III

As portas maciças de madeira da grande casa antiga se abriram, produzindo um rangido longo e assustador que ecoou por todos os cantos, como se a própria residência reclamasse da presença de quem chegava. Os móveis, preservados em estado impecável há mais de um século, espalhavam beleza e sofisticação por cada ambiente — embora estivessem cobertos por uma fina camada de poeira, testemunha dos longos períodos em que ninguém pisava ali.

 

O único som que se ouvia por toda a casa era o ritmo constante e seco dos saltos de Kate, que preenchia o espaço vazio com uma presença firme e decidida. Ela caminhou até a escadaria, subindo devagar os degraus de madeira maciça, e cada passo trazia de volta memórias antigas: as vezes em que descia correndo aqueles mesmos degraus, fazendo tremer a estrutura, o que causava pânico em sua mãe. A mulher sempre vinha correndo atrás dela, repreendendo-a com voz severa, dizendo que uma menina da classe deles devia se portar com elegância, calma e discrição.

 

No final do corredor do segundo andar, na última porta à esquerda, ficava o escritório de James Hamilton — um dos homens mais respeitados e influentes de toda a sua época. A sala tinha um ar de importância e segredo: por décadas, só entravam ali homens da elite local, que se reuniam com frequência para discutir assuntos que jamais saíam daquelas paredes. Ninguém da família, nem mesmo Kate, nunca chegou a saber ao certo o que era tratado. Ela já havia tentado escutar atrás da porta ou espiar pela fechadura algumas vezes, mas sua mãe sempre estava por perto, de olhos atentos, pronta para impedir qualquer tentativa de bisbilhotice.

 

Kate abriu a porta devagar e encontrou tudo exatamente do jeito que havia deixado meses antes. Os Hamilton sempre tiveram um gosto particular: escolheram construir e manter sua propriedade bem afastada da cidade, no meio de uma extensa área verde, justamente para ter total privacidade, longe de olhares curiosos e de interferências de qualquer pessoa. Era uma decisão que a vampira agradecia aos pais em silêncio, pois aquele isolamento lhe dava a tranquilidade e a segurança que precisava.

 

Os moradores da pequena cidade de Rust, situada alguns quilômetros dali, jamais se atreviam a chegar até a região sul da floresta antiga que cercava a propriedade. As histórias sobre criaturas sobrenaturais — vampiros que caçavam à noite, lobisomens que uivavam sob a lua cheia — eram tão antigas e assustadoras que ninguém tinha coragem de se aproximar. Contavam também sobre uma grande guerra que teria acontecido séculos atrás entre essas espécies, consideradas os seres mais mortais do mundo. Para Kate, tudo isso não passava de bobagens sem sentido: cada espécie tinha suas próprias leis e regras, e todos as cumpriam rigorosamente, pois a ordem era o que mantinha a paz. Nunca houve uma guerra de verdade, apenas lendas criadas pelo medo humano.

 

Ela caminhou até a grande poltrona de couro onde seu pai costumava se sentar, acomodou-se confortavelmente, encostou as costas e a cabeça no estofado e fechou os olhos, deixando o silêncio tomar conta. Veio então à sua mente o quanto, na infância, ela desejou sentar-se ali, naquele lugar de poder, e sentir-se como ele: dono de tudo, respeitado, capaz de decidir o destino de todos ao seu redor. Mas ao mesmo tempo, lembrou-se de que fora treinada a vida inteira para outro papel: ser uma esposa exemplar, dedicada e submissa, exatamente como fora sua mãe. E, lá no fundo, por muito tempo, aquele também fora o seu maior desejo.

 

De repente, as portas da frente se abriram novamente, fazendo o mesmo barulho macabro de antes. Kate abriu os olhos imediatamente, alerta. Do lado de fora, sob a luz fraca do entardecer, apareceu um rapaz de aparência jovem e leve. Tinha cabelos loiros que caiam sobre os ombros, olhos vermelhos brilhantes e um sorriso presunçoso que logo se espalhou pelo rosto ao ver que fora notado.

 

Kate saiu do escritório, fechou a porta com cuidado e desceu as escadas devagar, sem pressa. O rapaz já havia entrado e se jogado no sofá da sala principal, cruzando as pernas com ar de quem estava em casa, pois já sabia que a vampira vinha ao seu encontro.

 

— Olá, Kate — ele cumprimentou, assim que ela apareceu à sua frente.

 

— Você chegou — ela respondeu, sem demonstrar muita animação, e deu-lhe as costas, caminhando até um móvel baixo de madeira nobre, onde havia algumas garrafas de bebidas e copos de cristal. — Ben Cooper… até que veio mais rápido do que eu esperava.

 

— Você me chama, e eu venho correndo — disse ele, e num piscar de olhos, usou sua velocidade sobrenatural para chegar ao lado dela, sorrindo de forma brincalhona. — Como um belo e obediente cachorrinho.

 

Kate encheu um copo e entregou-lhe. Ben tinha aparência de um jovem de cerca de dezoito anos, mas na verdade já existia há pelo menos setenta. Era como um velho parceiro, um capanga leal que ela usava para diversas tarefas, há muitos anos.

