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O tique-taque do relógio de pêndulo no corredor ecoava como o bater de um martelo de juiz sentenciando o silêncio da casa. No quarto penumbroso, iluminado apenas pela luz prateada e fantasmagórica da lua cheia que atravessava as cortinas de voil, Eloise movia-se com a urgência de uma presa.
O cheiro de naftalina e couro envelhecido subiu de sua mala aberta sobre a cama. Suas mãos tremiam ao dobrar um cardigã de lã, a textura áspera pinicando a pele sensível da ponta dos dedos, úmida de suor frio. Seu coração batia descompassado, um tambor frenético contra as costelas, abafando até mesmo o som de sua própria respiração irregular. Meia-noite e doze. Riche estaria no portão dos fundos. Ela quase podia sentir o cheiro de sabão neutro e óleo de motor que sempre impregnava a jaqueta dele, um aroma que para ela significava liberdade. O som da maçaneta girando não foi um estalo, mas um sussurro metálico, oleoso e terrível. Eloise congelou. O ar em seus pulmões petrificou. A porta se abriu devagar, revelando a silhueta esguia recortada pela luz do corredor. Virgínia Dorantes Montener não entrou; ela deslizou para dentro do cômodo. O aroma de Fracas — tuberosa pesada e inebriante — invadiu o espaço antes mesmo dela, sufocando o cheiro de couro e liberdade. — O azul não favorece sua pele pálida à noite, querida. A voz de Virgínia era veludo arrastado sobre cascalho. Suave, mas com uma dureza implacável por baixo. Eloise girou o corpo, protegendo a mala com as costas, um gesto instintivo e inútil. Sua mãe estava impecável. O robe de seda cor de vinho escorria por seu corpo como sangue líquido, e em sua mão, uma taça de cristal refletia o brilho predatório de seus olhos. — Mãe... eu estava apenas... organizando algumas doações — mentiu Eloise. A mentira tinha gosto de cinzas na boca. Virgínia deu um passo à frente. O som de seus chinelos de salto no assoalho de madeira era abafado, mas deliberado. Ela estendeu a mão, os dedos longos e adornados com anéis frios tocando o rosto da filha. A pele de Eloise arrepiou-se com o contato gélido. — Não insulte minha inteligência, Eloise. — Os olhos de Virgínia varreram a mala, capturando a essência da fuga patética. — Você ia fugir com o motorista. Aquele rapaz com mãos sujas e futuro inexistente. — Eu o amo — a voz de Eloise saiu estrangulada, pequena. — Nós vamos embora. Papai deixou dinheiro, eu sei que temos... Uma risada seca cortou o ar, desprovida de qualquer humor. Virgínia caminhou até a janela, olhando para a escuridão do jardim como se fosse a dona da noite. — Seu pai — ela cuspiu a palavra — deixou um império de fumaça. Dívidas, Eloise. Dívidas que cheiram a fracasso e humilhação. A casa, os carros, até mesmo este colar no meu pescoço... tudo pertence aos credores. Eloise sentiu o chão ceder sob seus pés, uma vertigem nauseante. — Estamos... falidas? — Você estaria. Eu não pretendo viver na miséria. — Virgínia virou-se, o rosto uma máscara de porcelana dura. — Eu resolvi o problema. Fiz o que era necessário para manter nosso nome limpo e nosso teto seguro. — Como? — A pergunta pairou no ar, pesada. — Riche não está mais esperando. — Virgínia tomou um gole lento de seu vinho, saboreando o pânico que brotava nos olhos da filha. — A segurança o encontrou "roubando" a prataria da família. Uma acusação lamentável. Ele preferiu sair da cidade agora mesmo a enfrentar a polícia. — Não! — O grito rasgou a garganta de Eloise. A dor física da traição a fez dobrar o corpo. — Ele nunca faria isso! Você está mentindo! Virgínia ignorou o surto, aproximando-se novamente. Ela segurou o queixo de Eloise, forçando-a a encará-la. A pressão dos dedos era