Capítulo 10 - A Porta de Raul Mendonça

O endereço apareceu na tela do celular de Lorenzo poucos minutos depois.

Ele mostrou para Beatriz.

— Bairro antigo… fica na parte mais afastada da cidade.

Beatriz sentiu o coração apertar.

— Você acha que ele ainda mora lá?

Lorenzo deu de ombros.

— Só tem uma maneira de descobrir.

A casa ficava em uma rua estreita e silenciosa. Os postes iluminavam o asfalto de forma irregular, criando sombras longas nas paredes das casas antigas.

Lorenzo estacionou o carro a alguns metros do portão.

Beatriz olhou para a casa de Raul Mendonça.

Era pequena, com muros altos e pintura desgastada. Uma única luz estava acesa dentro.

— Parece que tem alguém — disse ela, em voz baixa.

Lorenzo saiu do carro.

— Fique atrás de mim.

Beatriz caminhou logo atrás dele até o portão.

O metal rangeu quando Lorenzo o empurrou.

Eles atravessaram o pequeno jardim seco e pararam diante da porta.

Lorenzo bateu.

Uma vez.

Duas.

Nenhuma resposta.

Beatriz começou a pensar que talvez não houvesse ninguém ali.

Mas então ouviram passos lentos do outro lado da porta.

O trinco girou.

A porta se abriu apenas alguns centímetros.

Um homem de cabelos grisalhos apareceu na fresta. Seus olhos eram desconfiados.

— Quem são vocês?

Lorenzo não hesitou.

— Raul Mendonça?

O homem ficou imóvel por um instante.

— Quem quer saber?

Beatriz deu um passo à frente e levantou a fotografia.

— Nós queremos falar sobre Helena.

O nome pareceu atingir o homem como um choque.

Os olhos dele se arregalaram.

E então, de repente, ele tentou fechar a porta.

Mas Lorenzo colocou a mão rapidamente, impedindo.

— Espere.

Raul respirava pesado agora.

— Eu não sei do que vocês estão falando.

Beatriz levantou o diário de Helena.

— Ela sabia que você estava seguindo ela.

O rosto do homem perdeu toda a cor.

O silêncio caiu entre os três.

Então Raul murmurou algo quase inaudível.

— Vocês não deveriam ter vindo aqui.

Beatriz sentiu um arrepio.

— Por quê?

O homem olhou rapidamente para a rua, como se estivesse com medo de alguém ouvir.

Quando voltou a olhar para eles, sua voz saiu baixa e urgente.

— Porque se eles descobrirem que vocês estão fazendo perguntas…

Ele parou de falar.

Beatriz franziu a testa.

— Quem?

Raul engoliu seco.

Então disse as palavras que fizeram o sangue de Beatriz gelar.

— As pessoas que levaram sua irmã.

Beatriz sentiu o chão parecer instável sob seus pés.

— As pessoas que levaram minha irmã? — repetiu ela, quase sem voz.

Raul Mendonça passou a mão trêmula pelo rosto.

— Entrem… — murmurou ele. — Não é seguro falar disso na porta.

Lorenzo trocou um olhar rápido com Beatriz.

Depois empurrou a porta e entrou.

A casa era simples e escura. O cheiro de café velho e madeira antiga pairava no ar. Raul fechou a porta rapidamente e trancou.

Como se tivesse medo de que alguém estivesse observando.

Eles se sentaram em uma pequena sala.

Por alguns segundos, Raul apenas ficou olhando para o chão.

— Comece a falar — disse Lorenzo, firme.

Raul levantou os olhos lentamente.

— Aquela noite… — começou ele. — A noite em que Helena desapareceu… não foi um acidente.

Beatriz apertou as mãos.

— Então o que foi?

Raul respirou fundo.

— Eu estava na estação de trem. Trabalhava ali na época.

Beatriz franziu a testa.

— Helena sempre passava por lá.

— Sim — disse Raul. — Mas naquele dia ela não estava sozinha.

O coração de Beatriz disparou.

— Com quem?

Raul hesitou.

— Com dois homens.

Lorenzo se inclinou para frente.

— Quem eram eles?

Raul balançou a cabeça lentamente.

— Eu nunca soube os nomes… mas vi o símbolo.

Beatriz sentiu o estômago revirar.

— O mesmo símbolo do prédio?

— Sim.

O silêncio tomou conta da sala.

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