Mundo de ficçãoIniciar sessãoCAPÍTULO 3
POR MAIA
Acordei com o alarme alto vibrando em cima da mesa ao lado da cama.
07:00.
Soltei um resmungo baixo antes de desligar o celular e encarar o teto por alguns segundos, tentando ignorar o peso do meu próprio corpo contra o colchão.
Eu tinha dormido mal.
Muito mal.
E a culpa era daquela mensagem.
Ou melhor…
Do homem por trás dela.
A chuva da madrugada tinha ido embora e agora a luz fraca da manhã atravessava as cortinas claras do quarto. Do lado de fora, o quintal ainda estava úmido. O cheiro de terra molhada entrava pela janela aberta junto com o canto animado de alguns pássaros.
Respirei fundo antes de levantar.
Minha rotina da manhã era quase automática naquele ponto.
Escovei os dentes.
Lavei o rosto. Prendi o cabelo num coque mal feito. Passei hidratante nas olheiras fundas abaixo dos olhos.Eu parecia cansada.
Porque estava.
As provas da faculdade estavam acabando comigo naquela semana e dormir tinha se tornado um luxo tão distante quanto férias ou estabilidade emocional.
Fui até a cozinha e coloquei a sanduicheira pra esquentar.
Hoje o café da manhã seria simples.
Misto quente com queijo e peito de peru.
Café forte. Sem açúcar.Eu precisava sair cedo se quisesse chegar na faculdade antes das nove. O trânsito naquele horário era infernal e normalmente eu pegava dois ônibus até chegar no campus.
Enquanto esperava o café ficar pronto, meus olhos caíram automaticamente sobre o celular em cima da bancada.
Nenhuma mensagem nova.
Mesmo assim, senti meu estômago apertar.
A lembrança da conversa da noite anterior ainda parecia estranha dentro da minha cabeça.
Perigosa.
Peguei a xícara devagar e tentei focar em qualquer outra coisa.
No café.
No barulho da sanduicheira. Na brisa entrando pela janela.Mas acabei pensando nele outra vez.
O cliente da noite passada tinha uma boa aparência.
Alto.
Magro. Pele clara. Cabelo escuro perfeitamente alinhado.O tipo de homem que parecia pertencer naturalmente aos restaurantes caros da zona sul.
Nos encontramos no restaurante de um hotel luxuoso perto da praia. Luz baixa, vinho caro e garçons discretos andando silenciosamente entre as mesas.
A conversa fluiu fácil.
Rasa, mas fácil.
Sempre é assim.
Eles perguntam sobre você sem realmente querer saber a resposta.
Qual seu curso.
Onde mora. Seus sonhos. Sua família.A maioria dos homens ricos gosta da ilusão de intimidade.
Talvez porque estejam acostumados a comprar tudo.
Inclusive atenção.
Normalmente eu inventava histórias.
Dizia que morava com os pais.
Mudava o nome da faculdade. Criava uma versão mais leve de mim mesma.Mais fácil de engolir.
Mas naquela noite eu estava cansada demais pra atuar perfeitamente.
A semana tinha sido longa.
As provas tinham acabado comigo. E pela primeira vez em muito tempo eu só…Desviei dos assuntos.
Elegante.
Cuidadosa. Sem entregar nada.Ou pelo menos achei que não tivesse entregado.
Fechei os olhos rapidamente antes de beber mais um gole de café.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez ele só fosse um homem entediado tentando parecer interessante depois de uma noite cara demais.
Mas ele saber meu nome verdadeiro ainda me incomodava.
Muito.
O aplicativo pedia algumas informações no cadastro, mas nada realmente importante. Quando criei meu perfil anos atrás, eu ainda dividia um apartamento pequeno com dois amigos da época em que trabalhava como garçonete no centro da cidade.
O endereço antigo ainda estava lá.
Alguns dados também.
Mas não tinha meu endereço atual.
Nem minha faculdade. Nem nada que pudesse dizer onde eu realmente estava agora.Pelo menos era o que eu esperava.
Peguei minha mochila perto do sofá e comecei a separar os materiais da aula enquanto tentava ignorar aquela sensação ruim rastejando lentamente pelo peito.
Foi quando o celular vibrou outra vez.
Mensagem desconhecida.
Meu corpo inteiro travou antes mesmo de olhar.
“Bom dia, Maia.”
Fiquei encarando a tela por alguns segundos.
E logo abaixo:
“Espero que você tenha chegado em casa bem.”