dolorosa, cravando na mandíbula. — O amor de serviçais é volúvel diante de uma ameaça de prisão, minha filha. Cresça. — Ela soltou o rosto de Eloise com desdém. — Enxugue essas lágrimas. Elas a deixam inchada, e amanhã você precisa estar perfeita. — Amanhã? — Eloise soluçou, o gosto salgado das lágrimas invadindo seus lábios. — Aubrey Van Der Mors virá buscá-la para o jantar. O nome caiu sobre o quarto como uma bigorna. Eloise arregalou os olhos, o terror substituindo a tristeza. Aubrey Van Der Mors. O herdeiro bilionário conhecido por suas orgias, sua violência em boates e um olhar que despia e descartava mulheres como objetos descartáveis. — O filho do Sr. Van Der Mors? — Eloise recuou até suas pernas baterem na cama. — Mãe, ele é... ele é um monstro. As histórias... — Ele é o homem que pagou nossas dívidas — cortou Virgínia, a voz afiada como aço cirúrgico. — O velho Van Der Mors obrigou o filho a se casar para assumir a presidência. Eles precisavam de um útero de uma linhagem tradicional. De uma virgem de boa família. E eu vendi a única coisa de valor que nos restou. Eloise olhou para a mãe, vendo pela primeira vez a estranha desconexão em seu olhar. Não havia remorso. Havia apenas cálculo. Ela não sabia da história sórdida entre sua mãe e o pai de Aubrey, não entendia por que o velho Van Der Mors aceitaria aquele acordo, mas sentia o peso da transação em sua pele. Ela não era mais uma filha; era uma mercadoria. — Você me vendeu... — sussurrou Eloise, a náusea subindo. — Eu garanti sua sobrevivência — corrigiu Virgínia, caminhando para a porta. Antes de sair, ela parou, a sombra engolindo metade de seu rosto belo e cruel. — Use o vestido branco amanhã. E não ouse abrir a boca. Sua inocência é o que está pagando por este teto. Aubrey pode ser um animal, mas é um animal rico. Aprenda a ser a domadora, ou será a presa. A porta se fechou com aquele mesmo clique suave. No silêncio que se seguiu, Eloise ouviu apenas o som do relógio lá fora, marcando os segundos de uma vida que não lhe pertencia mais. *** A manhã não trouxe o sol. O céu lá fora era uma massa cinzenta e opressiva, pressionando contra as janelas altas da mansão como uma mão suja tentando entrar. Já era noite, e logo Aubrey Van Der Mors iria vir buscar sua mercadoria. Dentro do quarto, o silêncio era quebrado apenas pelo som úmido de uma esponja sendo espremida. Eloise encarava seu reflexo no espelho veneziano da penteadeira. A garota que a olhava de volta parecia uma estranha. Os olhos estavam inchados e avermelhados, a pele pálida, quase translúcida, marcada pelas olheiras de uma noite passada em claro, chorando até que não restasse mais água em seu corpo. — Cubra isso. — A ordem de Virgínia, dada mais cedo, ainda ecoava em sua mente. Com movimentos mecânicos, Eloise mergulhou o pincel na base líquida. A cerda fria tocou sua bochecha, pintando sobre a tristeza, escondendo a humanidade sob uma camada de perfeição artificial. Ela estava apagando a si mesma. Sobre a cama, estendido como um cadáver, jazia o vestido. Não era um vestido qualquer. Era uma peça de alta costura, branco-gelo, seda pura que custava mais do que o salário anual de Riche. Riche. O nome provocou uma pontada física em seu peito, como uma costela quebrada perfurando o pulmão. Ela engoliu o grito, forçando-o para baixo com um gole de água morna que estava na cabeceira. Ela se levantou, as pernas pesadas como chumbo, e caminhou até a cama. Ao tocar o tecido do vestido, sentiu a maciez escorregadia. Era lindo. E era uma mentira. Eloise despiu o pijama de flanela, ficando nua no centro do quarto frio. O arrepio que percorreu sua espinha não foi apenas térmico. Sentiu-se exposta, como gado no abatedouro