Mundo de ficçãoIniciar sessãoA viagem começou antes do amanhecer. Lívia estava sentada no banco traseiro, com Aurora adormecida em seus braços. Pela janela, a paisagem desaparecia rapidamente sob a neblina.
Ela não conseguia parar de pensar naquilo que ouvira. Sua avó estava viva. Durante toda a sua vida, acreditara que não tinha mais ninguém. Agora descobria que sua mãe havia escondido uma família inteira. E, pior, que essa família estava ligada a uma guerra entre humanos e lobos.
Lívia olhou para Dante pelo retrovisor. Ele dirigia em silêncio.
— Você sabia que minha avó poderia estar viva?
— Não.
— Mas reconheceu a Floresta Negra.
— Conheço as histórias.
— Que histórias?
Dante demorou a responder.
— A Floresta Negra era território neutro.
— Entre quem?
— Entre os Caçadores e os lobos.
Lívia apertou Aurora contra o peito.
— Então minha família realmente caçava pessoas como você.
Dante encontrou o olhar dela pelo espelho.
— Sim.
— E você ainda quer me proteger?
— Sim.
A resposta foi imediata. Lívia ficou em silêncio.
— Por quê?
Dante voltou os olhos para a estrada.
— Porque você não é responsável pelo que seus antepassados fizeram.
— E se eu for perigosa?
— Então eu vou descobrir.
— E se descobrir que sou?
Ele respondeu sem hesitar:
— Ainda assim, vou proteger você.
O coração de Lívia acelerou.
Ela não sabia por que aquelas palavras tinham mexido tanto com ela. Talvez porque, pela primeira vez desde o nascimento de Aurora, alguém não estivesse tentando decidir seu destino por ela.
Dante apenas parecia disposto a permanecer ao seu lado.
***
Horas depois, a estrada terminou. A floresta começava diante deles. Árvores enormes cobriam o céu. Uma névoa espessa escondia o caminho. Dante desligou o motor.
— A partir daqui, vamos a pé.
Rafael abriu a porta.
— É seguro?
Dante olhou para a floresta.
— Não.
Lívia desceu.
— Ótimo.
Dante a encarou.
— Você está ficando parecida comigo.
— Espero que não.
Pela primeira vez, ele sorriu. Foi rápido. Mas Lívia viu.
***
A caminhada durou quase uma hora. Aurora permanecia tranquila. Estranhamente tranquila. Em determinado momento, Lívia parou.
— Esperem.
Dante virou-se.
— O que foi?
Ela olhou para a floresta.
— Ouviram?
Rafael franziu a testa.
— O quê?
Lívia permaneceu imóvel. Havia um som distante. Uma espécie de batida. Como madeira sendo golpeada. Uma vez. Duas. Três.
— Ali.
Dante olhou na direção indicada.
— Não estou ouvindo nada.
— Eu estou.
Ela começou a caminhar. Dante segurou seu braço.
— Não vá sozinha.
Lívia olhou para a mão dele. Dante soltou imediatamente.
— Desculpe.
Ela assentiu. Continuaram juntos. Poucos minutos depois, encontraram uma árvore enorme. Em seu tronco havia o símbolo dos Caçadores. Lívia passou os dedos sobre a marca. No instante em que tocou a madeira, uma dor atravessou sua cabeça. Ela caiu de joelhos.
— Lívia!
Dante a segurou. Imagens começaram a surgir. Uma mulher correndo pela floresta. Um homem ferido. Uma criança sendo carregada. E sua mãe. Muito jovem. Segurando um bebê. Lívia. Ela abriu os olhos assustada.
— Minha mãe esteve aqui.
Dante ficou sério.
— O que você viu?
— Não sei.
— Tente lembrar.
Lívia fechou os olhos. Outra imagem surgiu. Sua mãe entregando o bebê a uma mulher idosa. A mesma mulher da fotografia. Então ouviu uma frase.
“Um dia ela voltará.”
Lívia abriu os olhos.
