####CAPÍTULO 01

O ACORDO

Meu pai me chamou ao fim da tarde, o sol ainda queimava a areia, mas o vento já anunciava a noite.

— Reconheci o tom da voz dele antes mesmo de ouvir as palavras, toda vez que ele tomava uma decisão , ele tinha esse olhar pesado, como se cada sílaba carregasse algo que ele próprio não queria dizer.

— Zara, minha filha...

Levantei-me devagar e caminhei até a tenda maior, minha mãe já estava sentada e muito silenciosa.

—Quando nossos olhos se encontraram, ela baixou o olhar, foi nesse instante que compreendi: algo já estava decidido.

— Sente-se — meu pai disse.

Obedeci.

Ele demorou a falar, passou as mão pela barba, respirou fundo e meu coração começou a bater mais rápido, mas mantive a postura.

—Filhas de chefes aprendem cedo a não demonstrar medo.

Vamos unir forças com a tribo do Norte — ele começou — Um acordo foi fechado, e você vai se casar com Kamal, dentro de seis meses, é o tempo que você completa dezenove anos.

—Senti o ar faltar nos meus pulmões , e aqui dentro da tenda me senti sufocando.

Meu corpo reagiu antes da mente, um frio percorreu minha espinha, como se o deserto inteiro tivesse entrado em mim.

O nome ecoou pesado, conhecido e antigo demais.

— Papai… — minha voz falhou.

— Ele é mais velho que o senhor, tem idade para ser meu bisavô!

Meu pai não respondeu de imediato.

— Ele já tem três esposas — continuei, sentindo as palavras queimarem.

— Todos sabem disso, já tem muitos filhos, por que o senhor vai me entregar a ele?

O silêncio foi a resposta.

Meu pai baixou o olhar, um gesto raro e doloroso.

— Porque a nossa tribo precisa de dinares, minha filha.

As palavras me atravessaram como lâmina.

— Precisamos trocar as tendas, comprar mais camelos e fortalecer nossas rotas.

Kamau nos dará três camelos, e a proteção junto com o dinheiro.

— Eu não entendo — disse, sentindo as lágrimas ameaçarem, mas sem permitir que caíssem. — Por que esse homem quer tantas esposas? Todas jovens. Por que sempre meninas?

Ele não respondeu.

Olhei para minha mãe.

— Mamãe… por favor diga alguma coisa.

Ela fechou os olhos por um instante antes de falar.

— Filha… eu não concordo com isso, e seu pai sabe. — Sua voz saiu baixa, cansada. — Mas você entende que nós mulheres não temos voz.

E seu pai já fechou o acordo, você não imagina como sofro em saber que você será obrigada a se casar com Kamal

Voltei-me para meu pai .

— O senhor não sacrificou nenhum de meus irmãos.

E minhas duas irmãs se casaram por escolha delas.

Eu sou a filha, mais nova, herdei o saber da vovó, e de minha mãe… — minha voz tremeu.

— E agora o senhor vai me sacrificar, me enterrar viva?

As lágrimas desceram, não lutei contra elas, pois é a única coisa que posso fazer, chorar...

Meu pai permaneceu em silêncio.

— Quando, será meu sacrifício papai? — perguntei, por fim.

— Dentro de seis meses.

Seis meses...

— Até lá — ele continuou —, cuide do homem que trouxemos do deserto, quando ele se recuperar, daremos um jeito de mandá-lo embora.

Enquanto isso, começaremos os preparativos do casamento.

Senti um aperto no peito.

— Eu não sei quando ele vai acordar, papai. — fal— Ele está aqui há uma semana, e ainda não despertou, eu mamãe e a vovó estamos nos revezando.

Meu pai olhou para minha mãe.

— Vai demorar?

— Cerca de dois meses para uma recuperação completa — ela respondeu.

Ele assentiu.

— Então você tem exatamente esse prazo, dois meses, o enxoval já está sendo preparado, suas irmãs e sua mãe cuidarão disso.

Somos mercadorias, e acabei de ser vendida por três camelos, alguns milhares de dinares e peles, que nunca usarei.

— Porque o acordo que não assinei, não diz que terei direitos, só tenho dever e obrigações.

Meu valor não está no que sou, mas no que posso gerar e render como escrava de um velho.

—Futuro não me pertence, e esperança é um luxo que não terei de cultivar, esse desejo é utopia.

E agora, meu próprio pai me condena a essa sentença.

Vou me casar com um homem que tem quase oitenta anos, e esse homem tem três esposas, inúmeros filhos e um olhar que nunca enxergará em mim uma mulher, apenas posse.

— As esposas mais jovens têm a idade da minha irmã de vinte e sete, ainda assim, sou a escolhida para completar esse acordo, e farei parte de um harém.

O que me espera? Não sei dizer, apenas tenho uma certeza, de que serei uma morta viva.

—Fechei os olhos e levei a mão ao peito, sentindo o peso da pergunta esmagar minha respiração.

— Alá… — murmurei, a voz baixa, quebrada.

Nunca fui filha de pedir, no deserto, aprendemos a aceitar, às ordens de nossos pais, irmãos e tios, em uma sociedade patriarcal e sentença.

— Ainda assim, naquela noite, ousei fazer uma prece silenciosa.

Este não é o destino que eu escolheria para mim. — As palavras não ecoaram de meus lábios, mas nunca haverá uma resposta.

— Apenas o vento, levando minha súplica como se levar tudo aquilo que ousa sonhar além das dunas.

E ali, sob céu imenso e estrelado, e as dunas do deserto, compreendi que, o meu destino havia sido decidido por mãos que não eram as minhas, somos trocadas por camelos ou dinares, peles e jóias que não usaremos, por acordos que não assinamos.

— Nosso valor não está no que somos, mas no que rendemos, o futuro não nos pertence, e a esperança é um luxo que não aprendemos a cultivar.

E agora, meu próprio pai me entrega essa sentença.

— Vou me casar com um homem que tem quase oitenta anos, com três esposas, inúmeros filhos e um olhar que nunca enxergará em mim uma mulher, apenas posse.

As esposas mais jovens têm a idade da minha mãe.

E ainda assim, sou a escolhida para completar esse acordo. —Alá, o que me espera no futuro? Se é que eu tenho algum?

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