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Capítulo II - Parte 3 O pesadelo, o limite e a condição

Certo dia, meu sogro contou que viajaria para Fernando de Noronha (PE) e que Perla não queria acompanhá-lo.

— Mas a senhora vai ficar com quem, dona Perla? — eu quis saber.

— Na casa de vocês.

Avisei meu ex-marido que aquele plano não daria certo, pois nós trabalhávamos e ela não poderia ficar sozinha em casa. Apesar da minha insistência, Perla foi passar alguns dias em nosso apartamento e o pesadelo começou em uma manhã chuvosa, quando precisei ir para a escola de idiomas onde eu dava aulas de espanhol.

— Como você vai trabalhar se está chovendo? — ela me perguntou.

— Com chuva ou sem chuva, a gente tem que trabalhar.

Tranquei o apartamento e fui para a escola. Pouco tempo depois, recebi uma ligação de Gabriel. Ele me disse que a mãe tinha passado mal e chamado uma ambulância.

— Ela fez um escândalo no prédio — contou. — Alguém precisa ir até o hospital…

— Não posso ir agora, Gabriel, estou trabalhando. Isso é só uma chantagem da sua mãe… e você também não deve sair do trabalho para atendê-la.

Antes que minha aula terminasse, o próprio hospital me ligou; pediram que alguém da família fosse vê-la. Após o término do expediente, decidi ir. Ao chegar na recepção, deparei-me com minha ex-sogra conversando aos risos.

— É essa pessoa que passou mal do coração? — questionei, sem acreditar no que via.

No mesmo momento ela colocou a mão no peito:

— Ai, doutora, por favor, me socorre, me socorre! Meu coração está disparado!

— Senhora, seu coração está ótimo — a médica explicou. — Fizemos eletrocardiograma e o seu problema é emocional, não tem nada a ver com o coração.

— Quero me internar, quero me internar!

— Eu não posso te internar aqui… A senhora vai ocupar o lugar de outras pessoas que realmente estão doentes.

De acordo com as orientações médicas, Perla precisava ser internada em um hospital psiquiátrico, mas ela se recusou a ir.

— De jeito nenhum — ela disse. — Quero ir para a casa do meu filho!

Levei-a de volta para o apartamento e ressaltei que não admitiria outros escândalos como o daquele dia. Eu cursava Administração à noite e precisei ir para a faculdade, mas quando Gabriel chegou do trabalho, encontrou Perla com a Bíblia nas mãos, de joelhos, dizendo que a nora havia a maltratado.

— Chega! Não aguento mais — eu disse ao meu ex-marido. — Peça para seu padrasto voltar de Fernando de Noronha.

Quando o marido da minha ex-sogra chegou no Rio de Janeiro, contei o que havia acontecido e as informações que a médica tinha me passado sobre o estado de saúde dela.

— A gente sabe o que ela tem — respondeu. — Por isso falei pra você não se envolver com ela, Rose, mas você quis levá-la no salão de beleza…

Eu sempre sentia que me apontavam como culpada pelas atitudes da minha ex-sogra. Dessa vez não foi diferente, a não ser pela minha reação: decidi arrumar as malas e comprar passagem para o Paraguai. Após um ano diante do mesmo desafio, eu havia chegado ao meu limite. Por sorte, Gabriel percebeu que eu estava exausta e não reprovou minha decisão, apenas pediu que eu retornasse ao Brasil quando me sentisse melhor.

— Prometo que tudo vai ser diferente quando você voltar! — ele me disse.

Eu já me sentia esgotada com a situação. Várias vezes Perla tinha invadido nosso apartamento, aberto a porta do quarto sem avisar e nos surpreendido durante o ato sexual. Até hoje não entendo como ela tinha a chave de casa, já que Gabriel garantiu nunca a ter fornecido para que fizesse cópia.

Essa atitude se repetiu por muitos anos. Quanto mais eu tirava a chave dela, mais ela surgia com outra cópia. Eu me sentia muito chateada, discutia com Gabriel, mas sem nenhum efeito. Tudo o que ela fazia era se desculpar e manter a mesma conduta, como se a casa fosse propriedade dela.

Em nenhum momento eu tinha compartilhado com minha família a experiência do relacionamento tóxico que eu vivia com Perla, no entanto, após enfrentar muitos traumas, finalmente decidi contar à minha mãe e às minhas irmãs…

— Tenha paciência — Soledad aconselhava. — Perla tem problemas mentais, minha filha. Só isso.

Por nunca ter se envolvido em discussões com minha ex-sogra, ou presenciado nossos atritos, minha mãe acreditava que, se eu mudasse meu comportamento, conseguiria lidar melhor com ela.

— Casamento é difícil mesmo — as duas comentaram. — Você não casa só com o marido, mas com a família.

— Vocês não entendem o que estou passando porque não conhecem minha sogra. Ela não é nada do que se mostra…

— Mas se for assim, ninguém vai ficar casado.

Talvez elas tivessem razão… Depois de 30 dias, voltei para o Brasil decidida a manter meu relacionamento. No entanto, estabeleci uma condição a Gabriel: precisávamos ter um tempo só nosso.

— Não quero mais passar os finais de semana na casa da sua mãe! E ela também não deve dormir em nosso apartamento.

A proposta foi aceita. Por seis meses não a visitamos e logo tivemos uma grata surpresa…

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