 

— Agradeço por ter vindo — disse ela, tomando um gole da própria bebida.

 

— Não há de quê! — Ben sorriu, aceitou o copo, ergueu-o como se fosse um brinde e Kate retribuiu o gesto com um movimento de cabeça. Ele bebeu tudo de uma vez, com um gole longo e forte, e deixou o copo vazio de volta no móvel. — Mas vamos ao que interessa: o que há de tão grave para me chamar com tanta urgência? — perguntou, voltando a caminhar devagar até o sofá.

 

— Não sei ao certo, mas… — Kate também bebeu todo o líquido de uma vez, apoiando-se no móvel com as duas mãos — …mas os Vontres estão de volta. E estão vivos.

 

Ben, que até então estava completamente despreocupado e relaxado, mudou de postura num segundo. Endireitou o corpo, o sorriso desapareceu e seus olhos ficaram ainda mais vermelhos, brilhantes de alerta.

 

— Os Vontres? — ele se aproximou novamente, ficando cara a cara com ela. — Isso é impossível. Você mesma acabou com todos eles há cento e vinte anos atrás, não deixou ninguém restar.

 

Kate deu de ombros, olhando firme para ele.

 

— Foi o que eu também pensei no início. Mas creio que não se trata deles propriamente… é mais como se o “legado” dos Vontres tivesse sobrevivido. Alguém novo está seguindo os mesmos passos, tendo as mesmas ideias perigosas que eles tinham.

 

— De dar a eternidade a todos, a qualquer custo? — perguntou Ben, sentando-se novamente no sofá, agora com expressão séria.

 

— É uma loucura. É suicídio para quem tenta, e é uma guerra declarada para todos nós — respondeu Kate, sentando-se ao seu lado. — Se ainda restou alguém daquela época, ou se há um novo líder por trás disso, essa pessoa precisa ser parada. Rápido.

 

Ela olhou bem nos olhos do amigo, que parecia pensar em todas as consequências.

 

— E como pretende fazer esse ato heroico sozinha?

 

— Eu não vou estar sozinha. Tudo o que eu preciso agora é de uma bruxa.

 

— E já conseguiu encontrar a sua bruxa? — Ben se espreguiçou, deitou no sofá e pôs os pés em cima da perna de Kate, que imediatamente os empurrou de volta, irritada com a intimidade excessiva.

 

— Ela está vindo. Mesmo que ela me odeie com todas as suas forças, ela vai vir até mim. Ela me deve isso — disse Kate, levantando-se e caminhando até a grande janela de vidro que dava para o jardim. Lá fora, as árvores altas e antigas cercavam toda a propriedade, formando uma muralha verde que se perdia na névoa da floresta.

 

— Assim como eu devo a você, por toda a eternidade — Ben se levantou do sofá e fez uma reverência exagerada, num tom de brincadeira.

 

— Não me agradeça por isso. Ninguém realmente quer viver a eternidade — respondeu ela, olhando-o pela última vez antes de seguir em direção às escadas.

 

— Eu quero — o rapaz sorriu, mostrando os dentes. — Então… estou oficialmente convidado para ficar na sua casa enquanto isso durar?

 

— Eu já te convidei há anos, seu idiota — Kate acabou abrindo um pequeno sorriso, sem conseguir segurar. — Escolha qualquer um dos quartos do segundo andar, o que achar melhor. E não me perturbe, a menos que seja algo realmente importante.

 

Ela começou a subir os degraus, mas a voz de Ben a interrompeu novamente:

 

— A propósito… estou com fome. Vou ver se encontro algo na cozinha.

 

Nesse exato momento, a campainha da porta tocou, um som agudo e claro que cortou o silêncio da casa. Os dois vampiros pararam no mesmo instante, atentos.

 

— Eu atendo? — perguntou Ben, apontando com o queixo para a entrada. Kate apenas balançou a cabeça, concordando.

 

O rapaz ajeitou a própria roupa, alisou o tecido com as mãos e arrumou os cabelos, num jeito de se apresentar bem, o que fez Kate revirar os olhos, achando aquilo uma perda de tempo.

 

Ben caminhou até a porta, parou um momento e olhou de volta para ela, como se pedisse confirmação mais uma vez. Ao abrir, a luz do lado de fora revelou a figura de Margareth. Ao vê-la, Kate imediatamente voltou a descer os poucos degraus que já havia subido.

 

Margareth olhou de relance para o rapaz, que ainda mantinha um sorriso no rosto, e entrou na casa com passos firmes e decididos. Faziam três dias desde que Kate aparecera de surpresa em sua casa, pedindo ajuda e fazendo exigências. Hoje, a bruxa resolveu vir pessoalmente para dar a sua resposta.

 

— Seja bem-vinda, Mag — disse Kate, parando perto do sofá, com postura ereta.

 

— Eu aceito ajudar você — a bruxa foi direta, sem rodeios, sem cumprimentos longos ou gentilezas desnecessárias.