aguardando a inspeção. Ao vestir a peça, o tecido frio deslizou sobre sua pele, moldando-se às suas curvas com uma precisão sufocante. O zíper nas costas subiu com um sibilo agudo, prendendo-a. Ela olhou para baixo. O branco imaculado do vestido parecia zombar da mancha escura que se alastrava em sua alma. Virgínia queria pureza. Aubrey Van Der Mors queria uma virgem. Ela lhes daria a embalagem, mas o conteúdo estava podre de ódio. Ela prendeu o cabelo em um coque baixo, severo, expondo o pescoço longo e vulnerável. “Como Ana Bolena antes da espada,” pensou, um pensamento mórbido que lhe trouxe um sorriso amargo e quase imperceptível. De repente, o som rompeu a quietude da casa. Não foi uma batida na porta. Foi um rugido. O som grave, potente e gutural de um motor de alto desempenho rasgando a entrada de cascalho da mansão. O barulho vibrou através das vidraças, fazendo os frascos de perfume na penteadeira tilintarem levemente. Eloise correu para a janela, escondendo-se atrás da cortina de veludo pesado. Lá embaixo, um carro esportivo preto, baixo e agressivo, parou diante da escadaria principal como um predador pousando. A lataria brilhava sob o céu cinza, refletindo o mundo distorcido. A porta do motorista se abriu. Uma bota de couro preto tocou o chão. Depois, pernas longas em calças de alfaiataria escura. Aubrey Van Der Mors saiu do veículo. Mesmo de longe, a presença dele era uma onda de choque. Ele era alto, impondo-se contra o cenário com ombros largos que esticavam o tecido do terno grafite. Ele não olhou para a porta da frente. Ele olhou para cima. Direto para a janela dela. Eloise prendeu a respiração, recuando instintivamente, mas sabia que era tarde. Mesmo através do vidro e da distância, ela sentiu o peso daquele olhar. Frio. Avaliativo. Possessivo. Ele sabia exatamente onde ela estava. E ele tinha vindo cobrar sua dívida. Alguém bateu na porta do quarto. — Eloise? — A voz da empregada soou trêmula do outro lado. — O Sr. Van Der Mors chegou. Sua mãe está esperando no saguão. Era hora. Eloise alisou a saia do vestido branco, sentindo o tecido chiar sob seus dedos suados. Ela ergueu o queixo, uma tentativa final e desesperada de reunir os cacos de sua dignidade. — Estou indo — ela respondeu, e sua voz soou estranhamente calma, como a calmaria no olho de um furacão. Ela caminhou para a porta, pronta para descer ao inferno. A escadaria principal da mansão Montener era uma curva elegante de mogno e ferro forjado, projetada para grandes entradas triunfais. Mas, enquanto Eloise dava o primeiro passo, sentia que estava descendo para o cadafalso. O silêncio lá embaixo era pesado, interrompido apenas pelo tilintar sutil de gelo contra cristal. A cada degrau que descia, o cenário se revelava. Virgínia estava parada perto da lareira apagada, uma pose estudada de elegância relaxada, segurando um copo de uísque que oferecia ao ar vazio. E então, ela o viu. Aubrey Van Der Mors não estava sentado. Ele estava de pé no centro do saguão, virado de costas para Virgínia, ignorando-a deliberadamente. Ele examinava um quadro na parede — uma paisagem pastoral medíocre — com um tédio que beirava a insulto. Ele era mais alto do que parecia nas fotos dos tabloides. O terno grafite de corte italiano abraçava ombros largos e uma postura rígida, militar. O cabelo escuro estava penteado para trás de forma severa, revelando um perfil anguloso, como se tivesse sido esculpido em granito. Eloise segurou o corrimão com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O rangido suave da madeira sob seu pé o alertou. Aubrey não se virou imediatamente. Ele girou o corpo devagar, com a letargia de um predador que sabe que a saída está bloqueada. Quando seus