Gaiola de Vidro
Gaiola de Vidro
Por: B.A. Bouvier
1. Vendida

O tique-taque do relógio de pêndulo no corredor ecoava como o bater de um martelo de juiz sentenciando o silêncio da casa. No quarto penumbroso, iluminado apenas pela luz prateada e fantasmagórica da lua cheia que atravessava as cortinas de voil, Eloise movia-se com a urgência de uma presa.

​O cheiro de naftalina e couro envelhecido subiu de sua mala aberta sobre a cama. Suas mãos tremiam ao dobrar um cardigã de lã, a textura áspera pinicando a pele sensível da ponta dos dedos, úmida de suor frio. Seu coração batia descompassado, um tambor frenético contra as costelas, abafando até mesmo o som de sua própria respiração irregular.

​Meia-noite e doze.

​Riche estaria no portão dos fundos. Ela quase podia sentir o cheiro de sabão neutro e óleo de motor que sempre impregnava a jaqueta dele, um aroma que para ela significava liberdade.

​O som da maçaneta girando não foi um estalo, mas um sussurro metálico, oleoso e terrível.

​Eloise congelou. O ar em seus pulmões petrificou.

​A porta se abriu devagar, revelando a silhueta esguia recortada pela luz do corredor. Virgínia Dorantes Montener não entrou; ela deslizou para dentro do cômodo. O aroma de Fracas — tuberosa pesada e inebriante — invadiu o espaço antes mesmo dela, sufocando o cheiro de couro e liberdade.

​— O azul não favorece sua pele pálida à noite, querida.

​A voz de Virgínia era veludo arrastado sobre cascalho. Suave, mas com uma dureza implacável por baixo.

​Eloise girou o corpo, protegendo a mala com as costas, um gesto instintivo e inútil. Sua mãe estava impecável. O robe de seda cor de vinho escorria por seu corpo como sangue líquido, e em sua mão, uma taça de cristal refletia o brilho predatório de seus olhos.

​— Mãe... eu estava apenas... organizando algumas doações — mentiu Eloise. A mentira tinha gosto de cinzas na boca.

​Virgínia deu um passo à frente. O som de seus chinelos de salto no assoalho de madeira era abafado, mas deliberado. Ela estendeu a mão, os dedos longos e adornados com anéis frios tocando o rosto da filha. A pele de Eloise arrepiou-se com o contato gélido.

​— Não insulte minha inteligência, Eloise. — Os olhos de Virgínia varreram a mala, capturando a essência da fuga patética. — Você ia fugir com o motorista. Aquele rapaz com mãos sujas e futuro inexistente.

​— Eu o amo — a voz de Eloise saiu estrangulada, pequena. — Nós vamos embora. Papai deixou dinheiro, eu sei que temos...

​Uma risada seca cortou o ar, desprovida de qualquer humor. Virgínia caminhou até a janela, olhando para a escuridão do jardim como se fosse a dona da noite.

​— Seu pai — ela cuspiu a palavra — deixou um império de fumaça. Dívidas, Eloise. Dívidas que cheiram a fracasso e humilhação. A casa, os carros, até mesmo este colar no meu pescoço... tudo pertence aos credores.

​Eloise sentiu o chão ceder sob seus pés, uma vertigem nauseante.

​— Estamos... falidas?

​— Você estaria. Eu não pretendo viver na miséria. — Virgínia virou-se, o rosto uma máscara de porcelana dura. — Eu resolvi o problema. Fiz o que era necessário para manter nosso nome limpo e nosso teto seguro.

​— Como? — A pergunta pairou no ar, pesada.

​— Riche não está mais esperando. — Virgínia tomou um gole lento de seu vinho, saboreando o pânico que brotava nos olhos da filha. — A segurança o encontrou "roubando" a prataria da família. Uma acusação lamentável. Ele preferiu sair da cidade agora mesmo a enfrentar a polícia.

​— Não! — O grito rasgou a garganta de Eloise. A dor física da traição a fez dobrar o corpo. — Ele nunca faria isso! Você está mentindo!

