3: Uma noiva substituta

Sara Lemos

— O que ele disse, Soraya?! — A voz estridente do meu pai ecoava pela casa, cheia de raiva.

Quando contei o que aconteceu aos meus pais, os dois praticamente me engoliram com os olhos, como se eu fosse a culpada por tudo. Procuramos por Raquel em todos os cantos, mas não havia nenhum sinal dela. Era como se ela tivesse evaporado.

— Ele disse que não se importa com mais nada. Que não vai passar pelo vexame de ser abandonado na frente de todos aqueles convidados — revelou minha mãe, pálida, pressionando o celular contra o peito.

— Como você deixou isso acontecer, Sara?! — Meu pai gritava, vindo em minha direção com o olhar faiscando.

— Pai, eu não tive culpa! — respondi, sentindo o coração disparar no peito.

— Como não teve?! — Ele berrou. — Você devia ter nos contado o que sua irmã estava planejando no momento em que soube!

— Seu pai tem razão — minha mãe completou, me lançando um olhar que me cortava como lâmina. — Você deixou isso acontecer de propósito, não deixou? Sempre teve inveja da Raquel.

— Mãe… — tentei falar, mas ela não me deixou.

— Sempre foi invejosa! E agora deve estar se divertindo com essa confusão toda!

— Por que estão me culpando pelos erros da Raquel?! — rebati, sentindo meu peito estremecer. — Foi ela quem fugiu com outro homem, ela quem abandonou o noivo no altar!

— E você deixou! — Minha mãe rosnou. — Assistiu de camarote e não fez nada para impedir!

Ela então se voltou para o meu pai com a expressão de desprezo.

— Sérgio… eu não sei onde estava com a cabeça quando decidi tê-la. Desde que a Sara nasceu, só trouxe vergonha e decepção para essa casa.

Fiquei parada ali, completamente estática. Era como se algo dentro de mim tivesse quebrado de vez. Era a minha irmã quem estava causando todo aquele caos. Era ela quem havia fugido, quem havia jogado nossa família no ridículo. Mas, como sempre… era eu quem levava a culpa.

— Não é hora de discutir isso, Soraya — meu pai disse, andando de um lado para o outro, feito um animal encurralado. — Precisamos de uma solução imediata, ou o Renato vai nos odiar tanto que nunca mais vai nos ajudar financeiramente.

— E ele deixou isso bem claro — minha mãe completou, pressionando o celular. — Disse que, se não dermos um jeito, ele vai acabar com a gente. Você tem ideia da gravidade disso?

Foi só tocar no assunto financeiro que o rosto do meu pai perdeu a cor. Era como se um espírito maligno o tivesse possuído. A pequena empresa de locação de caminhões dele dependia quase inteiramente dos contratos com Renato. Se ele cortasse tudo, seria o nosso fim.

— E o que ele quer que façamos, hein?! — gritou meu pai, furioso, arremessando um dos vasos da sala contra a parede. — A Raquel sumiu!

— Ele disse que, se uma noiva não entrar naquela igreja e poupá-lo do vexame, vai nos abandonar… e nos reduzir a pó — respondeu minha mãe, com a voz trêmula.

— Uma noiva? — meu pai perguntou, franzindo a testa.

— Isso mesmo.

— Mas… ele especificou que tinha que ser a Raquel?

— Não — ela ponderou, pensativa. — Ele só disse que queria ver uma noiva entrar pela porta da igreja.

Meu pai então levou a mão à cabeça, pensativo. O olhar dele mudou. De confuso para… calculista.

— Acho que temos uma solução — ele disse, virando-se lentamente para mim com um olhar que me fez gelar por dentro.

Minha mãe também me encarou e um sorriso perverso se formou no canto dos lábios dela.

— Por que estão me olhando assim? — perguntei, recuando, com o coração acelerado.

— Sara, vá agora mesmo até o quarto da sua irmã e vista o vestido de noiva dela! — ordenou minha mãe, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.

— O quê?! — Respirei fundo, incrédula. — Vocês estão loucos?!

— Faça o que sua mãe está mandando! — meu pai reforçou, com a voz apressada, impaciente.

Senti minhas pernas tremerem, mas, pela primeira vez na vida, resisti.

— Não! — gritei, com firmeza.

Mas minha negação foi o estopim. Minha mãe veio até mim como uma fera. O tapa que recebi no rosto foi tão forte e inesperado que só percebi depois do estalo ecoar pela casa.

— Desde quando você tem voz nessa casa, hein, patinha feia?! — ela rosnou. — Não era você quem sempre invejou sua irmã? Pois agora tem a chance de ficar no lugar dela! Prepare o carro, Sérgio! — Minha mãe ordenou ao meu pai.

Em seguida, ela me agarrou pelo braço e me arrastou para o quarto de Raquel.

— Mãe, pelo amor de Deus, olha o que a senhora está fazendo! — gritei, tentando resistir, mas ela me empurrou com força.

— Cala a boca! — esbravejou. — Você sempre foi um peso morto nessa casa. Pelo menos uma vez na vida, seja útil!

— Vocês querem que eu passe vergonha na frente de todo mundo?! Todos sabem que não sou a noiva!

— Claro que sabem! Isso está estampado nessa sua cara horrorosa! — Ela cuspiu as palavras enquanto rasgava minha roupa com pressa. — Mas pelo menos o vestido serve!

Enquanto me insultava, ela vestiu o vestido branco com brutalidade, como se quisesse me sufocar com cada botão. Em seguida, prendeu metade do meu cabelo, puxando com tanta força que senti os olhos lacrimejarem.

— Nem vou perder tempo com maquiagem. Nada vai salvar essa sua cara feia — murmurou, ajustando o véu sobre meu rosto.

Quando terminou, me arrastou até o carro. Meus pés mal tocaram o chão. Tudo parecia um pesadelo.

— Eu não sei o que o Renato planeja, mas apenas aguente firme e resista até o fim — minha mãe disse, enquanto meu pai dirigia.

Chegando à igreja, tudo parecia surreal. Eles iam mesmo me jogar naquela armadilha.

— Tira esse óculos ridículo do rosto dela — ordenou meu pai.

Minha mãe os arrancou do meu rosto antes que eu pudesse protestar.

— Eu… eu não consigo enxergar sem eles — murmurei, vendo tudo ao meu redor virar uma névoa.

— Você não precisa enxergar nada! — meu pai disse, me empurrando para a porta da igreja. — Apenas caminhe reto. Quando sentir o seu pé bater no degrau do altar, pare e sorria!

Tentei me desvencilhar. Tentei resistir. Mas, antes que eu conseguisse fazer qualquer coisa… as portas da igreja se abriram.

E a marcha nupcial começou a tocar.

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