Mundo de ficçãoIniciar sessãoO plantão terminou às três da manhã.
Valentina sentia o corpo pesado como se cada cirurgia daquela noite tivesse deixado um pedaço de tensão preso em seus músculos. O cheiro de antisséptico ainda parecia grudado em sua pele, misturado ao cansaço acumulado de horas sob luzes cirúrgicas. Ela caminhou até a garagem do Memorial Peace em silêncio, desejando apenas chegar em casa, tirar os sapatos e dormir por pelo menos algumas horas. Girou a chave na ignição. Nada. Tentou novamente. O motor respondeu com um ruído estranho e morreu logo em seguida. — Não… não hoje — murmurou, apoiando a testa no volante por um instante. Pegou o celular e chamou um táxi. A tela indicava “procurando motorista”. Minutos passaram. Nenhuma confirmação. Tentou outro aplicativo. Sem disponibilidade. A madrugada em Turin estava silenciosa demais. Sem ônibus naquele horário. Nenhuma moto passando. Seus pais moravam em outra região da cidade. Ela respirou fundo. Eram dois quilômetros até seu apartamento. Não era tão longe. Valentina participava de caminhadas regularmente; seu corpo estava acostumado ao esforço. O problema não era a distância. Era o horário. Mesmo assim, ajeitou a bolsa no ombro, trancou o carro e saiu da garagem em direção à rua. Turin estava quase deserta. Algumas janelas iluminadas aqui e ali, o som distante de um carro atravessando uma avenida mais movimentada. O frio leve da madrugada tocava seu rosto, ajudando-a a se manter desperta. Caminhava rápido, mas sem pressa desesperada. Faltavam poucas quadras quando virou a esquina que encurtava o caminho até seu prédio. E então viu. Do outro lado da rua. Um homem vestido de preto. Outro homem de joelhos. O som seco que cortou o silêncio fez seu coração parar por um segundo. Ela congelou. O mundo pareceu perder o som, exceto pelo próprio pulso martelando nos ouvidos. O homem de preto se movia com calma assustadora, ajustando algo na cena — posicionando o corpo, organizando detalhes. Aquilo não era impulso. Era execução. Valentina sentiu o ar faltar, mas obrigou o próprio corpo a permanecer firme. Não gritou. Não levou as mãos à cabeça. Apenas manteve o olhar fixo por um segundo a mais do que deveria. Então o assassino ergueu os olhos. Eles se encontraram. Foi rápido. Intenso. Frio. Ela sabia que ele a tinha visto. A única coisa que sua mente repetia era: não corra. Correr chamaria atenção. Confirmaria o medo. Transformaria-a em alvo imediato. Então ela fez o oposto. Apenas continuou andando, mas com passos mais rápidos. Controlados. Cada fibra do seu corpo implorava para disparar pela rua, mas ela se manteve firme até dobrar a próxima esquina. Só quando a fachada do seu prédio surgiu à frente é que suas mãos começaram a tremer. Entrou. Trancou a porta. Subiu os lances de escada quase sem sentir os próprios pés. Dentro do apartamento, o silêncio parecia ensurdecedor. E então a ficha caiu. Ela tinha visto um homem matar outro. Encostou-se à porta e escorregou lentamente até o chão, o corpo finalmente cedendo ao choque. Lágrimas vieram breves, silenciosas. Não era apenas medo — era incredulidade. Horas antes, ela lutava para manter alguém vivo numa sala de cirurgia. Agora tinha presenciado alguém tirar uma vida com frieza calculada. Depois de alguns minutos, levantou-se. Ainda vestia as roupas do hospital. Aquela constatação a atingiu de maneira estranha, quase sufocante. Como se carregasse consigo não apenas o cheiro da emergência, mas também a imagem daquela esquina. Foi até a lavanderia e colocou tudo na máquina imediatamente. Precisava se livrar daquela noite. Preparou um lanche simples — algo rápido, automático. Mal sentiu o gosto. No banho, deixou a água quente cair por longos minutos sobre os ombros. Tentava lavar o cansaço das cirurgias complicadas. Tentava apagar o som do disparo. Tentava convencer a si mesma de que estava segura. Mas cada vez que fechava os olhos, via o olhar dele. Frio. Consciente. Sabendo. Após se secar, tomou um comprimido para ajudar a dormir. Ligou a televisão e colocou um documentário qualquer — algo neutro, distante da realidade. Precisava esvaziar a mente. Deitada no sofá, envolta em um cobertor leve, a exaustão finalmente venceu o medo. Seus olhos se fecharam devagar. A cidade continuava silenciosa lá fora. Valentina acreditava que havia escapado. Mal sabia ela que, desde o instante em que seus olhares se cruzaram naquela esquina, já havia deixado de estar sozinha. Em algum lugar da mesma cidade, alguém agora sabia seu nome.