​Virgínia ignorou o surto, aproximando-se novamente. Ela segurou o queixo de Eloise, forçando-a a encará-la. A pressão dos dedos era dolorosa, cravando na mandíbula.

​— O amor de serviçais é volúvel diante de uma ameaça de prisão, minha filha. Cresça. — Ela soltou o rosto de Eloise com desdém. — Enxugue essas lágrimas. Elas a deixam inchada, e amanhã você precisa estar perfeita.

​— Amanhã? — Eloise soluçou, o gosto salgado das lágrimas invadindo seus lábios.

​— Aubrey Van Der Mors virá buscá-la para o jantar.

​O nome caiu sobre o quarto como uma bigorna. Eloise arregalou os olhos, o terror substituindo a tristeza. Aubrey Van Der Mors. O herdeiro bilionário conhecido por suas orgias, sua violência em boates e um olhar que despia e descartava mulheres como objetos descartáveis.

​— O filho do Sr. Van Der Mors? — Eloise recuou até suas pernas baterem na cama. — Mãe, ele é... ele é um monstro. As histórias...

​— Ele é o homem que pagou nossas dívidas — cortou Virgínia, a voz afiada como aço cirúrgico. — O velho Van Der Mors obrigou o filho a se casar para assumir a presidência. Eles precisavam de um útero de uma linhagem tradicional. De uma virgem de boa família. E eu vendi a única coisa de valor que nos restou.

​Eloise olhou para a mãe, vendo pela primeira vez a estranha desconexão em seu olhar. Não havia remorso. Havia apenas cálculo. Ela não sabia da história sórdida entre sua mãe e o pai de Aubrey, não entendia por que o velho Van Der Mors aceitaria aquele acordo, mas sentia o peso da transação em sua pele. Ela não era mais uma filha; era uma mercadoria.

​— Você me vendeu... — sussurrou Eloise, a náusea subindo.

​— Eu garanti sua sobrevivência — corrigiu Virgínia, caminhando para a porta. Antes de sair, ela parou, a sombra engolindo metade de seu rosto belo e cruel. — Use o vestido branco amanhã. E não ouse abrir a boca. Sua inocência é o que está pagando por este teto. Aubrey pode ser um animal, mas é um animal rico. Aprenda a ser a domadora, ou será a presa.

​A porta se fechou com aquele mesmo clique suave. No silêncio que se seguiu, Eloise ouviu apenas o som do relógio lá fora, marcando os segundos de uma vida que não lhe pertencia mais.

***

​A manhã não trouxe o sol. O céu lá fora era uma massa cinzenta e opressiva, pressionando contra as janelas altas da mansão como uma mão suja tentando entrar. Já era noite, e logo Aubrey Van Der Mors iria vir buscar sua mercadoria.

​Dentro do quarto, o silêncio era quebrado apenas pelo som úmido de uma esponja sendo espremida. Eloise encarava seu reflexo no espelho veneziano da penteadeira. A garota que a olhava de volta parecia uma estranha. Os olhos estavam inchados e avermelhados, a pele pálida, quase translúcida, marcada pelas olheiras de uma noite passada em claro, chorando até que não restasse mais água em seu corpo.

​— Cubra isso. — A ordem de Virgínia, dada mais cedo, ainda ecoava em sua mente.

​Com movimentos mecânicos, Eloise mergulhou o pincel na base líquida. A cerda fria tocou sua bochecha, pintando sobre a tristeza, escondendo a humanidade sob uma camada de perfeição artificial. Ela estava apagando a si mesma.

​Sobre a cama, estendido como um cadáver, jazia o vestido. Não era um vestido qualquer. Era uma peça de alta costura, branco-gelo, seda pura que custava mais do que o salário anual de Riche. Riche. O nome provocou uma pontada física em seu peito, como uma costela quebrada perfurando o pulmão. Ela engoliu o grito, forçando-o para baixo com um gole de água morna que estava na cabeceira.

​Ela se levantou, as pernas pesadas como chumbo, e caminhou até a cama. Ao tocar o tecido do vestido, sentiu a maciez escorregadia. Era lindo. E era uma mentira.

