Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ACORDO
Meu pai me chamou ao fim da tarde, o sol ainda queimava a areia, mas o vento já anunciava a noite. — Reconheci o tom da voz dele antes mesmo de ouvir as palavras, toda vez que ele tomava uma decisão , ele tinha esse olhar pesado, como se cada sílaba carregasse algo que ele próprio não queria dizer. — Zara, minha filha... Levantei-me devagar e caminhei até a tenda maior, minha mãe já estava sentada e muito silenciosa. —Quando nossos olhos se encontraram, ela baixou o olhar, foi nesse instante que compreendi: algo já estava decidido. — Sente-se — meu pai disse. Obedeci. Ele demorou a falar, passou as mão pela barba, respirou fundo e meu coração começou a bater mais rápido, mas mantive a postura. —Filhas de chefes aprendem cedo a não demonstrar medo. Vamos unir forças com a tribo do Norte — ele começou — Um acordo foi fechado, e você vai se casar com Kamal, dentro de seis meses, é o tempo que você completa dezenove anos. —Senti o ar faltar nos meus pulmões , e aqui dentro da tenda me senti sufocando. Meu corpo reagiu antes da mente, um frio percorreu minha espinha, como se o deserto inteiro tivesse entrado em mim. O nome ecoou pesado, conhecido e antigo demais. — Papai… — minha voz falhou. — Ele é mais velho que o senhor, tem idade para ser meu bisavô! Meu pai não respondeu de imediato. — Ele já tem três esposas — continuei, sentindo as palavras queimarem. — Todos sabem disso, já tem muitos filhos, por que o senhor vai me entregar a ele? O silêncio foi a resposta. Meu pai baixou o olhar, um gesto raro e doloroso. — Porque a nossa tribo precisa de dinares, minha filha. As palavras me atravessaram como lâmina. — Precisamos trocar as tendas, comprar mais camelos e fortalecer nossas rotas. Kamau nos dará três camelos, e a proteção junto com o dinheiro. — Eu não entendo — disse, sentindo as lágrimas ameaçarem, mas sem permitir que caíssem. — Por que esse homem quer tantas esposas? Todas jovens. Por que sempre meninas? Ele não respondeu. Olhei para minha mãe. — Mamãe… por favor diga alguma coisa. Ela fechou os olhos por um instante antes de falar. — Filha… eu não concordo com isso, e seu pai sabe. — Sua voz saiu baixa, cansada. — Mas você entende que nós mulheres não temos voz. E seu pai já fechou o acordo, você não imagina como sofro em saber que você será obrigada a se casar com Kamal Voltei-me para meu pai . — O senhor não sacrificou nenhum de meus irmãos. E minhas duas irmãs se casaram por escolha delas. Eu sou a filha, mais nova, herdei o saber da vovó, e de minha mãe… — minha voz tremeu. — E agora o senhor vai me sacrificar, me enterrar viva? As lágrimas desceram, não lutei contra elas, pois é a única coisa que posso fazer, chorar... Meu pai permaneceu em silêncio. — Quando, será meu sacrifício papai? — perguntei, por fim. — Dentro de seis meses. Seis meses... — Até lá — ele continuou —, cuide do homem que trouxemos do deserto, quando ele se recuperar, daremos um jeito de mandá-lo embora. Enquanto isso, começaremos os preparativos do casamento. Senti um aperto no peito. — Eu não sei quando ele vai acordar, papai. — fal— Ele está aqui há uma semana, e ainda não despertou, eu mamãe e a vovó estamos nos revezando. Meu pai olhou para minha mãe. — Vai demorar? — Cerca de dois meses para uma recuperação completa — ela respondeu. Ele assentiu. — Então você tem exatamente esse prazo, dois meses, o enxoval já está sendo preparado, suas irmãs e sua mãe cuidarão disso. Somos mercadorias, e acabei de ser vendida por três camelos, alguns milhares de dinares e peles, que nunca usarei. — Porque o acordo que não assinei, não diz que terei direitos, só tenho dever e obrigações. Meu valor não está no que sou, mas no que posso gerar e render como escrava de um velho. —Futuro não me pertence, e esperança é um luxo que não terei de cultivar, esse desejo é utopia. E agora, meu próprio pai me condena a essa sentença. Vou me casar com um homem que tem quase oitenta anos, e esse homem tem três esposas, inúmeros filhos e um olhar que nunca enxergará em mim uma mulher, apenas posse. — As esposas mais jovens têm a idade da minha irmã de vinte e sete, ainda assim, sou a escolhida para completar esse acordo, e farei parte de um harém. O que me espera? Não sei dizer, apenas tenho uma certeza, de que serei uma morta viva. —Fechei os olhos e levei a mão ao peito, sentindo o peso da pergunta esmagar minha respiração. — Alá… — murmurei, a voz baixa, quebrada. Nunca fui filha de pedir, no deserto, aprendemos a aceitar, às ordens de nossos pais, irmãos e tios, em uma sociedade patriarcal e sentença. — Ainda assim, naquela noite, ousei fazer uma prece silenciosa. Este não é o destino que eu escolheria para mim. — As palavras não ecoaram de meus lábios, mas nunca haverá uma resposta. — Apenas o vento, levando minha súplica como se levar tudo aquilo que ousa sonhar além das dunas. E ali, sob céu imenso e estrelado, e as dunas do deserto, compreendi que, o meu destino havia sido decidido por mãos que não eram as minhas, somos trocadas por camelos ou dinares, peles e jóias que não usaremos, por acordos que não assinamos. — Nosso valor não está no que somos, mas no que rendemos, o futuro não nos pertence, e a esperança é um luxo que não aprendemos a cultivar. E agora, meu próprio pai me entrega essa sentença. — Vou me casar com um homem que tem quase oitenta anos, com três esposas, inúmeros filhos e um olhar que nunca enxergará em mim uma mulher, apenas posse. As esposas mais jovens têm a idade da minha mãe. E ainda assim, sou a escolhida para completar esse acordo. —Alá, o que me espera no futuro? Se é que eu tenho algum?






