Mundo de ficçãoIniciar sessãoUm momento de empatia
Meu ex-marido tinha uma relação mais próxima com o padrasto do que com a mãe. Ele a tratava como uma mulher que precisava de cuidados, não mais que isso. Como ela não podia ficar sozinha, sempre que o padrasto se ausentava, Gabriel lhe fazia companhia. Algumas vezes, nós a levamos para jantar conosco em restaurantes; ela se sentava quieta e movimentava a cabeça para baixo e para cima de forma repetitiva; e quando salivava demais por conta dos medicamentos que tomava, Gabriel limpava a boca dela com paciência.
— Não entendo por que ela precisa tomar tanto remédio… — comentei com meu ex-marido. — Acho que o que ela precisa é conversar, sair de casa e parar de dormir tanto durante o dia.
— Você não conhece minha mãe, Rose. Eu sei que ela é uma mulher boa e única, mas também tem um caráter forte e algumas manias, então é melhor você deixar minha mãe no mundo dela.
Na época eu não considerei o conselho de Gabriel, porque tive compaixão da minha ex-sogra, uma mulher jovem que não se cuidava, tinha unhas encardidas e um cabelo que parecia nunca ter sido lavado. Certo dia, na piscina da casa dela, convidei-a para se divertir conosco. Quando a vi de maiô, notei algo estranho nas costas dela:
— Sua mãe não toma banho, Gabriel? — surpreendi-me ao ver que ela tinha marcas de sujeira.
Dei banho nela, levei-a para fazer as unhas e pintar os cabelos. De visual novo, ela voltou a sorrir, mas, ainda assim, não dizia nenhuma palavra.
— Rose, eu recomendo que você não se aproxime muito da minha mãe — Gabriel insistia. — Vai com calma porque ela é uma pessoa difícil.
A própria mãe de Perla, uma senhora espanhola, comentava comigo que a filha era uma mulher doente há mais de 20 anos. Entretanto, eu continuei firme em meu propósito, principalmente após meu casamento, até que alguns meses depois, o esforço surtiu efeito. Perla parou de trocar o dia pela noite e voltou a conversar. Só então me contou que se sentia muito sozinha, pois era filha única e os familiares moravam na Espanha. Acredito que esse tenha sido o estopim da depressão e da síndrome do pânico.
No início, em nenhum momento ela demonstrou preconceito por eu ser estrangeira. Na verdade, ficou feliz que a mãe teria com quem conversar em espanhol, já que mesmo depois de passar a vida inteira no Brasil, ela não havia se adaptado ao português. Um pouco melhor, Perla também começou a sair comigo, mas por ser impulsiva fazia muitas compras e isso me preocupava.
Gabriel viajava a trabalho e voltava para casa apenas nos finais de semana. Mesmo nessas condições, todo sábado, domingo e feriado, estávamos na casa da mãe dele, por uma exigência dela. Quando eu voltava para o Rio de Janeiro (RJ), Perla ainda me ligava para dizer que sentia saudades.
— Como você está, minha filha? — eu ouvia do outro lado da linha. Porém, pessoalmente, ela continuava como uma mulher de poucas palavras.
Com o tempo, a situação começou a me incomodar, pois parecia que ela queria controlar meus passos. Decidi parar de atendê-la e vivi a primeira experiência estranha ao lado dela. Perla fez 100 tentativas de contato telefônico em um dia.
Havia uma regra que meu ex-marido precisava cumprir desde solteiro: falar com a mãe ao telefone todas as noites no mesmo horário, às 21h. A exigência não mudou mesmo depois de nos casarmos. Esse era o momento em que ele relatava tudo o que tínhamos feito durante o dia.
— Não quero mais que você conte sobre nossa vida para a sua mãe! — reclamei.
Como toda mulher casada, chegou o dia que exigi nossa liberdade. A partir dessa decisão, nossas brigas começaram. Gabriel insistia em continuar com os telefonemas, enquanto eu já me sentia exausta com a situação. A primeira vez que o vi atender à mãe, mesmo depois da nossa conversa, eu tomei o celular da mão dele e encerrei a chamada.
— Falei pra você que não era mais pra atender!
— Rose, você não sabe o que minha mãe é capaz de fazer…
De fato, naquela madrugada alguém surgiu em nosso prédio aos gritos, batendo à porta. Ligamos para o pai do Gabriel, que nos instruiu a chamar a polícia, pois não sabíamos quem gritava. Finalmente, meu ex-marido se aproximou da porta e perguntou quem era. A resposta veio de uma voz feminina:
— Meu filho não atende o telefone!
Era Perla. Para mim, foi a “gota d’água”; garanti ao Gabriel que deixaríamos de visitá-la nos finais de semana. Vivíamos nosso primeiro ano de casamento e precisávamos de um tempo para nós dois.
Em outra ocasião, estávamos na praia em um domingo. Quando menos esperávamos, enquanto eu relaxava em uma cadeira e meu ex-marido jogava vôlei, ela apareceu. Ajoelhou-se, levantou as mãos para o alto e gritou como conversasse com Deus:
— Minha nora não gosta de mim…
Envergonhada, voltei para meu apartamento e pedi a Gabriel que resolvesse a situação sozinho. No entanto, os episódios de loucura se tornaram cada vez mais frequentes e pouco a pouco, meu casamento se desgastava. Não tínhamos um final de semana de paz porque, se não íamos até a casa da minha ex-sogra, ela vinha dormir na nossa.