Mundo ficciónIniciar sesiónO DESESPERO DE ZARA
Entrei na pequena tenda onde o homem que salvei estava, sentindo meu coração se partir. —Com passos indecisos que mais me exigindo um esforço hercúleo, como se eu estivesse lutando contra um inimigo invisível em uma batalha sem fim. O homem do deserto permanecia deitado, imóvel, sua respiração pesada e difícil. —Seus ferimentos eram graves; era um verdadeiro milagre que ele ainda estivesse vivo. Agora, ao observar seu rosto, que se revelava limpo, percebo o quanto ele é bonito, um contraste doloroso com as cicatrizes que marcam seu corpo, como se a beleza estivesse escondida sob as sombras da dor. — Embora suas feridas estejam cobertas e cicatrizando, seu corpo ainda parece travar uma luta entre a vida e a morte, como um pássaro preso em uma armadilha, ansioso para voar novamente, mas incapaz de encontrar forças para isso. Preparei o remédio usando ervas e água aquecida, uma tarefa que domino com habilidade, talvez a razão pela qual o senhor Kamal me escolheu. —Essa destreza, cultivada ao longo dos anos, me proporciona um sentimento de propósito, como se estivesse desempenhando um papel essencial em uma peça de teatro. Aproximei-me lentamente e umedecendo seus lábios, oferecendo o líquido com cuidado, como se estivesse alimentando um filho faminto. — “Eu não sei o seu nome,” murmurei em uma voz suave, receosa de perturbar a calma daquele instante. “Parece que algo terrível aconteceu com você, e alguém tentou lhe tirar a vida... mas você sobreviveu.” — Minha voz tremia, carregada de emoções turbulentas, e eu precisei respirar profundamente antes de prosseguir, lutando contra a impotência que me assaltava. “Hoje... algo muito ruim aconteceu comigo também.” — Ele não se moveu, e eu pensei: “Claro que você não vai, Zara!” “Como não sei o que lhe ocorreu e percebo que você não está me ouvindo... talvez eu possa desabafar.” — Senti-me ao seu lado, indiferente ao chão duro sob mim, como uma pedra se acomodando em um leito de rio. “Nós somos nômades, e meu pai é o chefe da tribo. — Hoje, ele me deu a notícia mais devastadora da minha vida: meu nome é Zara e tenho apenas dezoito anos... meu pai me vendeu.” As lágrimas começaram a escorregar silenciosamente, e fui incapaz de conter a avalanche de emoções que inundaram meu ser. —“Você é do Oriente Médio, mas não tem a essência de um nômade. É evidente em suas roupas, que, apesar de marcadas por tiros e facadas, aparentam ter um valor elevado, como um livro antigo que, embora danificado, ainda carrega histórias valiosas. —Suas mãos, suaves e sem calos, revelam que você é um homem bem tratado, como um jardineiro que cuida de suas plantas com carinho. Sua pele é macia, a barba bem cuidada, e suas vestes não são feitas de lã de camelo, como as minhas, mas sim de tecidos finos que refletem uma vida de conforto. —Você é, sem dúvida, um homem civilizado.” Passei os dedos pelo tecido desgastado do meu vestido, envergonhada. “Sinto que preciso desabafar, você entende? Sei que talvez não esteja me ouvindo, mas você é a única que não me julgará. — Como um nômade que conhece a liberdade, eu sonhei com um futuro diferente, longe dos grilhões impostos por minha própria família, como um pássaro preso em uma jaula que sonha em voar. Engoli em seco.— “Meu pai me arranjou um casamento com um homem de setenta e oito anos. — Ele já tem três esposas, e a mais velha é da mesma idade que minha mãe. As outras duas são mais jovens, mas parecem tão envelhecidas quanto a primeira esposa. — Minha mãe, que já passou dos sessenta anos, e eu... só tenho dezoito.” Minha voz se quebrou, e as lágrimas começaram a escorrer. “Serei a quarta esposa dele, e não poderei recusar esse destino.” Balancei a cabeça, em meio aos soluços. —“Dizem que, em algumas culturas, as mulheres podem recusar tais arranjos; no entanto, aqui no deserto, o que está na tradição e na lei pesa mais do que qualquer desejo pessoal. É como se, numa corrida de obstáculos, o mais pesado não fosse a própria barra, mas sim o peso da tradição que temos de carregar. — Embora o Alcorão mencione que uma mulher pode rejeitar um casamento, essa liberdade não se aplica no nosso contexto. A verdade é que a lei é dura e clara; a sociedade é patriarcal, e nós, mulheres, nascemos já com um rótulo que determina nosso futuro. —Desde o ventre, vislumbramos nossa sentença.” —“Vivemos como sobreviventes, sem direitos e sem vontades, obrigadas a obedecer aos nossos pais, irmãos ou tios. É como estar aprisionada numa gaiola, onde as asas que poderíamos ter para voar livremente são cortadas pela tradição. — Sequei minhas lágrimas com as costas da mão. — “Meu sonho era estudar medicina, operar e realmente curar pessoas. Mas, para meu pai, o único destino de uma mulher é casar e ter filhos, como se fôssemos peças de um quebra-cabeça já decididas antes mesmo de nascermos. —Ele nunca ouviu minhas aspirações, como se fossem apenas sussurros perdidos na brisa, sem eco nem consequência. O nó na minha garganta apertou. “E nós, o que somos? — Simples mercadorias que se reproduzem como animais? —Minhas palavras é como uma gota de chuva que cai em um deserto árido, e nunca chega a ser suficiente. Achava que meu pai tinha algum amor por mim. De cinco irmãos e três irmãs, sou a única destinada a ser vendida. —A caçula, que trará mais riqueza para nossa tribo, como um bem precioso. Respirei profundamente, tentando evitar o choro, mas sem conseguir. “Não tenho o direito de escolher a quem oferecer meu corpo pela primeira vez, nem decidir quando ou se serei mãe.” —Minha voz mal conseguia sair, cada sílaba carregando o peso de uma vida sem escolhas, como se carregasse um fardo invisível nas costas, que me impede de me erguer. “Eu não sei se tenho força para viver como aquelas outras mulheres. — Aqui, apesar das dificuldades, posso contar com meu apoio familiar: minha mãe, avó, irmãs e as mulheres da tribo. No entanto, ouvi relatos aterradores sobre como é a vida lá. —Por exemplo, um homem que é agressivo com suas esposas: uma delas, após ser brutalmente espancada, ficou cega; outra teve o rosto queimado e marcado com o nome dele. E a primeira esposa? Este homem chegou ao ponto de cortar um dedo dela apenas porque a comida não agradou ao seu paladar.” As lágrimas começaram a rolar livremente. —“A realidade é que não consigo vislumbrar um futuro, como se estivesse olhando para um horizonte nublado; a única certeza que tenho é que estou sem escolhas.” Permaneci em silêncio por alguns segundos, tentando acalmar meu fôlego. —“Desculpe pelo desabafo; felizmente, você está dormindo há uma semana e não pode ouvir tudo isso." —Passei a mão pelos cabelos, exausta. “Quando você acordar, espero que viva e retorne ao lugar onde realmente pertence. — Os homens têm escolhas, enquanto nós, mulheres, somos forçadas a nos submeter às suas vontades, como folhas levadas pelo vento.” Baixei a cabeça, sentindo o peso da situação. “Deixo uma pergunta no ar: por que as mulheres já nascem marcadas?” —Mal terminei de falar quando percebi algo diferente; um movimento sutil, um som quase inaudível. Instintivamente, levantei o olhar e encontrei com os olhos abertos.