olhos encontraram os dela, o ar fugiu dos pulmões de Eloise. Eles eram de um azul pálido, gélido, quase incolor. Olhos de inverno. Não havia calor, nem curiosidade, nem mesmo luxúria. Havia apenas um reconhecimento cínico. Ele a dissecou visualmente, começando pelo coque severo, descendo pelo pescoço exposto, o corpete justo do vestido branco, até a bainha de seda que roçava o chão. — Ah, aí está ela! — A voz de Virgínia quebrou o transe, estridente demais, falsa demais. — Aubrey, querido, esta é minha filha, Eloise. Aubrey ignorou Virgínia completamente. Ele não desviou o olhar de Eloise enquanto ela terminava de descer os últimos degraus, sentindo-se pequena, exposta e ridícula naquele vestido de noiva improvisado. Ele deu dois passos em direção a ela. O cheiro dele a atingiu antes do toque: sândalo, tabaco caro e algo metálico, frio, como a chuva no asfalto. — Branco — ele disse. A voz era um barítono profundo, vibrando no peito de Eloise. Não foi um elogio. A palavra saiu de sua boca carregada de escárnio. — É... é seda pura — Virgínia interveio, aproximando-se com um sorriso nervoso. — Achei que a ocasião pedia algo... — Eu não estava falando com a cafetina — Aubrey cortou, sem nem olhar para a mãe dela. O tom foi calmo, mas a palavra cafetina estalou no saguão como um chicote. Eloise engasgou, chocada. Virgínia empalideceu, o sorriso congelando e morrendo nos lábios, mas ela não retrucou. O poder do dinheiro de Aubrey a amordaçava. Aubrey finalmente parou diante de Eloise. Ele era tão alto que ela teve que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Ele invadia seu espaço pessoal, sugando o oxigênio ao redor. — Você sabe por que estou aqui, Eloise? — ele perguntou. — Para... para o jantar — ela sussurrou. Sua voz tremeu, traindo o medo que ela tentava desesperadamente esconder. Um canto da boca dele se curvou. Não era um sorriso. Era um aviso. — Não haverá jantar. Eu não como em casas construídas sobre mentiras e dívidas. Ele estendeu a mão. Eloise recuou instintivamente, mas ele foi mais rápido. Seus dedos longos e quentes envolveram o pulso dela. Não foi um aperto forte, mas foi firme, possessivo. Uma algema de carne e osso. — Pegue suas coisas — ele ordenou, os olhos frios perfurando os dela. — O contrato estipula posse imediata. Você vem comigo agora. — Agora? — O pânico explodiu no peito dela. Ela olhou para a mãe, buscando socorro, qualquer sinal de proteção materna. — Mãe? Virgínia estava imóvel, recuperando a compostura, alisando o vestido. Ela evitou o olhar da filha, focando no cheque imaginário que aquela partida representava. — É melhor fazer o que ele diz, Eloise. Vá com ele. Mandarei que levem sua mala para o carro imediatamente. A traição foi completa. O silêncio de Eloise foi preenchido apenas pelo som do coração batendo nos ouvidos. Aubrey soltou uma risada curta e sem humor, observando a troca de olhares entre mãe e filha. — Patético — ele murmurou, voltando a atenção para Eloise. Ele se inclinou, os lábios roçando a orelha dela, enviando um arrepio violento por sua espinha. — Olhe bem para ela, doce Eloise. Lembre-se deste momento. Foi o momento em que sua santa mãe te vendeu para o diabo para não perder as joias. Ele se afastou, puxando-a pelo pulso em direção à porta pesada de carvalho, sem esperar resposta, sem esperar despedidas. — Vamos. Meu tempo vale mais do que a vida inteira de vocês duas somadas. Eloise tropeçou, obrigada a acompanhá-lo, o vestido branco arrastando no chão como um fantasma, enquanto era arrastada para fora da única vida que conhecia, direto para a escuridão daquela noite tempestuosa que ameaçava engolir a cidade em água e para o carro daquele estranho que a odiava.