​Eloise despiu o pijama de flanela, ficando nua no centro do quarto frio. O arrepio que percorreu sua espinha não foi apenas térmico. Sentiu-se exposta, como gado no abatedouro aguardando a inspeção.

​Ao vestir a peça, o tecido frio deslizou sobre sua pele, moldando-se às suas curvas com uma precisão sufocante. O zíper nas costas subiu com um sibilo agudo, prendendo-a. Ela olhou para baixo. O branco imaculado do vestido parecia zombar da mancha escura que se alastrava em sua alma. Virgínia queria pureza. Aubrey Van Der Mors queria uma virgem. Ela lhes daria a embalagem, mas o conteúdo estava podre de ódio.

​Ela prendeu o cabelo em um coque baixo, severo, expondo o pescoço longo e vulnerável. “Como Ana Bolena antes da espada,” pensou, um pensamento mórbido que lhe trouxe um sorriso amargo e quase imperceptível.

​De repente, o som rompeu a quietude da casa.

​Não foi uma batida na porta. Foi um rugido. O som grave, potente e gutural de um motor de alto desempenho rasgando a entrada de cascalho da mansão. O barulho vibrou através das vidraças, fazendo os frascos de perfume na penteadeira tilintarem levemente.

​Eloise correu para a janela, escondendo-se atrás da cortina de veludo pesado.

​Lá embaixo, um carro esportivo preto, baixo e agressivo, parou diante da escadaria principal como um predador pousando. A lataria brilhava sob o céu cinza, refletindo o mundo distorcido. A porta do motorista se abriu.

​Uma bota de couro preto tocou o chão. Depois, pernas longas em calças de alfaiataria escura.

​Aubrey Van Der Mors saiu do veículo.

​Mesmo de longe, a presença dele era uma onda de choque. Ele era alto, impondo-se contra o cenário com ombros largos que esticavam o tecido do terno grafite. Ele não olhou para a porta da frente. Ele olhou para cima.

​Direto para a janela dela.

​Eloise prendeu a respiração, recuando instintivamente, mas sabia que era tarde. Mesmo através do vidro e da distância, ela sentiu o peso daquele olhar. Frio. Avaliativo. Possessivo.

​Ele sabia exatamente onde ela estava. E ele tinha vindo cobrar sua dívida.

​Alguém bateu na porta do quarto.

​— Eloise? — A voz da empregada soou trêmula do outro lado. — O Sr. Van Der Mors chegou. Sua mãe está esperando no saguão.

​Era hora.

​Eloise alisou a saia do vestido branco, sentindo o tecido chiar sob seus dedos suados. Ela ergueu o queixo, uma tentativa final e desesperada de reunir os cacos de sua dignidade.

​— Estou indo — ela respondeu, e sua voz soou estranhamente calma, como a calmaria no olho de um furacão.

​Ela caminhou para a porta, pronta para descer ao inferno.

A escadaria principal da mansão Montener era uma curva elegante de mogno e ferro forjado, projetada para grandes entradas triunfais. Mas, enquanto Eloise dava o primeiro passo, sentia que estava descendo para o cadafalso.

​O silêncio lá embaixo era pesado, interrompido apenas pelo tilintar sutil de gelo contra cristal.

​A cada degrau que descia, o cenário se revelava. Virgínia estava parada perto da lareira apagada, uma pose estudada de elegância relaxada, segurando um copo de uísque que oferecia ao ar vazio.

​E então, ela o viu.

​Aubrey Van Der Mors não estava sentado. Ele estava de pé no centro do saguão, virado de costas para Virgínia, ignorando-a deliberadamente. Ele examinava um quadro na parede — uma paisagem pastoral medíocre — com um tédio que beirava a insulto.

​Ele era mais alto do que parecia nas fotos dos tabloides. O terno grafite de corte italiano abraçava ombros largos e uma postura rígida, militar. O cabelo escuro estava penteado para trás de forma severa, revelando um perfil anguloso, como se tivesse sido esculpido em granito.

​Eloise segurou o corrimão com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O rangido suave da madeira sob seu pé o alertou.

​Aubrey não se virou imediatamente. Ele girou o corpo devagar, com a letargia de um predador que sabe que a saída está bloqueada.

