o plantão pós trauma

Valentina acordou com a sensação de que não havia descansado.

O documentário ainda passava na televisão, baixo demais para incomodar os vizinhos. O comprimido tinha cumprido o papel de forçar o sono, mas não apagou completamente as imagens da madrugada. Elas estavam lá, escondidas atrás dos olhos.

Ela se sentou devagar no sofá, respirando fundo.

Foi real.

Não havia como fingir que não tinha acontecido.

Ainda assim, o hospital a esperava.

Horas depois, já vestida novamente com o jaleco impecavelmente passado, Valentina atravessava os corredores do Memorial Peace como fazia todos os dias. Coluna ereta. Passos firmes. O crachá pendendo discretamente no bolso.

Por dentro, porém, o coração batia mais rápido do que o normal.

Ela se perguntou, pela décima vez, se deveria ter ido à polícia.

Mas o que diria?

“Vi um homem matar outro numa esquina.”

Sem nome. Sem provas. Sem placa de carro.

E ele tinha visto ela também.

Esse pensamento era o que realmente a calava.

— Doutora Valentina, precisamos da senhora na sala três — anunciou uma enfermeira com urgência.

O modo profissional assumiu o controle instantaneamente.

Na sala de cirurgia, não havia espaço para medo.

O primeiro caso era grave: trauma extenso na perna direita após um acidente rodoviário. Tecidos comprometidos. Circulação insuficiente.

Valentina avaliou rapidamente os exames.

— Preparar para amputação abaixo do joelho — disse com firmeza.

Sua voz não tremia.

Durante o procedimento, seus movimentos eram precisos, quase coreografados. Cada incisão calculada. Cada decisão tomada com clareza. Liderava a equipe com segurança, orientando residentes, corrigindo detalhes, antecipando complicações.

Horas depois, outro paciente. Outro caso irreversível.

Segunda amputação.

O peso emocional desses procedimentos nunca desaparecia completamente — mas ela aprendera a separar compaixão de execução técnica. Salvava o que podia ser salvo. E, quando não era possível, preservava o que restava.

No terceiro caso da noite, a situação exigia reconstrução complexa. Fratura exposta grave. Instabilidade severa.

— Vamos utilizar o fixador Ilizarov — decidiu.

O método exigia paciência e precisão. Estruturas metálicas externas estabilizando o osso para permitir recuperação gradual. Era um trabalho minucioso — quase arquitetônico.

E Valentina era excelente nisso.

Enquanto ajustava cuidadosamente o fixador, seus olhos estavam concentrados. Suas mãos firmes. Nenhum traço do terror da madrugada anterior transparecia ali.

Ela era uma das melhores ortopedistas do hospital.

Por dentro, porém, uma pergunta ecoava:

Ele sabe quem eu sou?

Em outro ponto da cidade, sob a luz fria de uma tela, Alonso observava.

As câmeras mostravam os corredores do hospital. A movimentação constante. A porta da sala cirúrgica abrindo e fechando.

Ele já sabia o cronograma dela.

Sabia o horário de entrada.

Sabia os intervalos aproximados.

Sabia até quanto tempo permanecia parada no vestiário antes de seguir para o centro cirúrgico.

Agora, assistia ao retorno dela pelo corredor, após a última cirurgia.

Mesmo exausta, mantinha a postura elegante. Conversava brevemente com um residente, apontando algo em um prontuário. Gesticulava com segurança.

Ela não parecia uma mulher em pânico.

Parecia forte.

Interessante.

Alonso aproximou a imagem quando ela parou diante da pia do corredor para lavar as mãos novamente, mesmo após já ter retirado as luvas. Esfregava os dedos com um pouco mais de intensidade do que o necessário.

Ali estava.

A tensão.

Ela carregava o medo — mas não permitia que ele a definisse.

Ele apoiou o queixo na mão, observando cada detalhe.

Valentina era disciplinada. Controlada. Inteligente.

Isso tornava tudo mais complexo.

E muito mais estimulante.

Enquanto ela caminhava de volta ao consultório, ajeitando o jaleco como se reorganizasse também os próprios pensamentos, Alonso murmurou para si mesmo:

— Você é mais interessante do que eu imaginei, doutora.

Ela salvava membros.

Ele encerrava vidas.

E, sem saber, cada passo que dava sob as luzes brancas do hospital estava sendo registrado.

Estudado.

Planejado.

O medo dela ainda era silencioso.

Mas, para Alonso, já era o começo de algo muito maior do que apenas eliminar uma testemunha.

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