Um dia de sol brilhante iluminava as ruas de Rust, aquecendo as pedras antigas da cidade e colocando um sorriso no rosto de quase todos os moradores. No centro, o movimento já era intenso: as portas dos pequenos comércios abriam cedo, e o burburinho de vozes, risadas e o som de carros davam vida ao lugar. Era começo de ano, e com a proximidade das férias de verão, a cidade se preparava para receber centenas de turistas — pessoas de todas as partes, obcecadas pelas lendas e histórias de terror que cercavam a pequena cidade histórica. Histórias contadas há gerações, pelas senhoras mais velhas nas praças, sobre uma guerra que nunca acabou: a eterna batalha entre bruxas, lobisomens e vampiros.
Em uma mercearia aconchegante, não muito longe do centro, estava Margareth. Com uma cesta de vime nas mãos, caminhava devagar entre as prateleiras, escolhendo ervas secas, raízes, alguns legumes e tudo o que julgava necessário para manter-se dentro de casa pelas próximas duas semanas. Algo dizia que seria melhor não sair.
Há alguns dias, o cordão que usava no pescoço — um presente antigo de sua tia Sara, que também fora uma bruxa poderosa — começara a mudar. Sempre que ela o tocava, uma névoa escura, pesada e densa, como fumaça de incêndio, aparecia diante de seus olhos, mostrando algo se aproximando de Rust. Lá no fundo, ela tentava não acreditar, ignorar os sinais, mas sabia exatamente o que aquilo significava. Fazia cerca de cento e cinquenta anos que aquele cordão, carregado de magia ancestral, não lhe mostrava nada. Estava quieto, adormecido. Pelo menos até agora.
— Margareth? — uma voz jovem chamou-a, tirando-a de seus pensamentos profundos e fazendo-a desviar o olhar de um maço de ervas secas.
Era Malcon, o atendente da loja. Um rapaz alto, de cabelos ruivos e sardas espalhadas pelo rosto, sempre fora muito amável com ela. Havia um brilho nos seus olhos que denunciava uma paixão platônica, um amor calado e inocente que ele cultivava há tempos.
— Oi, Malcon — ela sorriu, um sorriso educado, e caminhou até o balcão onde ele estava. — Como está tudo por aqui?
— Tudo bem, graças a Deus — ele respondeu, retribuindo o sorriso largo e animado. — Veio fazer estoque novamente? Parece que vai se trancar em casa por um mês! — brincou, arrumando as notas e moedas na caixa registradora do pequeno estabelecimento.
— É bem por aí… — ela olhou para uma prateleira ao lado, pegou algumas raízes e colocou na cesta. — Sinto que receberei visitas indesejadas nos próximos dias. E também… um pressentimento ruim, sabe? Aquele que nos faz querer ficar longe de tudo.
— Você e esses seus pressentimentos… — ele balançou a cabeça, sorrindo de leve, como quem não dá importância. Para Malcon, assim como para muitos moradores de Rust, aquelas histórias de criaturas sobrenaturais eram apenas lendas para assustar turistas. Ele não fazia ideia de que a moça por quem ele tinha uma queda era, na verdade, uma das criaturas mais poderosas daquelas lendas.
— Exatamente — disse ela secamente.
Margareth colocou a cesta sobre o balcão.
— Acho que é só isso, por enquanto — começou a tirar os itens um por um para que ele pudesse calcular o valor.
Conversaram amenidades por alguns minutos, até que ela bateu a testa com a palma da mão, percebendo o esquecimento.
— Esqueci da
Frethiu! Espera só um minuto, já volto.
Ela caminhou até o fundo da loja, onde havia uma bancada de madeira cheia de vidros e ervas raras. Passou os olhos com atenção até encontrar a flor que precisava, colheu alguns punhados e guardou em um saco de papel. Deu mais uma olhada geral para ter certeza de que não faltava nada, e foi nesse momento que sentiu: uma presença. Familiar, antiga e terrível.
Imediatamente, todos os pelos de seu corpo se arrepiaram, e seu coração disparou dentro do peito, batendo forte e rápido, como se quisesse saltar para fora. Ela sabia muito bem o que era, quem era… mas se recusava a aceitar que a audácia daquela mulher fosse tão grande a ponto de aparecer ali, em plena luz do dia, no meio de uma loja cheia de gente.
Devagar, virou o rosto para o lado esquerdo. A cerca de três metros de distância, parada entre as prateleiras, estava a figura magra, de pele excessivamente branca e fria, que ela conhecia tão bem.
A bruxa deu um passo à frente, ficando de frente para a mulher, mas sem se aproximar. A figura de cabelos longos e negros deu um sorriso preguiçoso, quase zombeteiro, e levantou a mão, balançando dois dedos num aceno lento e silencioso. Seus olhos, de um vermelho escuro e profundo, despertaram em Margareth uma enxurrada de lembranças — e a maioria delas era dolorosa, traumática.
