2. Quebrada

O ambiente confinado do carro de luxo transformou-se instantaneamente em uma cela de isolamento. O cheiro de couro novo misturado ao aroma amadeirado e caríssimo de Aubrey saturava o ar, invadindo as narinas de Eloise, impregnando-se em seus pulmões como uma fumaça tóxica.

​A porta se fechou com uma vedação a vácuo, abafando o mundo exterior. Não havia mais o som do vento, nem grilos, nem a respiração da casa onde ela crescera. Apenas o ronco grave e vibrante do motor ganhando vida, enviando uma trepidação sutil através do estofado que subia pelas pernas de Eloise.

​Ela se encolheu contra a porta do passageiro, tentando fundir-se ao vidro frio, tornar-se invisível. O vestido branco, volumoso e ridículo naquele espaço apertado, amontoava-se ao redor dela como as pétalas de uma flor murcha.

​Aubrey não olhou para ela enquanto arrancava com o carro. Ele dirigia com uma mão no volante, o punho cerrado, os nós dos dedos brancos contrastando com o couro preto. A velocidade aumentava, as árvores da propriedade da mãe virando borrões fantasmagóricos lá fora.

​— Pare de tremer — a voz dele cortou o silêncio, grave e irritada. — O barulho do tafetá roçando no couro está me dando dor de cabeça.

​Eloise prendeu a respiração, paralisando os músculos à força.

​— Eu... eu não consigo controlar — sussurrou, a voz falhando.

​Aubrey soltou uma risada nasalada, cruel. Ele reduziu a marcha bruscamente ao chegarem à estrada principal, o cinto de segurança travando contra o peito de Eloise, machucando seus seios.

​— Você vai aprender a controlar. Controle é a primeira coisa que você vai aprender a me dar.

​Ele estendeu a mão direita. Eloise fechou os olhos, esperando um golpe. Mas o toque veio em sua coxa. A palma da mão dele, grande e quente, pousou pesadamente sobre o tecido fino do vestido, logo acima do joelho. O calor da pele dele queimou através da seda, uma marca de ferro em brasa.

​Ela tentou afastar a perna, um reflexo instintivo.

​Os dedos dele apertaram. Não foi um carinho. Foi uma garra. Ele cravou as pontas dos dedos na carne macia dela, fixando-a no lugar.

​— Regra número um, esposa — ele sibilou a palavra como se fosse um insulto. — Você não recua. Quando eu toco em você, você fica parada. Quando eu chamo, você vem. Você é minha propriedade agora, e eu não gosto quando minhas posses tentam fugir.

​Eloise soluçou, o medo se transformando em lágrimas quentes que escorriam pelo rosto maquiado.

​— Por que você está fazendo isso? — ela implorou, virando o rosto para encará-lo. — Eu não fiz nada para você. Eu nem queria esse casamento!

​Aubrey virou o rosto por uma fração de segundo. A luz do painel iluminou seus olhos azuis, fazendo-os brilhar com uma malícia fria.

​— Ah, é claro. A inocente. A mártir. — Ele deslizou a mão para cima, subindo pela coxa dela, puxando o tecido do vestido junto, expondo a pele pálida ao ar condicionado gélido do carro. — Sua mãe disse que você vale cada centavo dos milhões que eu despejei na conta dela hoje de manhã. Disse que você é intocada.

​A mão dele parou perigosamente perto da virilha dela. Eloise parou de respirar, o coração batendo tão forte que doía contra as costelas.

​— Eu sou... — ela engasgou.

​— Veremos — ele murmurou, voltando a atenção para a estrada, mas mantendo a mão possessiva entre as pernas dela. — Mas aqui está como vai funcionar, Eloise. Preste muita atenção, porque eu não repito.

​Ele apertou a parte interna da coxa dela, arrancando um gemido doloroso e assustado da garganta dela.

​— Você não tem privacidade. Não tem portas trancadas. Não tem "não". Seu corpo foi a moeda de troca. Minha família queria uma linhagem, e eu paguei caro por esse útero. Então, ele vai ser usado quando e como eu quiser.

​Eloise sentiu a bile subir à garganta. A crueza das palavras dele era violenta, despindo-a de qualquer dignidade humana.

​— Você é nojento — ela sussurrou, o choque dando lugar a uma centelha de raiva defensiva.

