Rafaelly Pacheco
Soube no instante em que o carro dobrou a esquina.
Não precisei descer. Não precisei sentir o cheiro. Bastou ver o prédio torto, espremido entre um ferro-velho e um bar que ainda tinha cadeiras de plástico viradas sobre as mesas, mesmo sendo quase meio-dia. As paredes descascadas pareciam carregar histórias que ninguém queria ouvir. Janelas estreitas demais. Portas fechadas demais. Tudo ali gritava abandono, ilegalidade e silêncio comprado.
Meu estômago revirou.
— Aqui? — perguntei, sem conseguir esconder o nojo na voz.
Mamãe, sentada ao meu lado, nem sequer virou o rosto. Apenas ajustou os óculos escuros e respondeu com calma.
— Não repare na aparência, Rafaelly. Resultados não moram em lugares bonitos.
Respirei fundo, tentando engolir a repulsa que subia pela garganta. Eu odiava aquele tipo de lugar. Odiava a sensação de estar pisando fora do mundo onde as coisas eram claras, organizadas, previsíveis. Mas odiava ainda mais a ideia de falhar. E falhar, naquele ponto