Margareth cerrou os dentes, travando o maxilar de tensão. Ela sabia: onde estava Kate Hamilton, a paz nunca existia. Nunca existiu.
— Está tudo bem, Margareth? — a mão de Malcon tocou de leve o ombro dela, fazendo-a dar um pequeno salto de susto. — Desculpa, não quis te assustar… você pareceu se desligar do mundo de repente.
— Não… está tudo bem, sim — respondeu ela, passando por ele com um sorriso forçado, que não chegou aos olhos. Voltou depressa ao balcão, colocou tudo de volta na cesta, tirou algumas notas de sua bolsa pequena e deixou sobre o balcão.
Malcon ficou olhando para ela, visivelmente preocupado. Nunca a tinha visto com uma expressão tão dura, tão distante e assustada. Algo estava errado, mas ele não sabia o quê.
Ela saiu da loja andando depressa, quase correndo, e olhou para todos os lados na rua, procurando por qualquer sinal, por aqueles olhos vermelhos que pareciam persegui-la. Começou a caminhar em direção à saída da cidade, rumo à floresta, sempre alerta a cada movimento de folha, a cada sombra que se mexia.
Ao passar por um velho arbusto, coberto de rosas vermelhas, bem floridas e cheias de espinhos, ela parou.
—
Solve fasciculos oculis meis — sussurou baixo, o feitiço antigo que quebrava ilusões e proteções.
No mesmo instante, a cor de seus olhos, que antes eram castanhos comuns, mudou para um rosa brilhante e intenso. Com um gesto sutil das mãos, ela fez com que o arbusto denso se abrisse diante de si, como se fosse uma grande muralha que se curvasse diante do poder da bruxa, abrindo caminho para um atalho secreto.
Adentrou por uma parte da floresta onde nenhum morador normal de Rust se atrevia a ir — um lugar cercado por histórias de desaparecimentos e medos antigos. Seguiu por caminhos estreitos e cheios de árvores antigas até chegar à sua casa: uma construção de madeira e pedra, escondida no meio da mata. Assim que entrou, bateu a porta e a trancou com magia, selando cada fresta.
—
Ut fores aperire et intrare lamia… — murmurou, sentando-se no sofá e levando as mãos à cabeça, tomada pela preocupação.
O que eu faço agora?, pensava sem parar. Não fazia tanto tempo assim desde a última vez que tinha visto Kate, e já fora o suficiente.
— Preocupação causa rugas, sabia? — a voz veio de trás, calma e divertida.
Margareth levantou-se num salto, virando-se rapidamente para trás. A mesma mulher de pele branca que tinha visto na mercearia agora estava ali, dentro da sua sala, a menos de um metro de distância. A bruxa ficou parada, imóvel, enquanto a vampira se mantinha encostada à mesa da cozinha, com toda a calma do mundo.
—
Expiáti ignes! — começou Margareth, erguendo a mão pronta para lançar fogo.
— Não faça isso, Mag… — Kate pediu, sentando-se confortavelmente em uma das cadeiras, cruzando as pernas. — Vim em paz. — ergueu as mãos num gesto de rendição irônica.
Suas roupas eram todas pretas, combinando com a cor do cabelo que caía liso e pesado sobre os ombros. Aquele sorriso preguiçoso ainda estava em seu rosto, como se a presença de uma bruxa furiosa e pronta para atacar não fosse nenhum perigo para ela.
— Você nunca vem em paz, Hamilton. Nunca — disse Margareth, firme, sem abaixar a guarda. — O que está fazendo dentro da minha casa?
— Fui convidada, lembra? — Kate respondeu, como se fosse o fato mais óbvio do mundo.
— Não foi não. Não para esta casa — rebateu a bruxa.
A mulher de cabelos negros sorriu, mostrando os dentes, e recostou-se melhor na cadeira.
— Uma vez convidada, sempre convidada. Você sabe disso melhor do que ninguém, querida bruxa. — Kate enrolou uma mecha de cabelo entre os dedos longos e finos. — Na verdade, eu pensei que teria uma recepção um pouco mais calorosa vinda de uma velha amiga…
Os olhos de Kate brilharam, passando de um vermelho escuro para um tom mais vivo e brilhante, cheio de intenção.
— Não sou sua amiga — Margareth caminhou até ela e parou bem à sua frente, olhando-a de cima. — Saia da minha casa. Agora.
— Isso magoa, sabia? — Kate fez um movimento rápido com a mão e, num piscar de olhos, já estava do outro lado da sala, perto da estante de livros. — É engraçado você dizer que nunca fui sua amiga… mas na época em que os seus feitiços não foram suficientes para salvar a si mesma ou a quem você amava… — num segundo movimento, ainda mais rápido, ela já estava novamente bem diante do rosto de Margareth, sussurrando — …eu é que fui sua amiga. Eu é que te ajudei.
A vampira deu ênfase especial nas palavras, chamando-a de “bruxa” com um tom de desprezo e superioridade.
