exatamente viva como nós entendemos... — Sara sorriu de leve, lembrando-se de tudo o que havia acontecido. — Mas sim, ela continua aqui, presente, no mundo. E pelo que vejo, quer a sua ajuda.

 

— Então ajude-a.

 

— Tia, você não entende! — Margareth chegou mais perto, desesperada para fazer Sara compreender. — Ela é uma assassina fria! Matou metade da alcateia dos Gretys, sem dó nem piedade! — ela passou a mão pelos cabelos, nervosa. — Ela matou Tom... em todas as vidas que ele já teve. Você sabe muito bem que lobisomem não é imortal, tia. Cada vez que ele renascia, ela o matava novamente.

 

— Kate não faria uma coisa dessas. Eu a conheço, e sei quem ela é — Sara pousou a mão firme no ombro da sobrinha.

 

— A Kate que você conheceu morreu em 1789, tia! Essa que existe agora não é mais ela — disse a jovem, indignada. — Você não se lembra de quem encontrou, toda ensanguentada, parada sobre os corpos dos próprios pais?

 

— Margareth, preste muita atenção no que eu vou te dizer... — Sara chegou ainda mais perto, olhando firme nos olhos da sobrinha. — Kate Hamilton não faria algo assim sem um motivo, nem por maldade gratuita. Há alguma coisa por trás de tudo isso, segredos que ainda não sabemos. Eu sinto isso, com toda a minha magia.

 

Os olhos de Sara brilharam com uma luz âmbar e reluzente, cheios de sabedoria antiga.

 

— Mas ela mentiu em todas as vezes que já pediu a minha ajuda — desabafou Margareth, sentindo-se cansada. — Eu não sei se devo ou posso acreditar nela agora. Não sei mesmo, tia...

 

Ela sentou-se na cama antiga do quarto, colocando a cabeça entre as mãos. No fundo do seu coração, havia uma parte que ainda queria acreditar, que ainda confiava... mas o seu instinto gritava alto, mandando-a manter distância da antiga amiga.

 

— Me escute bem... — Sara ajoelhou-se no chão, ficando à altura dela. — No centro-oeste da floresta de Gyt, há um baú antigo, escondido. Use o feitiço da página 178 do livro que está com você — é um feitiço de localização — e você o encontrará facilmente.

 

Ela fez um carinho suave nos cabelos da sobrinha, continuando:

 

— Se por algum instante você perceber que Kate está te traindo, ou que planeja algo contra você ou contra todos nós... use o que está dentro desse baú. Lá existe um feitiço muito especial, que eu mesma criei há muito tempo, feito com uma parte do próprio sangue dela. Se for lançado, ninguém além dela conseguirá sair daqui. E uma vez feito, esse feitiço jamais poderá ser quebrado ou desfeito.

 

Sara levantou-se devagar, deu-lhe as costas e caminhou em direção à porta, mas parou e voltou a falar:

 

— Eu tinha medo que algo de ruim acontecesse com você um dia, então preparei essa proteção. — Ela olhou firme para a jovem. — Mas só use isso se for realmente necessário, Mag. Saiba que, assim que ela for selada e presa para sempre, ela morrerá imediatamente, se transformando em pó diante dos seus olhos, em questão de segundos.

 

— Para sempre? — perguntou Margareth, com uma pontinha de esperança na voz.

 

— Para sempre.

 

Sara tocou mais uma vez o rosto da sobrinha, e de repente, tudo ao redor escureceu como se ela tivesse sido jogada dentro de um buraco negro.

 

Ao abrir os olhos novamente, estava de volta ao porão da sua casa, sentada no meio do círculo de giz. O coração batia forte e rápido no peito. O ritual não exigia magia excessiva, mas também não era coisa para bruxas iniciantes. Ela sentia o corpo cansado, mas a mente mais clara.

 

Margareth levantou-se devagar, ainda atordoada, e virou-se para sair do cômodo. Deu um pulo para trás, assustada: bem na sua frente, parado com os braços cruzados, estava um homem loiro, de barba rala e olhos azuis intensos, que a encarava em silêncio.

 

— Theodor? O que você está fazendo aqui? — perguntou Margareth, dando um passo para trás, com o coração que já batia forte acelerando ainda mais. — Como entrou na minha casa? As portas e janelas estavam todas trancadas!

 

— As trancas de madeira não são tão fortes assim para quem sabe como agir... — respondeu ele, com voz grave e calma, que fez a bruxa estremecer por dentro, embora tentasse não demonstrar. — E o feitiço de proteção que você colocou só serve para impedir a entrada de vampiros. Isso me fez pensar numa coisa muito curiosa...

 

Ele deu um passo em sua direção, e ela recuou outro.

 

— É apenas uma precaução, nada mais — respondeu ela, travando o maxilar para não tremer.

 

— Então me responda uma coisa que está me intrigando bastante, bruxa... — ele chegou bem perto, ficando cara a cara com ela. — O que Kate Hamilton está fazendo aqui, em Rust? E por que, depois de tudo o que fez e de tudo o que é, ela ainda continua viva?

 

Margareth estava encurralada, sem saída. E percebeu, naquele instante, que talvez contar toda a verdade fosse a única solução.

 

Para ela. Para todos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App