​Aubrey freou o carro num semáforo vermelho deserto. O movimento brusco fez o corpo dela ser jogado para frente e depois para trás. Ele soltou o volante e se virou completamente para ela, invadindo seu espaço, o rosto a centímetros do dela. Ela podia sentir o hálito quente dele, com cheiro de menta e perigo.

​— Nojento? — ele repetiu, a voz baixa, vibrando de perigo. Ele segurou o queixo dela, forçando-a a olhar em seus olhos. — Acostume-se com o nojo, querida. Porque a partir desta noite, esse "nojo" vai ser a única coisa que você vai sentir na sua pele, na sua boca e dentro de você até que eu me canse.

​Ele soltou o rosto dela com um empurrão leve, voltando a acelerar o carro assim que o sinal abriu.

​— E Regra número dois: — ele disse, olhando para a estrada escura à frente, a mão voltando a apertar a coxa dela com possessividade. — Tente fugir, tente contatar aquele motorista medíocre, ou tente me enganar... e eu não vou apenas destruir você. Eu vou atrás da sua mãe. E depois eu vou encontrar o seu amiguinho Richard e vou garantir que ele deseje nunca ter nascido. Entendeu?

​Eloise assentiu freneticamente, as lágrimas turvando sua visão. O nome de Richard na boca dele soou como uma sentença de morte.

​— Responda — ele ordenou.

​— Sim — ela sussurrou, a voz quebrada. — Eu entendi.

​Aubrey sorriu. Um sorriso terrível, sem alegria.

​— Ótimo. Estamos chegando. Enxugue o rosto. Odeio mulheres choronas na minha cama.

​O carro fez uma curva fechada, entrando nos portões de uma propriedade que parecia menos uma casa e mais uma fortaleza de vidro e pedra negra, erguendo-se contra o céu noturno como um mausoléu esperando por seu novo cadáver.

A atmosfera mudou no instante em que os pneus trituraram o cascalho negro da entrada. A propriedade de Aubrey Van Der Mors não tinha jardins floridos ou a decadência romântica da mansão de Virgínia. Era um monólito de arquitetura brutalista: concreto aparente, vidro escuro e linhas retas que cortavam o céu noturno como lâminas.

​O carro parou. Antes que Eloise pudesse processar o tamanho daquela prisão, a porta do lado dela foi aberta.

​Não por Aubrey.

​Um homem de uniforme cinza-chumbo, com o rosto impassível e vazio, segurava a porta. Ele não olhou para o rosto inchado de choro de Eloise. Seus olhos focavam em um ponto inexistente acima do ombro dela.

​— Senhora — ele murmurou, uma saudação que soou mais como um protocolo robótico do que uma boas-vindas.

​Eloise saiu, o vento noturno chicoteando a seda do vestido contra suas pernas. Aubrey já estava fora do carro, subindo os degraus de pedra bruta da entrada sem olhar para trás. Ele sabia que ela o seguiria. Ele não precisava arrastá-la; o medo fazia esse trabalho.

​Ao cruzar o limiar da porta dupla maciça, Eloise foi atingida por uma onda de ar condicionado que parecia manter a casa numa temperatura de necrotério.

​O hall de entrada era cavernoso. O chão de mármore preto polido refletia o teto altíssimo como um lago escuro e profundo. Não haviam fotos de família, tapetes persas ou vasos de flores. Apenas esculturas abstratas de metal retorcido e o eco opressivo de seus próprios saltos.

​Uma fileira de quatro empregados estava perfilada perto da escadaria flutuante de vidro. Todos usavam o mesmo uniforme cinza. Mãos cruzadas nas costas. Posturas rígidas.

​Aubrey parou no centro do saguão, tirando as luvas de couro com movimentos lentos e precisos.

​— Levem as malas para a suíte principal — ele ordenou, a voz ecoando nas paredes vazias. — E tragam uma garrafa de Romanée-Conti. A safra de 98.

​— Sim, Sr. Van Der Mors — responderam em uníssono, um coro baixo e submisso.

​Eloise buscou o olhar de uma das camareiras, uma mulher de meia-idade com cabelos grisalhos. “Por favor,” os olhos de Eloise imploraram. “Me ajude. Me veja.”