Margareth ficou em silêncio, sentindo um peso enorme no peito. Lembrava-se muito bem daqueles dias. No fundo, sentia vergonha e remorso por, um dia, ter pedido um favor tão grande a Kate Hamilton. Naquele tempo, preferia ter encarado a própria morte do que ter que ficar devendo algo a ela.
— Isso foi há cento e cinquenta anos atrás — disse Margareth, por fim, com a voz firme, tentando esconder o abalo.
— E daí? — Kate deu de ombros, caminhando tranquilamente e se jogando no sofá da sala, como se estivesse em sua própria casa. — Mas eu ainda estou esperando o retorno. Você me deve um favor, Margareth. E eu vim cobrar. — Ela olhou firme nos olhos da bruxa. — Tem algo muito grande vindo aí, algo que vai destruir tudo o que existe em Rust… e eu preciso da sua ajuda.
— Mate-me agora, se quiser, mas não vou ajudar você em nada — respondeu Margareth, indo até a cozinha com a cesta nas mãos e começando a guardar os mantimentos nos armários. Ela sabia que Kate não iria embora apenas com um “não”. Nunca ia.
— Não vou te matar. Ainda não… — Kate levantou-se do sofá e caminhou até a porta de saída, segurando a maçaneta de metal. Imediatamente, soltou-a com um movimento brusco, como se tivesse levado um choque ou uma queimadura. Havia uma marca avermelhada em sua pele branca. Ela sorriu, sem se abalar, e olhou para Margareth. — Isso não foi nada legal da sua parte. Selou a porta com magia de proteção contra mim, não foi?
Sem dar tempo de reação, Margareth ergueu a mão e lançou uma flecha de energia brilhante que atravessou o ar e acertou Kate bem na barriga, perfurando o tecido preto da blusa.
Com uma velocidade sobrenatural, num movimento quase imperceptível, Kate chegou até a bruxa, agarrou seu pescoço com força e ergueu-a do chão, deixando seus pés balançando no ar. Com a outra mão, ela pressionou o ferimento na barriga, de onde o sangue vermelho escuro começava a escorrer.
— Você é tão má, Mag… — cuspiu o apelido com raiva, os olhos brilhando de fúria. — Desfaça o feitiço. Agora!
Tirou a flecha de seu próprio corpo e, com a mesma velocidade, cravou a flecha ainda quente e ensanguentada na barriga de Margareth, no mesmo lugar onde havia sido atingida.
A bruxa arregalou os olhos, sentindo uma dor aguda e insuportável tomar conta do seu corpo, e começou a sufocar por falta de ar.
—
Undo… — conseguiu sussurrar com dificuldade, quebrando o encanto nas portas e janelas.
— Obrigada — Kate sorriu, um sorriso falso e cruel, e largou Margareth no chão com violência.
A bruxa caiu de joelhos, tossindo e tentando recuperar o fôlego.
— Da próxima vez, tente ser mais receptiva com suas visitas… — disse Kate, pegando um pano que estava sobre a mesa de centro e limpando o próprio sangue que escorria pela cintura. — Olha só o que você fez… estragou a minha blusa preferida.
— Vampira desgraçada… — murmurou Margareth, ainda sentada no chão, pressionando o ferimento.
Kate jogou o pano sujo sobre a mesa e se agachou devagar ao lado da antiga amiga, ficando cara a cara com ela.
— Eu devia era ter te matado há cem anos atrás, quando te separei de tudo e te sequei para fora da cidade… — ela sorriu, lembrando-se. — Naquela época, eu realmente acreditei em você. Acreditei que podíamos ser diferentes. E você… você foi uma grande vadia comigo. Traiu minha confiança.
— Fiz o que era preciso para proteger a minha gente — respondeu Margareth, com a voz fraca, arrancando a flecha de seu próprio corpo. Para seu alívio, viu que a ferida já começava a fechar e cicatrizar graças à sua magia de cura.
— Imagino… — Kate levantou-se e deu as costas para ela, caminhando em direção à porta agora livre de magia. — Sabe onde me encontrar quando finalmente entender o que está para chegar. E acredite, bruxa… o pior ainda está por vir.
E então, como um vulto negro que se dissolve no ar, Kate Hamilton desapareceu, deixando para trás apenas o silêncio e o cheiro forte de sangue e magia.
Margareth levou um tempo até conseguir se levantar do chão. Caminhou até a parede e tocou o cordão antigo em seu pescoço, fechando os olhos e pedindo ajuda aos seus ancestrais, pedindo alguma luz, alguma forma de parar o que estava por vir. Ela podia sentir: uma onda de morte e destruição se aproximava de Rust, maior do que qualquer outra que já tivessem visto.
Ela sabia o que precisava fazer, por mais que doesse, por mais que fosse contra tudo o que sempre acreditou.
Ela precisava deter Kate Hamilton.
E para isso… teria que deixar de lado ódios antigos e aliar-se ao inimigo.