 

— Que bom… então eu já vou indo para outro canto, deixar vocês conversarem — Ben se pronunciou rapidamente, já se afastando e saindo de perto deles, como quem não queria se envolver em assuntos que não lhe diziam respeito.

 

— Ótimo — Kate sorriu, satisfeita, e deu um passo à frente.

 

— Mas com uma condição — completou Margareth, mantendo o olhar firme e sério sobre a vampira.

 

— Não existe condição alguma. Não foi assim que combinamos — Kate se aproximou mais, com a voz mais dura. — Se não se lembra, você está me devendo um favor enorme, e é hora de pagar.

 

— Então que morra, Kate Hamilton. Junto com os Vontres e todos os seus problemas — Margareth deu-lhe as costas e caminhou em direção à porta, pronta para ir embora.

 

Kate sentiu a raiva subir, e por um segundo pensou apenas em ir até lá, quebrar o pescoço da bruxa e resolver tudo na força — mas lembrou-se de que só ela tinha o conhecimento necessário para o que precisava ser feito.

 

— Qual é a sua condição? — perguntou, e sua voz, baixa e firme, fez com que Margareth parasse no meio do caminho e se virasse novamente para ela.

 

— Que assim que eu te ajudar a acabar com tudo o que resta dos Vontres, você vai embora daqui — disse a bruxa, ficando cara a cara com ela. — Sai de Rust, sai dessa região, e nunca mais volte para cá, nem para ver nem para ser vista.

 

— Você está me pedindo para nunca mais voltar ao lugar que sempre foi a minha casa? — Kate chegou ainda mais perto, ficando a poucos centímetros de distância dela.

 

— Essa casa, essa terra… já não pertencem a você há muito tempo — respondeu Margareth, sem se afastar nem demonstrar medo.

 

Kate a encarou por longos segundos, pensando, avaliando suas opções. Sabia que não tinha muita escolha e nem muito a perder com isso. Apenas Margareth poderia realizar o que era necessário.

 

— Tudo bem — disse ela por fim, deu de ombros e virou-se de costas para a mulher de pele escura.

 

— Tudo bem então — Margareth suspirou, aliviada. Por mais dura e firme que tentasse parecer, tinha receio de que Kate recusasse a proposta e tudo terminasse em confusão. — Agora que concordou… qual é o seu plano exato?

 

— Primeiro: o seu colar — Kate apontou diretamente para o cordão que Margareth usava no pescoço.

 

— O meu colar? O que tem ele? — Kate estendeu a mão, abriu a palma e balançou os dedos, num pedido claro para que ela entregasse a peça. — Eu não vou te dar o meu colar — a bruxa levou as mãos até o pingente, que tinha o formato de um losango, como se quisesse protegê-lo.

 

— Não confia em mim? — perguntou Kate, abrindo um sorriso travesso, quase de brincadeira, embora por trás houvesse uma intenção séria.

 

— Claro que não — Margareth deu um passo para trás, desconfiada.

 

— Eu lhe devolvo no mesmo instante. Prometo. E você sabe que eu nunca quebro uma promessa, não importa o que aconteça — Kate estendeu a mão novamente, esperando.

 

Margareth hesitou por mais alguns segundos, pensando nos riscos, até que finalmente tirou o cordão do pescoço e o entregou a Kate.

 

— Sua tia, há muitos anos, colocou algo dentro desse pingente que vale mais do que muitas vidas — disse a bruxa, observando cada movimento da outra.

 

Kate apertou um pequeno botão secreto na peça, e uma tampa se abriu, revelando um minúsculo cristal transparente, brilhante como um grão de arroz.

 

— Isso se chama Kijuty. Com o feitiço correto e esse cristal em mãos, o seu desejo mais profundo pode se realizar — explicou Kate, segurando o objeto com cuidado, olhando fixamente para ele.

 

— Mas que feitiço é esse? E como é que eu, que estudo magia a vida toda, nunca ouvi falar desse cristal? — perguntou Margareth, igualmente fascinada e surpresa com o que via.

 

— O mundo é muito maior e mais complexo do que apenas saber queimar vampiros ou lançar maldições, Mag — Kate guardou novamente o cristal dentro do pingente, fechou a tampa e entregou o colar de volta para a bruxa, que imediatamente o recolocou no pescoço. — Viu? Promessa cumprida.

 

— Você também prometeu, há anos, que um dia iria me matar. E hoje está aqui, pedindo a minha ajuda — respondeu Margareth, sorrindo com ar de quem tinha razão, e cruzou os braços.

 

— Não faltará oportunidade para isso. Garanto — Kate piscou um olho para ela, e o sorriso da bruxa desapareceu imediatamente.

 

Uma antiga amizade, que havia terminado em mágoas e conflitos, estava agora prestes a colocar à prova uma confiança que já não existia mais entre elas.

 

Kate queria, no fundo, poder confiar em Margareth.

 

E Margareth, por sua vez, não queria de jeito nenhum confiar em Kate. Mas, apesar de tudo, as duas tinham exatamente o mesmo pensamento naquele momento:

 

Se juntar ao inimigo, lutar ao lado dele… até que, no fim, sobreviva apenas uma.

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