2: Amigo fura olho

Renato Salles

Enquanto ajustava o nó da minha gravata, olhava para o relógio no pulso. Faltava pouco menos de uma hora para o meu casamento.

— Ah… como amo aquela mulher — murmurei, já imaginando nossa lua de mel.

Só de pensar nela, meu corpo reagiu. Raquel tinha um poder sobre mim que era quase inexplicável. Me imaginar sem ela… era enlouquecedor.

— Já está pronto? — ouvi a voz da minha mãe ao entrar no quarto.

— Sim. O que acha? — perguntei, me virando para ela com um sorriso, exibindo o traje impecável.

— Você está lindo, como sempre, meu filho.

— Podemos ir para a igreja? Não quero me atrasar — disse, encarando meu reflexo no espelho com expectativa.

— Ainda está cedo — ela respondeu, com um tom calmo. — Sei que não é comum o noivo se atrasar, mas também não precisa ser o primeiro a chegar — brincou, ajeitando a flor na minha lapela.

— Estou tão ansioso… Se dependesse de mim, já iríamos direto para o “sim”.

— Não precisa ter pressa, filho. Sei o quanto gosta da Raquel, mas… acho que esse casamento aconteceu rápido demais.

— Não dava para esperar, mãe. Você sabe como as coisas estão na empresa. Com a abertura da nova sede, vou passar muito tempo trabalhando. Se eu não me casar com ela agora, não sei quando terei tempo novamente para organizar um casamento, além disso, eu a amo e a quero ao meu lado.

— Eu sei… — minha mãe respondeu, olhando direto nos meus olhos. — E, por mais que eu esteja um pouco receosa, tenho certeza de que tudo vai dar certo entre vocês.

— Vai dar, sim, mãe. Tenho tanta certeza disso que aposto que, quando voltarmos da lua de mel, já traremos um netinho para a senhora — disse com um sorriso.

Seus olhos se iluminaram.

— Eu vou amar! — respondeu animada. — Mas olha, não tenha pressa. Você tem apenas trinta anos, está no auge da juventude, da carreira, da vida. Aproveite esse momento com a sua esposa, curta bastante.

— Obrigado pelos conselhos, mãe. Mas agora… podemos ir? — perguntei mais uma vez, consultando o relógio. — Quero dar uma olhada na decoração da igreja antes da cerimônia começar.

Ela riu e balançou a cabeça.

— Tudo bem, senhor ansioso. Vamos.

Entramos no carro e seguimos para a catedral principal da cidade. Assim que descemos, já na entrada, os arranjos luxuosos de flores me chamaram a atenção. O tapete espelhado, estendido até o altar, reluzia sob a luz natural que entrava pelas janelas altas. Estava tudo do jeito que a Raquel solicitou.

A igreja já estava quase cheia. Convidados importantes, familiares e amigos tomavam seus lugares, e alguns, ao me verem, se aproximaram para me parabenizar antecipadamente.

— Ora, ora… se o solteiro mais cobiçado do país não vai mesmo se casar — comentou Fernando, um dos meus amigos, que também seria padrinho. Ele surgiu com um sorriso largo e um olhar brincalhão.

— Pois é... o amor faz essas coisas — respondi, tentando sorrir, mesmo que por dentro eu estivesse um pouco inquieto.

— Agora, do nosso trio, só sobrará o Alessandro solteiro.

Ao ouvi-lo mencionar o nome do meu melhor amigo, senti um incômodo súbito.

— Falando nele… você o viu? — perguntei, notando que Alessandro não havia aparecido e nem mandado nenhuma mensagem hoje.

— Não. Não o vi. Mas como ele te ama tanto, deve estar por aí se embebedando, sabendo que te perdeu para a Raquel — brincou, caindo na risada.

— Que bobeira, eu já disse que, mesmo casado, sempre terei tempo para os amigos. Principalmente quando estiver aqui por perto.

— Eu sei disso e não se preocupe com nada. O Alessandro deve estar preparando alguma surpresa para você. Agora vá lá para dentro, a cerimônia começará em breve e a sua noiva logo chegará. Vai deixá-la esperando no altar?

Dei uma risada leve e caminhei em direção ao altar. Cumprimentei algumas pessoas pelo caminho, mas minha mente estava em outro lugar. A expectativa no peito crescia, mas a ausência de Alessandro me incomodava.

Quando cheguei ao altar, dei uma última olhada ao redor. A igreja já estava lotada. Tudo impecável. Mas ele… ainda não havia dado as caras.

Resolvi ir até a salinha dos fundos do altar. Puxei o celular do bolso, decidido a ligar para aquele cachorro. Já havia avisado que, se ele aparecesse bêbado no dia mais importante da minha vida, eu o mataria.

Mas, antes mesmo de discar, vi uma chamada da minha sogra: Soraya.

Atendi rapidamente.

— Fala, Soraya.

— Renato… — ela respondeu, com a voz trêmula.

— O que foi? Vocês já estão chegando? — perguntei, sentindo um calafrio subir pela espinha.

— Não… é que… — sua voz falhou. — Aconteceu uma coisa terrível.

Meu coração disparou.

— O que houve com a Raquel? — perguntei, já dominado pelo pânico.

— Ela fugiu… — revelou, com um sussurro alterado. — Eu sinto muito, Renato. Ela fugiu com o seu melhor amigo… com o Alessandro.

Por um instante, tudo ao meu redor pareceu girar. O som, a luz, o chão… tudo desapareceu. Senti como se tivesse levado um soco direto no peito.

— O que está dizendo, Soraya?

— Eu juro que não sabia de nada — disse ela, com a voz reprimida. — Foi a Sara… minha filha mais nova… ela acabou de me contar.

Enquanto Soraya tentava explicar, olhei pela fresta da porta e vi a igreja lotada. Todos os olhares se voltavam para mim. Uma fúria crua começou a tomar conta de mim. Raquel e Alessandro não apenas me traíram… eles me jogaram num palco, de frente para o vexame.

— Eu não vou ser abandonado no altar — gritei no telefone, com os punhos cerrados.

— Renato… eu entendo, mas o que podemos fazer agora? A Raquel sumiu! Eu nem sei onde ela está!

— Não me importa! Vocês que deem um jeito. Se em quinze minutos uma noiva não entrar por aquela porta, Soraya… eu juro que vou acabar com essa vidinha confortável que vocês levam às minhas custas. Está me ouvindo?

— Mas… como vamos resolver isso tão rápido?

— Problema de vocês. Se não querem ver o nome de sua família arrastado na lama, deem os seus pulos. Quinze minutos! — Gritei antes de desligar.

Desliguei o telefone com raiva, respirando fundo, com o celular ainda tremendo na minha mão.

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