​A mulher desviou o olhar imediatamente, fixando a visão no chão de mármore, como se encarar a nova "senhora" fosse um crime punível com demissão — ou pior. Eloise sentiu o estômago afundar. “Ninguém vai me ajudar aqui,” percebeu com horror. “Para eles, eu não sou uma pessoa. Sou apenas mais uma aquisição que o mestre trouxe para casa.”

​— Pare de tentar fazer amigos, Eloise. — A voz de Aubrey surgiu atrás dela, perto demais.

​Ela estremeceu, virando-se. Ele havia tirado o paletó e o jogado nos braços de um mordomo que surgiu das sombras como um espectro. Agora, em mangas de camisa branca dobradas até os cotovelos, ele parecia ainda mais perigoso. Os braços eram fortes, marcados por veias salientes e uma tatuagem que escapava por baixo do tecido no antebraço esquerdo — algo tribal, primitivo, contrastando com sua elegância aristocrática.

​— Eles são pagos para serem surdos, mudos e cegos — ele continuou, caminhando até ela. — Aqui dentro, só existe você e eu.

​Ele colocou a mão na base das costas dela. Não foi um toque gentil. Seus dedos pressionaram a coluna dela, empurrando-a para frente.

​— Vamos subir.

​A subida pela escada de vidro foi vertiginosa. Eloise olhava para baixo, vendo o reflexo distorcido de si mesma no mármore preto lá embaixo, uma mancha branca sendo engolida pela escuridão.

​O corredor do segundo andar era interminável, ladeado por portas fechadas de madeira escura. A iluminação era indireta, vinda do chão, criando sombras longas que pareciam se esticar para agarrar seus tornozelos. O silêncio da casa era absoluto, uma mordaça acústica que abafava qualquer pensamento de esperança.

​Aubrey parou diante da última porta dupla no final do corredor.

​Ele não usou chaves. Apenas girou a maçaneta pesada e empurrou a madeira com autoridade.

​— Entre — ele disse.

​Eloise hesitou no batente.

​O quarto era imenso. Uma parede inteira era de vidro, revelando a floresta escura que cercava a propriedade, mas lá dentro, a decoração era masculina e intimidante. Uma cama king size com lençóis de cetim preto dominava o centro. Havia uma lareira moderna acesa, mas as chamas a gás azuladas não traziam calor, apenas uma luz espectral.

​No canto, uma poltrona de couro voltada para a cama parecia ter sido colocada ali estrategicamente para observação.

​— Eu disse: entre. — O tom de Aubrey desceu uma oitava, perdendo a falsa paciência.

​Eloise deu um passo trêmulo para dentro, o carpete espesso abafando seus passos. Assim que ela passou, Aubrey entrou atrás dela e fechou a porta.

​O som da tranca girando foi o barulho mais alto do mundo. Cleck.

​Eloise girou, o coração disparado. Aubrey estava encostado na porta fechada, observando-a. Ele começou a desabotoar o colarinho da camisa, os olhos fixos nela como se estivesse desembrulhando um presente que ele mal podia esperar para quebrar.

​— Tire o vestido — ele ordenou, a voz calma e terrível.

A ordem de Aubrey pairou no ar condicionado gélido do quarto como uma sentença. Tire o vestido.

​Eloise sentiu o sangue drenar de seu rosto, acumulando-se em suas mãos fechadas em punhos apertados ao lado do corpo. O terror inicial, aquele que paralisava, começou a sofrer uma mutação dentro dela. Ao olhar para aquele homem arrogante, que descartava pessoas como lixo e tratava sua vida como uma transação bancária, o medo deu lugar a uma fúria branca e desesperada.

​Ela ergueu o queixo, o pescoço longo esticado em um desafio instintivo.

​— Não — a palavra saiu trêmula, mas audível.

​Aubrey parou com os dedos no terceiro botão da camisa. O movimento cessou, mas a tensão no quarto triplicou. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, como um cão de caça ouvindo um ruído na mata.

​— Como é? — A voz dele desceu para um sussurro perigoso, suave como veludo envenenado.

​— Eu disse não — Eloise repetiu, a voz ganhando força, alimentada pela adrenalina. — Você pode ter pagado as dívidas da minha mãe. Pode ter me arrastado para cá. Mas eu não sou uma das suas prostitutas de luxo. Eu não vou me despir para você como um animal amestrado!

​Ela recuou um passo quando ele desencostou da porta, mas manteve o contato visual, os olhos marejados queimando de ódio.

