Capítulo 4

CAPÍTULO 4 

POR MAIA

Fiquei encarando aquela última mensagem por mais tempo do que deveria.

“Espero que você tenha chegado em casa bem.”

Educado.

Quase gentil.

Mas ainda assim invasivo.

O simples fato dele ter conseguido meu número pessoal já era suficiente pra me deixar irritada. Talvez em qualquer outra situação eu simplesmente ignorasse e seguisse a vida, mas alguma coisa naquele homem me incomodava profundamente.

Talvez o jeito calmo demais.

Ou a sensação irritante de que ele acreditava que podia ultrapassar limites só porque tinha dinheiro suficiente pra isso.

Respirei fundo antes de desbloquear o celular outra vez.

“Achei que meus dados pessoais fossem confidenciais. Por que pegou meu número ao invés de falar comigo pelo aplicativo?”

Enviei.

A resposta veio quase imediatamente.

“Porque conversar por lá parece impessoal demais.”

Revirei os olhos automaticamente.

Segundos depois outra mensagem apareceu.

“Além disso, eu estava curioso.”

Curioso.

Claro.

“Você tem as melhores avaliações do aplicativo inteiro. Fiquei querendo entender o motivo da famosa Megan ser tão disputada.”

Meu maxilar travou.

Arrogante.

Debochado.

O tipo de homem absurdamente acostumado a conseguir tudo o que quer.

A resposta seguinte veio antes mesmo que eu digitasse algo.

“E sinceramente? Esperava alguém menos interessante.”

Soltei uma risada seca, sem humor nenhum.

Ah, ótimo.

Além de invasivo, ainda era convencido.

Digitei minha resposta com calma, exatamente do jeito que costumava fazer quando precisava colocar algum cliente no lugar sem perder a elegância.

“Não costumo passar meu número pessoal para ninguém. Caso queira marcar outro encontro, pode entrar em contato pelo aplicativo. Terei o maior prazer em responder por lá.”

Mentira.

Eu não tinha intenção nenhuma de responder aquele homem novamente.

Nem no aplicativo.

Nem fora dele.

Bloqueei o número logo em seguida sem esperar resposta.

Depois joguei o celular em cima da cama e passei as duas mãos no rosto, tentando afastar a irritação antes que ela estragasse completamente meu dia.

Funcionou parcialmente.

Fui até o quarto e abri o guarda-roupa.

Peguei uma calça jeans escura e larga, um tênis branco já um pouco gasto e uma blusa preta de manga curta. Por cima, coloquei uma jaqueta jeans oversized porque, apesar do céu limpo daquela manhã, a temperatura ainda marcava dezessete graus.

Frio.

Pelo menos pra mim.

Na cidade onde cresci, que ficava poucas horas dali, qualquer temperatura abaixo dos vinte e cinco graus já fazia as pessoas tirarem casaco do armário e reclamarem o dia inteiro.

Sorri sozinha enquanto prendia o cabelo.

Peguei a mochila, conferi rapidamente se os materiais da aula estavam ali dentro e saí de casa às pressas.

O ônibus não demorou muito pra chegar.

Mesmo precisando pegar dois ônibus até o campus, a faculdade ficava relativamente perto da minha casa. O problema era o caminho. Como era contramão do fluxo principal da cidade, não existia nenhuma linha direta até lá.

Então eu passava boa parte das manhãs espremida em transporte público tentando revisar matéria pelo celular enquanto alguém inevitavelmente escutava vídeo alto sem fone do meu lado.

A faculdade já estava movimentada quando cheguei.

Grupos espalhados pelos corredores.

Pessoas segurando café.

Alunos atrasados correndo escada acima.

Foi perto da entrada do bloco principal que encontrei Diana.

Minha prima por parte de mãe cursava enfermagem no mesmo campus, então normalmente nos encontrávamos entre os intervalos das aulas ou na cafeteria perto da biblioteca.

Ela foi a primeira pessoa que me apresentou o aplicativo.

Na época, eu estava desesperada.

Tinha acabado de ser demitida do restaurante onde trabalhava como garçonete, estava com aluguel atrasado, contas acumulando e a mensalidade da faculdade quase vencendo e tendo que resolver problemas do meu irmão mais Velho.

Lembro até hoje da vergonha que senti quando ela tocou no assunto pela primeira vez.

E lembro mais ainda do alívio silencioso quando percebi quanto dinheiro dava pra ganhar em uma única noite.

— Oi, prima. — Diana sorriu assim que me viu. — E aí, como foi o encontro de ontem?

O jeito animado dela quase me fez rir.

Aproximei a mochila do ombro antes de responder:

— Nem te conto… o encontro foi normal, mas você acredita que ele conseguiu meu número pessoal depois?

O sorriso dela desapareceu na mesma hora.

— Como assim? — ela franziu a testa. — Pelo aplicativo?

Assenti devagar.

— Disse que era um dos caras que criou o site.

Diana fez uma careta imediatamente.

— Ah, não. Homem rico com acesso e ego alto é sempre uma combinação péssima.

Soltei uma risada baixa.

Porque era exatamente isso.

Eu e Diana já estávamos acostumadas com homens invasivos mandando mensagens insistentes pelo aplicativo, enchendo o chat de presentes virtuais e convites inconvenientes.

Mas nenhum deles jamais tinha conseguido descobrir algo pessoal nosso.

Nunca.

— Eu falei pra ele não mandar mensagem no meu número e que, se quisesse qualquer coisa, falasse pelo aplicativo. — ajustei a alça da mochila no ombro. — Mas sinceramente? Nem ferrando que encontro esse cara de novo.

— Ainda bem. — Diana cruzou os braços. — Porque isso aí já começou estranho demais. E homem estranho normalmente só piora com o tempo.

Meu celular vibrou dentro do bolso da jaqueta.

Nós duas olhamos automaticamente pra ele.

Ignorei.

— Tenho aula agora. — falei rapidamente antes que minha ansiedade resolvesse me fazer pegar o celular. — A gente se encontra mais tarde na cafeteria?

— Claro. E vê se descansa essa cara de morta, pelo amor de Deus.

Ri pelo nariz.

— Vou tentar.

Nos despedimos rapidamente e segui em direção ao corredor das salas de arquitetura paisagística.

Mas enquanto caminhava entre os alunos, uma sensação estranha continuava me acompanhando silenciosamente.

Como se alguma coisa tivesse começado a sair do controle.

E eu ainda não soubesse o tamanho do problema.

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