​Quando seus olhos encontraram os dela, o ar fugiu dos pulmões de Eloise.

​Eles eram de um azul pálido, gélido, quase incolor. Olhos de inverno. Não havia calor, nem curiosidade, nem mesmo luxúria. Havia apenas um reconhecimento cínico. Ele a dissecou visualmente, começando pelo coque severo, descendo pelo pescoço exposto, o corpete justo do vestido branco, até a bainha de seda que roçava o chão.

​— Ah, aí está ela! — A voz de Virgínia quebrou o transe, estridente demais, falsa demais. — Aubrey, querido, esta é minha filha, Eloise.

​Aubrey ignorou Virgínia completamente. Ele não desviou o olhar de Eloise enquanto ela terminava de descer os últimos degraus, sentindo-se pequena, exposta e ridícula naquele vestido de noiva improvisado.

​Ele deu dois passos em direção a ela. O cheiro dele a atingiu antes do toque: sândalo, tabaco caro e algo metálico, frio, como a chuva no asfalto.

​— Branco — ele disse. A voz era um barítono profundo, vibrando no peito de Eloise. Não foi um elogio. A palavra saiu de sua boca carregada de escárnio.

​— É... é seda pura — Virgínia interveio, aproximando-se com um sorriso nervoso. — Achei que a ocasião pedia algo...

​— Eu não estava falando com a cafetina — Aubrey cortou, sem nem olhar para a mãe dela. O tom foi calmo, mas a palavra cafetina estalou no saguão como um chicote.

​Eloise engasgou, chocada. Virgínia empalideceu, o sorriso congelando e morrendo nos lábios, mas ela não retrucou. O poder do dinheiro de Aubrey a amordaçava.

​Aubrey finalmente parou diante de Eloise. Ele era tão alto que ela teve que inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Ele invadia seu espaço pessoal, sugando o oxigênio ao redor.

​— Você sabe por que estou aqui, Eloise? — ele perguntou.

​— Para... para o jantar — ela sussurrou. Sua voz tremeu, traindo o medo que ela tentava desesperadamente esconder.

​Um canto da boca dele se curvou. Não era um sorriso. Era um aviso.

​— Não haverá jantar. Eu não como em casas construídas sobre mentiras e dívidas.

​Ele estendeu a mão. Eloise recuou instintivamente, mas ele foi mais rápido. Seus dedos longos e quentes envolveram o pulso dela. Não foi um aperto forte, mas foi firme, possessivo. Uma algema de carne e osso.

​— Pegue suas coisas — ele ordenou, os olhos frios perfurando os dela. — O contrato estipula posse imediata. Você vem comigo agora.

​— Agora? — O pânico explodiu no peito dela. Ela olhou para a mãe, buscando socorro, qualquer sinal de proteção materna. — Mãe?

​Virgínia estava imóvel, recuperando a compostura, alisando o vestido. Ela evitou o olhar da filha, focando no cheque imaginário que aquela partida representava.

​— É melhor fazer o que ele diz, Eloise. Vá com ele. Mandarei que levem sua mala para o carro imediatamente.

​A traição foi completa. O silêncio de Eloise foi preenchido apenas pelo som do coração batendo nos ouvidos.

​Aubrey soltou uma risada curta e sem humor, observando a troca de olhares entre mãe e filha.

​— Patético — ele murmurou, voltando a atenção para Eloise. Ele se inclinou, os lábios roçando a orelha dela, enviando um arrepio violento por sua espinha. — Olhe bem para ela, doce Eloise. Lembre-se deste momento. Foi o momento em que sua santa mãe te vendeu para o diabo para não perder as joias.

​Ele se afastou, puxando-a pelo pulso em direção à porta pesada de carvalho, sem esperar resposta, sem esperar despedidas.

​— Vamos. Meu tempo vale mais do que a vida inteira de vocês duas somadas.

​Eloise tropeçou, obrigada a acompanhá-lo, o vestido branco arrastando no chão como um fantasma, enquanto era arrastada para fora da única vida que conhecia, direto para a escuridão daquela noite tempestuosa que ameaçava engolir a cidade em água e para o carro daquele estranho que a odiava.

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