​— Você acha que eu sou sua propriedade? — ela gritou, a histeria borbulhando. — Você é um monstro! Um sádico doente que precisa comprar mulheres porque nenhuma ficaria com você por vontade própria!

​Foi a frase errada. Ou talvez, para os propósitos de Aubrey, a certa.

​O ar no quarto mudou. A indiferença nos olhos de gelo dele desapareceu, substituída por uma escuridão turbulenta. Ele não gritou. Ele simplesmente se moveu.

​Foi rápido demais. Um borrão de movimento predatório.

​Eloise tentou correr para o banheiro, mas Aubrey cobriu a distância em duas passadas largas. Ele a interceptou antes que ela alcançasse o mármore, agarrando-a pelo braço. O puxão foi violento, girando-a no ar.

​— Me solta! — ela gritou, debatendo-se.

​Num reflexo cego de autodefesa, ela ergueu a mão livre e desferiu o golpe.

​Estalo.

​O som da palma da mão dela contra o rosto dele ecoou no silêncio do quarto como um tiro de pistola.

​O mundo parou.

​Eloise congelou, a respiração presa na garganta, horrorizada com o que tinha acabado de fazer. A mão dela ardia.

​Aubrey não recuou. O rosto dele virou ligeiramente com o impacto, uma marca vermelha florescendo instantaneamente em sua pele pálida, cortando a maçã do rosto perfeita.

​Ele passou a língua pela parte interna da bochecha, testando o gosto metálico de um pequeno corte. Então, ele virou o rosto de volta para ela.

​Não havia raiva descontrolada. Havia algo pior. Havia um brilho de satisfação cruel. Um sorriso lento e terrível curvou os lábios dele.

​— Você tem fogo — ele murmurou, a voz rouca. — Ótimo. Eu odeio coisas fáceis. Quebrar você vai ser muito mais divertido do que eu imaginava.

​Antes que Eloise pudesse processar a ameaça, ele a empurrou.

​Ela cambaleou para trás, as costas colidindo com força contra a parede de vidro frio que dava para a floresta. O impacto tirou o ar de seus pulmões.

​Aubrey avançou, prendendo-a lá. Ele apoiou as duas mãos no vidro, uma de cada lado da cabeça dela, enjaulando-a. O corpo dele pressionou o dela, duro, quente e pesado, esmagando a seda do vestido.

​— Você quer lutar, Eloise? — ele rosnou contra os lábios dela, os olhos fixos na boca trêmula da garota. — Então vamos lutar. Mas lembre-se: nesta casa, eu sempre ganho.

​Ele soltou uma das mãos do vidro e agarrou o decote do vestido branco.

​Não houve delicadeza. Não houve busca pelo zíper.

​Com um puxão brutal e seco, o som de tecido rasgando encheu o quarto. A seda cara, a renda francesa, o símbolo de sua pureza e do sacrifício de sua mãe... tudo cedeu sob a força dele.

​Eloise gritou, tentando segurar os farrapos do vestido, mas era inútil. O corpete se partiu ao meio, expondo o sutiã de renda branca e a pele trêmula de seu torso ao ar frio do quarto.

​— Você não queria tirar? — Aubrey perguntou, jogando o pedaço de tecido arrancado no chão com desprezo. — Eu tiro para você.

​Ele a segurou pela cintura, os dedos cravando na pele nua agora exposta, e a girou, pressionando o rosto dela contra o vidro frio. Eloise soluçou, vendo seu reflexo fantasmagórico no vidro escuro misturado com a floresta lá fora, enquanto sentia o corpo de Aubrey colar nas costas dela.

​— Olhe para lá — ele ordenou, a boca roçando a nuca dela, enviando arrepios de terror e uma traição elétrica por todo o corpo dela. — Ninguém pode ouvir você gritar aqui, Eloise. A única pessoa que vai ouvir seus gritos esta noite... sou eu.

​Ele segurou o restante do tecido da saia e puxou novamente, terminando de destruir o vestido de noiva, deixando-a exposta, vulnerável e tremendo em sua lingerie diante da imensidão da noite e da crueldade do homem que agora a possuía.

​— Agora — ele sussurrou, mordendo o lóbulo da orelha dela com força suficiente para machucar. — Vamos ver se você é tão brava quando estiver implorando.

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