— Minha avó me recebeu aqui.
Dante olhou para a floresta.
— Então estamos perto.
***
A cabana apareceu entre as árvores. Era pequena e antiga. Nenhuma fumaça saía da chaminé. Dante levantou a mão, ordenando que todos parassem.
— Fiquem aqui.
Lívia balançou a cabeça.
— Não.
— É perigoso.
— Essa mulher é minha avó.
Dante olhou para ela.
— Justamente por isso.
Lívia respirou fundo.
— Eu vou.
Dante a acompanhou. Quando chegaram à porta, ela se abriu. Sozinha. Lívia congelou. Uma voz feminina veio de dentro.
— Entre, minha filha.
O coração dela disparou. Ela entrou. Uma mulher idosa estava sentada diante da lareira. Cabelos completamente brancos. Olhos ainda fortes. E a mesma marca de meia-lua no pulso.
Lívia parou.
— Você...
A mulher levantou-se lentamente.
— Demorou muito.
Lívia sentiu as lágrimas escorrerem.
— Você é minha avó?
A mulher assentiu.
— Sou.
— Minha mãe disse que você morreu.
— Sua mãe precisava que você acreditasse nisso.
Lívia aproximou-se.
— Por quê?
A mulher olhou para Aurora. Sua expressão mudou.
— Porque, quando você nasceu, todos começaram a procurar por você.
Dante entrou na cabana. A mulher imediatamente o encarou. Seu rosto endureceu.
— Você trouxe um Alfa para minha casa.
Dante não recuou.
— Ela está sob minha proteção.
— Não preciso da sua proteção.
— Talvez não.
A mulher olhou para ele.
— Mas sua filha precisa.
Dante ficou em silêncio.
A avó de Lívia aproximou-se de Aurora. A criança abriu os olhos. A mulher empalideceu.
— Os olhos...
Lívia percebeu.
— O que tem os olhos dela?
A mulher tocou delicadamente o rosto da menina.
— Exatamente como a profecia dizia.
Dante franziu a testa.
— Que profecia?
A mulher levantou os olhos.
— A criança que nascesse da união entre um Alfa e uma descendente dos Caçadores seria capaz de encerrar a guerra.
Lívia ficou imóvel.
— União?
Ela olhou para Dante.
— Você está dizendo que eu e ele...
A mulher assentiu.
— Não foi um acidente.
O silêncio caiu sobre a cabana. Lívia sentiu o coração disparar.
— O quê?
A mulher continuou:
— A fertilização não aconteceu por acaso.
Dante ficou rígido.
— Explique.
— Alguém colocou o material genético de Dante no procedimento de Lívia deliberadamente.
Lívia recuou.
— Então alguém planejou minha gravidez?
— Sim.
Dante fechou as mãos.
— Quem?
A mulher olhou para ele.
— A mesma pessoa que passou décadas procurando a última descendente dos Caçadores.
— Quem?
Ela hesitou. Então respondeu:
— O irmão do antigo Alfa.
Dante ficou completamente imóvel.
— Isso é impossível.
— Você acreditou que ele morreu há vinte anos.
Dante encarou a mulher.
— Ele morreu.
— Não.
Ela deu um passo à frente.
— Ele sobreviveu.
Lívia sentiu um frio percorrer o corpo.
— Quem é ele?
A mulher olhou diretamente para Dante.
— Seu maior inimigo.
Uma batida forte veio da porta. Todos se viraram. Outra batida. Dante imediatamente se colocou diante de Lívia e Aurora. A avó dela empalideceu.
— Ele encontrou vocês.
Dante levou a mão à arma.
— Quem?
A velha olhou para a porta.
— O homem que todos acreditavam estar morto.
A porta começou a se abrir lentamente. E uma voz masculina ecoou do lado de fora:
— Dante.
O Alfa ficou imóvel. Porque conhecia aquela voz. E fazia vinte anos que acreditava que seu dono estava morto.







