Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia corria. Aurora estava apertada contra seu peito, protegida pelo cobertor, enquanto Rafael a conduzia por um corredor estreito nos fundos do prédio. Ela não entendia nada. Não sabia quem eram aqueles homens. Não sabia por que estavam perseguindo sua filha. E, principalmente, não entendia por que um desconhecido chamado Dante Valerius parecia estar no centro de tudo.
— Para onde estamos indo? — perguntou, ofegante.
— Para um lugar seguro.
— Você já disse isso!
Rafael olhou para trás.
— E continua sendo verdade.
Um barulho ecoou no corredor. Lívia parou.
— Eles estão vindo?
Rafael fez sinal para que ela ficasse em silêncio. Os passos se aproximaram. Lívia abraçou Aurora com mais força. Então aconteceu algo estranho. O medo desapareceu. Por alguns segundos, uma calma inexplicável tomou conta dela. Seu coração desacelerou. Sua visão pareceu ficar mais nítida. Ela conseguiu ouvir os passos do outro lado da parede. Um. Dois. Três homens. Lívia arregalou os olhos. Como sabia disso? Rafael a observou.
— O que foi?
— Tem três pessoas.
Ele ficou imóvel.
— O quê?
— Do outro lado da porta.
Rafael olhou para ela. Depois para a porta.
— Como você sabe?
Lívia balançou a cabeça.
— Eu... não sei.
Antes que pudesse explicar, um ruído metálico veio do corredor. Rafael imediatamente puxou Lívia para trás.
— Fique aqui.
— Não.
— Lívia...
— Minha filha está comigo. Eu não vou ficar escondida enquanto você enfrenta quem quer machucá-la.
Rafael a encarou por alguns segundos. Então pareceu perceber alguma coisa.
— Você não é exatamente como disseram.
— Como disseram?
Ele não respondeu.
***
Do lado de fora, um dos perseguidores avançou. Rafael abriu a porta de repente. O confronto foi rápido. Lívia não conseguiu compreender completamente o que estava acontecendo. Os movimentos dos homens eram rápidos demais. Rafael parecia conhecer aquele tipo de luta. Mas um dos invasores conseguiu passar. Ele correu na direção de Lívia. Ela recuou. Aurora começou a chorar. O homem estendeu a mão.
— Entregue a criança.
Lívia sentiu alguma coisa mudar dentro dela. Não pensou. Não raciocinou. Apenas reagiu. Segurou o braço do homem e o empurrou. Ele caiu contra a parede. Lívia ficou tão surpresa quanto ele.
— Como...
O homem levantou os olhos para ela. E, pela primeira vez, pareceu assustado.
— Você...
Lívia não entendeu.
— O quê?
Ele recuou.
— Isso é impossível.
Rafael apareceu atrás dele.
— Quem mandou vocês?
O homem não respondeu. Então fugiu. Rafael correu até a porta, mas parou. Lívia ainda estava imóvel. Aurora chorava em seus braços.
— Rafael...
— Sim?
— O que aconteceu?
Ele olhou para o corredor vazio.
— Não sei.
Era mentira. Ou, pelo menos, não era toda a verdade.
***
Muito longe dali, Dante sentiu o vínculo. Seu lobo despertou violentamente. Ele parou no meio do caminho. Um arrepio percorreu sua coluna.
— Alfa?
Dante não respondeu. Fechou os olhos. Por um instante, uma imagem surgiu em sua mente. Uma mulher. Cabelos escuros. Olhos assustados. Uma criança nos braços. E sangue. Muito sangue. Dante abriu os olhos.
— Mude a rota.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Para onde?
— Para o norte.
— Mas a localização delas está ao sul.
— Eu sei.
— Então por que—
— Porque existe alguém atrás delas.
Dante sentiu seu lobo rosnar. Não era apenas uma ameaça à sua filha. Havia alguma coisa errada. Algo que ele ainda não conseguia identificar.
***
Quando finalmente chegaram ao esconderijo, Lívia não conseguia parar de pensar no homem que havia enfrentado. Na maneira como ele olhara para ela. Como se tivesse visto algo que ela própria desconhecia. Rafael percebeu sua inquietação.
— Você precisa descansar.
— Quem eram aqueles homens?
— Pessoas perigosas.
— Isso não responde nada.
— Eu sei.
Lívia colocou Aurora sobre uma pequena cama improvisada.
— E quem é Dante?
Rafael permaneceu em silêncio.
— Ele é o pai dela?
A pergunta saiu quase como um sussurro. Rafael demorou para responder.
— Sim.
Lívia sentiu o peito apertar.
— Como?
— Ainda não temos todas as respostas.
— Eu quero a verdade.
Rafael olhou para Aurora.
— Dante também.
Lívia cruzou os braços.
— Ele vai ter que esperar.
Rafael quase sorriu.
— Você fala como se conhecesse o ELE.
— Não conheço.
— Talvez seja melhor assim.
Antes que Lívia pudesse perguntar o motivo, uma voz masculina surgiu atrás deles.
— Não por muito tempo.
Lívia se virou. Dante estava parado na entrada. Alto. Imponente. Os olhos escuros fixos nela. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Lívia sentiu uma sensação estranha. Não era medo. Era reconhecimento. Como se alguma parte dela soubesse quem ele era antes mesmo de sua mente compreender.
Dante, por outro lado, ficou completamente imóvel. Seu olhar passou por Lívia. Depois pousou em Aurora. E então voltou para a mulher. Algo não estava certo. Ele esperava encontrar apenas uma humana assustada. Mas havia algo no cheiro de Lívia que despertava um instinto antigo. Um cheiro que ele não sentia havia décadas.
Dante deu um passo à frente. Lívia imediatamente recuou.
— Não se aproxime da minha filha.
Dante parou.
— Ela é minha filha.
— Você não estava lá quando ela nasceu.
A frase atingiu Dante com força.
— Eu não sabia que ela existia.
— E isso deveria me fazer confiar em você?
Ele não respondeu. Seu olhar permaneceu nela. Então percebeu uma pequena cicatriz em seu pulso. Uma marca quase invisível. Dante se aproximou apenas o suficiente para enxergá-la melhor. Seu rosto mudou.
Rafael percebeu.
— Alfa?
Dante não respondeu. Aquela marca... Ele conhecia aquele símbolo. Ou, pelo menos, conhecia histórias sobre ele. Uma antiga linhagem. Uma linhagem que todos acreditavam ter desaparecido décadas atrás.
Os Caçadores.
Humanos treinados durante séculos para enfrentar lobos e criaturas sobrenaturais. Os últimos haviam sido mortos. Ou era o que todos acreditavam. Dante levantou os olhos para Lívia. Ela não parecia saber o que carregava no próprio sangue.
E, naquele instante, ele compreendeu que o maior segredo daquela mulher talvez não fosse sua filha. Era ela mesma.
— Onde conseguiu essa marca? — perguntou.
Lívia olhou para o próprio pulso.
— Que marca?
Dante ficou em silêncio. Ela realmente não sabia. E isso era ainda mais perigoso. Porque, se sua suspeita estivesse correta, Lívia Monteiro não era apenas uma humana que havia dado à luz sua filha.
Ela era descendente da linhagem dos últimos caçadores. E talvez fosse a única pessoa capaz de destruir o mundo de Dante... ou salvá-lo. Mas havia uma pergunta que não saía de sua cabeça: quem havia colocado uma descendente dos Caçadores no caminho do Alfa Supremo?







