Capítulo 3 - Café Amargo

🌸 ENTRE ESTAÇÕES

Clara pegou uma xícara e foi até a cafeteira velha no canto da loja.

– Mesmo assim, vou ficar de olho. Você tem um histórico com homens misteriosos...

– Shhh! Nem começa com isso – disse Beatriz, rindo sem querer.

Enquanto as duas conversavam, Lorenzo, do lado de fora da livraria, observava pela janela, dentro de seu carro escuro. Tinha voltado para pegar um documento que deixara cair… mas ficou parado, assistindo a cena.

Beatriz sorria. Havia algo naquela mulher que desarmava seu mundo de controle e certezas.

Ele tocou o vidro com os dedos, quase sem perceber. E então murmurou para si mesmo:

– Não vai ser tão fácil quanto imaginei…

Do outro lado da vidraça, Beatriz parava de rir de repente, com a estranha sensação de estar sendo observada.

No dia seguinte, Beatriz chegou cedo à livraria. Ainda havia resquícios da chuva da noite anterior, e o ar da manhã carregava aquele perfume úmido que ela tanto amava.

Organizou o balcão, preparou o café, e tentou ignorar a ansiedade que não sabia explicar.

– Talvez ele nem volte – disse para si mesma, tentando se convencer.

Mas Lorenzo voltou.

Pontualmente às 10h, a campainha tocou e lá estava ele – com o mesmo terno impecável, a mesma expressão controlada e uma pasta de couro na mão.

Beatriz respirou fundo.

– Achei que tivesse entendido o “não”.

– Entendi. Mas não estou aqui para insistir. Só vim devolver isso – disse ele, colocando sobre o balcão um marcador de páginas antigo.

Ela o pegou. Era dourado, com desenhos em relevo e o nome da livraria gravado com letras gastas.

– Eu nem tinha percebido que tinha sumido – disse ela, surpresa.

– Caiu do seu livro ontem, enquanto você me mandava embora.

Beatriz arqueou uma sobrancelha.

– E por que não deixou com alguém? Ou colocou na caixa de correio?

– Porque eu queria ver se você sorria de novo.

A frase caiu como um trovão silencioso entre os dois. Beatriz desviou o olhar. Sentiu-se invadida, mas… tocada.

– Eu não sorrio para destruidores de livrarias – respondeu, tentando recuperar a compostura.

Lorenzo olhou ao redor.

– Este lugar é importante para você, não é?

– É tudo que me resta da minha tia. Ela criou esse espaço com amor. Aqui é minha casa. Meus sonhos estão nas prateleiras.

Lorenzo parecia ouvir de verdade pela primeira vez. Caminhou devagar até uma das estantes e tirou um livro antigo, já amarelado.

– A Rosa do Inverno – leu ele, passando os dedos pela capa. – Minha mãe adorava esse.

Beatriz ergueu os olhos.

– Você falou dela ontem. Ela frequentava aqui?

Lorenzo assentiu, com um leve aperto no olhar.

– Vinha quando era jovem, antes de… antes de tudo. Ela dizia que esse lugar a fazia esquecer da dor.

– E o que aconteceu?

– Ela perdeu alguém. Meu pai. E com ele, perdeu a si mesma.

Beatriz o observou em silêncio. Pela primeira vez, não viu o magnata. Viu o filho de uma mulher que sofreu. Viu um homem tentando entender o passado.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App